15 especialistas analisam o jornalismo do futuro

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A prática do jornalismo está imersa num laboratório de ideias permanentes. Hoje, mais do que nunca, são ensaiados modelos inovadores para satisfazer uma audiência que pode aceder a um universo de conteúdos online a partir de qualquer lugar e em qualquer momento.

Para além disso, nunca contexto em que a imprensa tradicional se afoga na queda da publicidade e das vendas em papel, a reinvenção desta profissão que Gabriel García Márquez definiu como “o melhor ofício do mundo”, passa por superar uma série de desafios para os quais não existe uma fórmula magistral. Muito pelo contrário, cada meio de comunicação deve delimitar a sua comunidade e ter bem presente o que o diferencia dos restantes. A partir daí, terá ainda de encontrar forma de ser sustentável. Coisa pouca.

Para esclarecer um pouco, no blog Toyoutome fizemos a mesma pregunta a 15 especialistas na matéria: Como será a prática do jornalismo no futuro próximo? Estas são as respostas.

Mar Abad: Muito poucos jornalistas poderão dedicar-se exclusivamente ao jornalismo. Apenas os que trabalhem para uma empresa apoiada por investidores. Os restantes terão de conciliar este ofício com outras atividades para poderem financiar a sua paixão: a imprensa. Para além disso, após uns anos de excesso de informação rápida e descuidada na Internet, as histórias em profundidade e a procura de temas afastados da agente informativa e cultura de blogs estão recuperando valor”.

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@marabad é sócia-fundadora da revista Yorokobu e da editora de conteúdos Brands&Roses. A sua página pessoal é Marabad.com.

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James Breiner: “Em termos de futuro e presente, a unidade consumida já não é o artigo nem o conteúdo, mas sim a frase ou o arquivo GIF partilhado. Agora, o jornalismo é melhor medido, mas os usuários únicos e as páginas vistas não são uma métrica útil para jornalistas nem anunciantes. A “web de atenção” é um modelo melhor, porque tem em conta alguns indicadores de usuários cuja identidade está praticamente oculta nas “apps”. E nos sítios sem milhões de visitas, os patrocínios substituem os CPM; os sócios e amigos geram mais receitas do que os subscritores”.

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@jamesbreiner é professor de comunicação convidado pela Universidade de Navarra especializado em empreendimento no Jornalismo. Foi jornalista e editor de meios econômicos nos Estados Unidos, e entre 1995 e 2006, foi presidente do Baltimore Business Journal.

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Belén Cebrián:Esse futuro já está tão próximo que é praticamente o presente. O jornalismo de qualidade manterá as suas raízes tradicionais, mas tem de adotar novos hábitos. Jornalismo e tecnologia devem caminhar lado a lado para levar as histórias a uma audiência que impõe as suas prioridades e para quem o jornalista deixou de ser um intermediário omnipresente. Haverá novas formas de financiamento, como o crowdfunding, e os canais de distribuição se multiplicarão através de aplicações. Mas por detrás de uma boa história estará sempre um jornalista fiável, com fontes e profissional”.

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Belén Cebrián é diretora da Escola de Jornalismo UAM-EL PAÍS.

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Pepe Cerezo: Falar do futuro do jornalismo e dos meios é falar do presente. Existe um número cada vez mais extenso de meios que o estão construindo, são os chamados “customer media”: meios orientados para dar resposta aos novos hábitos de consumo do usuário num ecossistema digital cada vez mais complexo. A sua principal característica: colocar o usuário no centro da sua estratégia. Um usuário que acede à Internet maioritariamente através de dispositivos móveis, que utiliza as redes sociais para se informar e que exige mais conteúdos audiovisuais. Os ‘customer media’ estão ‘obcecados’ pelos dados, porque eles estão se convertendo no motor fundamental dos modelos de negócio”.

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@PepeCerezo é diretor da evoca media.

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Montserrat Domínguez: “Eu aposto num jornalismo cada vez mais COLABORATIVO: meios grandes e pequenos, globais e locais, generalistas ou especializados, estamos condenados nos entendermos para que cada um faça o que melhor sabe e se complemente com os demais. Será, obviamente, mais MULTIMÍDIA, porque a cultura das novas gerações é muito visual e requer vídeo, foto, áudio, visualização de dados, infográficos e recursos gráficos, que também sejam MÓVEIS. Mas a grande revolução é COLOCAR OS LEITORES EM FOCO. São os novos amos, e temos de ir buscá-los um a um para os seduzir com a única coisa que não muda: boas histórias, bem contadas, com rigor e independência”.

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@MontseHuffPost é diretora do Huffington Post Espanha.

