2020: a rádio perfeita em 10 dados

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Separa-nos de 2020 o mesmo tempo que nos separa de 2010, mas as coisas avançam cada vez mais depressa. Se há um exercício que adoro fazer desde pequeno, para além da rádio, é o da perspectiva. Tentas descobrir do que consistirá esse tal “futuro” é apaixonante. Que tal viajar até ao futuro baseando-nos em alguns dados do presente? Recolhi dez dados para retirarmos dez conclusões que nos podem dar uma boa pista.

Dado 1: O tempo é cada vez mais valioso

Ninguém duvida. Se antes se dizia “o tempo vale ouro”, agora vale muito mais. Portanto, qualquer aplicação que sirva para poupar tempo é valiosa. Antes, o desafio era conseguir apresentar ao ouvinte os conteúdos para que ele os escolhesse. Agora, o desafio é adivinhar o que lhe vai agradar e oferecer-lho em apenas alguns segundos. Aqui, as variáveis biométricas, geolocalizadas e obtidas a partir das suas buscas e e-mails, desempenham um papel fundamental para descobrir a sua identidade, o que quer escutar, e oferecê-lo antes que tenha tempo de respirar.

Primeira conclusão: A rádio “à la carte” dará lugar à rádio “pessoal”.

A investigação sobre a escuta a nível individual dará rapidamente origem à rádio perfeita… para si. Já somos bastantes investigando a geração de conteúdos específicos para públicos concretos. Entretanto, outros estão criando a tecnologia para conseguir acertar no momento da audição. Continuaremos informando.

Dado 2: O lado humano é essencial

O que faz com que a rádio musical, apesar dos canais de música “à la carte” como o Yes.fm ou o Spotify, continue sendo escutada por milhões de pessoas? A companhia de uma pessoa. Uma pessoa nos conta o que sente ou pensa, conta coisas, e isso nunca se pode substituir com uma seleção musical perfeita. Quanto mais complexa é a tecnologia, mais se valorizam os conteúdos humanos que existem no seu interior. O que melhor funciona nas redes sociais são as publicações de caráter humano marcado. As futuras gerações não imaginarão um mundo que não esteja socialmente unido, e terão sempre o desejo de se ligarem aos sentimentos e experiências de outros seres humanos.

Segunda conclusão: Continuarão existindo locutores.

E os seus valores, naturalidade e transparência serão cada vez mais valorizados.

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Dado 3: As programações musicais baseadas em sistemas de medição avançados têm limitações

Os sistemas como o Coleman (entre outros) dirigiram durante bastantes anos as programações musicais de milhares de emissoras em todo o mundo. Continuam dirigindo, e provavelmente continuarão, mas os seus limites são cada vez mais evidentes. Precisamente como no ponto anterior, o lado humano da programação musical não pode desaparecer.

Terceira conclusão: O computador orientará, mas o diretor musical e o comunicador retomarão as rédeas.

Um GPS nos dá uma rota, mas a última palavra cabe sempre ao condutor. E o comunicador não perderá o seu papel de prescritor, ou dito de outro modo… humano.

Dado 4: A rádio já não é apenas “rádio

Já há muito tempo, com a transformação dos departamentos de documentação em autênticas centrais de “gestão de conteúdos”, que se vê o caminho tomado pela indústria radiofônica. A venda de postos físicos não fez mais do que demonstrar que uma rádio já não é uma rádio. É um fornecedor de conteúdos. E esses conteúdos são transmitidos em vários dispositivos: TDT, smartphones, tablets, web, podcast, etc. Desde que os iPhones surgiram sem FM que a escuta online tem crescido a um ritmo anual frenético. Aparecem os second screen, que telas é o que não falta. O canal se desvincula cada vez mais do conteúdo.

 Quarta conclusão: As rádios deixarão de ser “meios” para passarem definitivamente a serem “produtoras de conteúdos”.

Quanto mais forem aplicados os procedimentos e estruturas deste último tipo de empresas, mais próximos estaremos da sustentabilidade do negócio. É inevitável.

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Dado 5: Se não estivermos num smartphone, não existimos

O transístor era transportado no bolso. Agora, não nos separamos do celular. Até em casa, escolhemos o que queremos escutar no nosso celular, que é onde guardamos todas as nossas preferências, perfis e características pessoais. A rádio tem de girar, necessariamente, em torno deste aparelho que começou por servir para… fazer telefonemas?

Quinta conclusão: O celular será, definitivamente, a nossa rádio.

E o centro dos canais de distribuição de conteúdos.