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Carles A. Foguet:Se por ‘futuro não muito distante’ entendermos ‘depois de amanhã’ e se ‘a prática do jornalismo’ for uma forma de nos referirmos ao que fazemos na Jot Down, podemos atrever-nos a fazer uma previsão baseada na nossa experiência até hoje. Não nascemos com vocação de oposição, mas sim de alternativa, para descobrir se nas margens do convencional se pode fazer as coisas de forma diferente, se neste novo contexto se podia estruturar uma oferta diferente para poder responder a uma procura escondida. Parece que, de momento, há espaço e leitores para quem faz as coisas ao contrário, mas ninguém sabe o que acontecerá amanhã. E talvez isto, a dificuldade de prever o futuro, a capacidade para mudá-lo, também seja uma característica deste jornalismo que já chegou”.

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@hooligags é diretor de Comunicação da Jot Down.

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Jesús Maraña: Não me atrevo a fazer um vaticínio. Oxalá em soubesse! Sei que o presente do jornalismo é um laboratório permanente no qual tentamos superar inúmeros erros cometidos pelas empresas e por nós, os jornalistas, para tornar sustentável no mundo digital o exercício do jornalismo. Creio que esse presente e futuro passa pela especialização, qualidade, fragmentação, profundidade, diversificação e adaptação a novas ferramentas tecnológicas e redes sociais. E, claro, creio que há espaço para o jornalismo de investigação se conseguirmos convencer a sociedade do seu valor cívico e democrático. É o que pretendemos com o www.infolibre.es, seguindo a experiência do nosso parceiro editorial www.mediapart.fr (de subscrição, fundado também por jornalistas e rentável desde o seu terceiro ano). Espero que o infoLibre também o consiga num futuro não muito distante”.

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@jesusmarana é diretor editorial do @_infoLibre e foi diretor do Público até ao desaparecimento deste diário em papel.

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Bernardo Marín:O jornalista do futuro descerá do seu pedestal para manter um diálogo permanente com os seus leitores. Estará atento aos comentários deles. Responderá às perguntas que lhe façam. Terá a preocupação de que as suas notícias, em qualquer suporte, tenham uma audiência mais ampla e que cheguem especialmente aos mais interessados nelas. Mas a essência da sua velha profissão será a mesma. Será extremamente rigoroso, buscará as fontes originais, comprovará todos os dados. Distinguirá a informação da opinião das fábulas. E isso continuará diferenciando o jornalista das outras pessoas na conversação global”.

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@bernimarin é responsável pela área digital do EL PAÍS.

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Javier Montalvo: A revolução tecnológica e a generalização da Internet como canal de acesso à informação transformaram definitivamente o jornalismo. Como indústria, a diluição das barreiras de entrada próprias da edição em papel deu origem a novos meios e obriga a imprensa tradicional a se reinventar. Com a digitalização, os jornalistas têm ao seu alcance, a montante, um volume de informação jamais imaginado e, a jusante, acesso potencialmente universal aos leitores. O tratamento massivo de dados, aplicando-lhes critérios jornalísticos com novas ferramentas e a interação com o leitor e as fontes, com o apoio das redes sociais mas sem utilizá-las para fugir à responsabilidade de jornalista, serão fulcrais para ter meios sãos e independentes”.

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@montalvorozco é redator especializado em Meios e Tecnologia do diário Expansión.

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Ismael Nafría: O jornalismo que pretenda ter algum tipo de êxito no futuro terá que ter em conta muitas coisas, incluindo as seguintes: deverá ser digital, multiplataforma e estar sempre disponível para o usuário, faça o que fizer e esteja onde estiver; deverá ser da máxima qualidade e oferecer algo realmente diferente da concorrência, de forma a que valha a pena pagar por ele; será conveniente que combine uma oferta gratuita com uma paga para os usuários mais exigentes; deverá financiar-se através de várias vias, sendo as duas principais os usuários – que pagarão pelos conteúdos – e a publicidade; deverá assentar numa combinação de marcas fortes e vozes pessoais com grande autoridade; deverá ser visual, aberto à participação, social, multimídia e personalizável; será imprescindível que seja realmente relevante para a vida das pessoas, muito exigente com o poder e muito útil para os usuários e, como sempre aconteceu com o melhor jornalismo, deverá contar grandes histórias que interessem às pessoas e que ajudem a compreender o mundo que nos rodeia“.

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@ismaelnafria é diretor de Inovação Digital do Grupo Godó e responsável do projeto de jornalismo de análise de dados VangData.

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Luis Prados:Essencialmente, no que se refere à profissão de jornalista, não será muito diferente do jornalismo que se fazia num passado muito distante. Continuará sendo necessário ir aos sítios, falar com as pessoas, comparar dados e informações, escrever com rigor, etc. E o seu papel como intermediário entre os diferentes grupos sociais e de crítica denuncia e denúncia dos abusos do poder político ou econômico também se manterá vigente. Dito isto, terá de se adaptar mais rapidamente e melhor às constantes mudanças tecnológicas, às diferentes plataformas de distribuição de conteúdos informativos que estejam para vir e aos novos valores e hábitos de consumo do público leitor. O jornalista não ocupará já provavelmente um lugar proeminente na hora de fixar a agente de um país, e terá de aceitar que faz parte de uma conversa social e global. Ou seja, menos soberba, mais humildade e mais informação exclusiva, verdadeira e fiável”.

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@lpescosura é subdiretor do EL PAÍS e diretor da  edición América do mesmo diário. Para além disso, em 2013 lanzó EL PAÍS Brasil, a primeira versão noutro idioma deste periódico.

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Delia Rodríguez:Creio que os próximos anos serão muito interessantes para os jornalistas, tal como foram os anteriores. Veremos como o Facebook é cada vez mais importante, como nascem novas redes sociais que demoraremos a entender e aceitar, a união entre os celulares e o vídeo arrasará, e as comunidades e as marcas pessoais serão cada vez mais importantes, a chegada da realidade virtual aos lares mudará o entretenimento… e creio que continuaremos não tendo resposta à grande pergunta de como nos financiarmos melhor. No Verne (verne.es) estamos tentando explorar alguns destes caminhos”.

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@delia2d é diretora do Verne.

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Gonzalo Téubal: Encarando a pergunta textualmente, no futuro, a prática do jornalismo será a mesma que no presente e, claro, a mesma do passado. Porque o jornalismo, na sua essência, não muda. Se trata de contar histórias que interessam a pessoas que precisam de conhecê-las. Mas não quero fugir à pergunta de fundo, porque temos de nos interrogar como vamos distribuir essas histórias e como vamos contá-las. Então, olho para a minha bola de crista e o que vejo? Vejo redes de usuários que subscrevem conteúdos muito locais, vejo novos formatos de apresentação de dados, vejo tablets que se dobram, vejo jornalistas que são eles próprios os meios, vejo nichos, vejo redações pequenas e ágeis, vejo meios sem um suporte definido e que são muito suportes…”.

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@GTeubal é chefe de Produto web no Cinco Días.

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Sara Velert:O jornalismo do futuro já é o presente, e ao mesmo tempo é o de sempre. Informamos, contamos histórias, analisamos a atualidade para explicar o que se passa e por que se passa. Hoje, como ontem, com veracidade e rigor. Princípios que não perdem vigência pela evolução dos suportes em que trabalhamos. O jornalismo digital e a difusão da informação através das redes sociais mudaram e continuarão mudando, tal como a forma de transmissão de notícias, mas não a sua essência”.

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@saravelert é professora da Escola de Jornalismo UAM-EL PAÍS e jornalista do EL PAÍS na secção Internacional.

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Juanjo Villalba: “

Se o jornalismo sempre foi um pouco a arte do imediato, no futuro será mais ainda. Não obstante, duvido que nunca desapareça o papel. No nosso meio, nem sequer o contemplamos. Como está acontecendo hoje em dia, se tornarão mais evidentes as diferenças entre um jornalismo que poderíamos chamar ‘imediato’, online, de rápido consumo, de ‘trending topics’ e viralidade; e um jornalismo ‘de sofá’. Em papel ou não, mas em casa e mais noturno ou de fim de semana. Isso se refletirá, inevitavelmente, também na própria prática do jornalismo, que terá de acelerar o passo ainda mais do que agora, cada vez mais atento à forma como conta as coisas a um público que tem o detector de bobagens cada vez mais apurado, mas também mantendo essa forma de trabalhar em textos longos e cuidados, para ler com calma.

E claro, já que falamos de conteúdos de rápido consumo e que chamam a atenção, pensamos também nos conteúdos em vídeo. É um formato em que já demonstramos que não temos de nos limitar a pequenos trechos de dois minutos. Um usuário da Internet pode ficar vendo um vídeo de 25 minutos, se o conteúdo se adaptar ao seu gosto e o seu detector de bobagens não ficar vibrando como um celular. Não se pode contar as coisas da mesma forma que há 10 anos, quase não se pode contar as coisas como no ano passado, não podemos ficar quietos, temos de nos adaptar à velocidade a que mudam as novas gerações. ‘Streaming’, jornalismo imersivo e até realidade virtual são também palavras fulcrais em tudo isso“.

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@juanjovillalba é editor chefe da Vice Espanha.

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3 Comentarios

  • avatar Violeta González (@vioglez) 12 maio, 2015

    Aunque respeto a muchos de los entrevistados, me parece más acertado preguntar a los clientes cómo quieren que se les informe. Los periodistas nos miramos demasiado el ombligo.

    • avatar Toyoutome 13 maio, 2015

      Pues creo que es una gran idea Violeta. Ahora que el lector es el protagonista ese punto de vista resultará interesante.

  • avatar jose antonio 5 maio, 2015

    Un artículo muy interesante, sobre todo, por la selección de las personas que han aportado su visión.

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