Dado 6: As marcas não se conformam com a colocação de anúncios

As inserções em forma de anúncio serviram durante anos, mas o próprio meio reconhece que de cada vez que é dito “uma pausa e voltamos já” que o cliente está farto de falar quando ninguém está escutando, se ser o culpado pelo zapping e de viver das migalhas do que sobra do conteúdo. Se paga o banquete, ele quer se sentar ao centro. Já estão surgindo algumas concessões nas programações a marcas e agências, e veremos cada vez mais este método de produção.

Sexta conclusão: O branded content está apenas começando.

As marcas e agências produzirão cada vez mais conteúdos para a rádio.

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Dado 7: Existem milhares de emissoras online, mas poucas com audiências significativas 

A possibilidade de fazer uma rádio “doméstica” inundou a rede com enormes quantidades de conteúdos seguidos por algumas dezenas de pessoas, na maioria dos casos, e centenas em alguns casos muito concretos. Este fenômeno, na realidade, não é novo. Em pleno boom da rádios pirata dos anos 80, coloquei uma antena na minha varanda. O pequeno transmissor que ainda guardo conseguiu que mais do que um vizinho me conseguisse escutar, mas era difícil competir com as grandes cadeias. Me serviu de escola, e para conhecer a rádio em todos os seus aspectos. A realidade, graças à Internet, superou toda a ficção. As grandes cadeias começam a precisar de segundos, terceiros ou quartos canais para poder colocar conteúdos segmentados. Um exemplo: os jogos do meio-dia de domingo são emitidos, salvo raras exceções, através da SER 2, ou seja, a antiga Onda Média. E se pudesse fazê-lo, a rádio emitiria simultaneamente dezenas de possíveis conteúdos para cada tipo de ouvinte. E muito provavelmente o fará.

Sétima conclusão: A “atomização” do sinal em micro-canais é inevitável.

Canais para nostálgicos da música espanhola dos anos 70 da mesma emissora (produtora) de música moderna a partir do ano 2000, com alguns conteúdos (branded, claro) comuns. Há iniciativas muito concretas e bem-sucedidas, como o Radionomy, que lhe permite ter a sua própria rádio em minutos.

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Dado 8: A publicidade já está sendo distribuída em canais pequenos para alcançar um impacto equivalente ao de um meio maior

Já muitos de nós ouvimos anúncios em espanhol e até da nossa província ao escutarmos uma rádio online norte-americana temática que, quando muito, escutará um punhado de locos por esse estilo musical. O que talvez não saiba é que esse mesmo conteúdo publicitário está passando em centenas de emissoras de Internet semelhantes. No final, o resultado numérico acaba sendo semelhante ao da emissão de uma rádio local em FM. Os sistemas de distribuição de publicidade para rádio pela Internet arrancaram em força e não parece que vão abandonar a corrida. Estamos no tempo do real-time bidding, a licitação por espaços dentro das programações, segundo os especialistas.

Oitava conclusão: A atomização do sinal dá origem à atomização do conteúdo publicitário.

Enquanto antes produzíamos anúncios genéricos, agora criamos conteúdos publicitários “de nicho” para marcas em canais e programas.

Dado 9: A gestão dos direitos de autor é um caos

Um músico meu amigo aceitou não cobrar a produção de sintonias porque esperava receber os direitos de autor correspondentes à emissão diária, durante anos, das suas composições numa cadeia de alcance nacional. Mas ainda não recebeu esse benefício. Por outro lado, uma rádio online criada por fãs não poder sobreviver por não poder cumprir o solicitado pela SGAE e AGEDI. As emissoras não podem pagar tanto, os músicos não cobram o que merecem. A indústria editorial engloba muitíssimos mais intermediários do que é necessário. Existe corrupção, esbanjamento e tráfico de influências. Por outro lado, já existem canais de sucesso (SoundCloud, Free Music Archive, CCMixter ou Jamendo, entre outros) em que podemos escutar artistas que cedem os direitos de utilização das suas composições mediante uma licença Creative Commons, que é já um símbolo de liberdade na rede. Seguramente que muitos destes artistas têm pouco que invejar aos que são ouvidos nas emissões convencionais de música comercial. Projetos aglutinadores pedem colaborações a artistas de todas as disciplinas cedendo direitos em troca de benefícios, se houverem.

Nona conclusão: A gestão dos direitos de autor será mais justa e cada vez mais artistas utilização licenças Creativa Commons.

Dado 10: A rádio sobrevive a qualquer meio ou tempo histórico

O seu imediatismo, o fato de chegar a todo o lado, o valor da companhia humana e sua capacidade para criar uma comunidade resistiu ao impacto da televisão, Internet, redes sociais e até dos sistemas de música “à la carte”. Gostamos sempre de ter no bolso alguém que nos conte coisas que nos interessem.

Última conclusão: Teremos rádio por muito tempo. Dê por onde der. Aconteça o que acontecer.


Juanma Ortega
Presentador de la Cadena SER y director de Estudios Quinto Nivel.

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