90 anos de rádio: da rádio musical a TV

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Cheguei à Radio Madrid num dia de dezembro de 1985. Naquela altura, a rádio ocupava dois pisos muito afastados: o segundo e o nono. Pelo meio, partilhávamos o edifício com uma escola de inglês, uma série de escritórios e duas agências de viagens.

Nesse dia, descobri que fazer a magia da rádio no meio do caos não era um exclusivo do meu quarto em casa. Os singles se amontoavam juntamente com fitas magnéticas, cassetes, revistas musicais, ofertas promocionais e objetos de todo o tipo nas quatro mesas que cabiam num espaço do tamanho de um pequeno apartamento. Aquilo era a redação de Los 40 de Madrid e da recém-criada Cadena 40 Principales.

Juan_de_Dios_Martinez_estudio_40

La radio musical trajo los primeros disc jockeys y los estudios sin técnico. En la foto, Juan de Dios Martínez hace su turno de 40 Principales.

Ao fundo, ficava a porta do único gabinete, o de Rafael Revert, pai da fórmula de êxito na rádio comercial espanhola. Lá dentro, mais singles, mais jornais e mais fitas. Uma mesa, um telefone e, claro está, nada de computador. Foi nesse gabinete que se decidiu que artistas fariam parte da nossa vida: Mecano, Bosé, Hombres G, e até os Héroes del Silencio. Foram o que se chamava no jargão… “Disco Vermelho na SER”. Nunca viremos a saber o que aconteceu com outros que não foram eleitos para essa glória.

No lado oposto, uma vitrine com uma porta ao lado. Atrás desse “aquário”, o DJ se esforçava por transmitir todo o entusiasmo de trabalhar na emissora musical número um, apesar de não parecer. Toca-discos com braços para mudar trilhas dos anos 60 davam voltas sem parar ao lado de um gravador Revox e dezenas de cartuchos de fita amontoados e rotulados com tiras em relevo Dymo com os comerciais.

No primeiro dia em que fui para o ar na Radio Madrid, eu que vinha da sempre bem organizada Radio Barcelona, pedi a Rosa García Caro (que estava de turno) que não publicitasse demasiado a minha origem catalã, para tentar cair nas boas graças. A primeira coisa que ela disse no ar foi: “Temos aqui um catalão que diz que deixou uma moeda de cinco pesetas debaixo da mesa e que veio expressamente de Barcelona para a buscar. Fiquem com Juanma Ortega.” Grande estreia.

Fans_frente al edificio de Gran Vía

Una de las habituales aglomeraciones de fans frente al edificio de Gran Vía. En este caso esperaban al grupo “New Kids on the block”.

Para entrar no posto do DJ e sentar naquela cadeira carcomida que parecia verde, você tinha de contornar uma enorme televisão a cores e uma miríade de cabos que atravessavam precisamente a zona de passagem. A história mais caricata daquele cubículo foi protagonizada pela famosa e peituda Sabrina, ao tropeçar nos cabos quando estava entrando para ser entrevistada. O que restava da carpete roída fez o resto. A sua queda se ouviu na emissão como um golpe seco, com silêncio e uma partida “de peito” posterior, claro.

Passaram uns anos até José Antonio Abellán dizer uma frase que recordarei para sempre: “Passamos dos estúdios mais pobres do mundo para os melhores.” Como testemunha, um sorridente Paul McCartney que, naquele junho de 1989, queria que “My Brave Face” fosse um êxito também em Espanha. Na placa inaugural, estava impresso 9 de junho, mas era dia 10. Sem pensar duas vezes, o próprio Paul, com uma pequena chave, rasurou o 9 e talhou um rudimentar 1 e um 0 que permaneceram na placa durante todos os anos que presidiu a entrada da estufa que seria, durante décadas, a catedral da rádio musical espanhola.

Sim, estufa. Era uma varanda com estrutura de vidro, toldos retrácteis e vistas sem igual para toda a cidade de Madrid. Era impossível não nos sentirmos um pouco o DJ de um salão de festas gigantesco do tamanho da capital, com a Torre Picasso ao fundo. Esse era o lugar do qual alguns felizardos podiam levar os valores da 40 Principales para a televisão, no Canal Plus. Eu, que ainda há tão pouco tempo fazia rádio em casa com uma antena na varanda, sentia que tudo aquilo era um verdadeiro sonho.

Nos anos que se seguiram, a vida passava no espaço contínuo aos três estúdios que estavam atribuídos à cadeia musical, que não era muito maior do que o antro anterior. À equipe de DJs e estrelas da rádio juvenil, se juntavam agora três secretárias, um coordenador, dois chefes e um fenômeno único na sua espécie: “A Mesa de Luqui”. Consistia em todo um mostruário de publicações, revistas, fotos e discos de vários anos, amontoados. Quando se ultrapassava uma altura que não deixava ver o vidro do estudo auxiliar, um funcionário dos Serviços Gerais embalava tudo e levava o espólio para casa. Naquele camarote, se gritava e era permitido fumar. Todos os dias, as secretárias pediam silêncio umas dez vezes enquanto atendiam as chamadas de ouvintes pedindo ingressos para concertos ou perguntando qualquer coisa sobre o que se tinha dito em antena. Aquilo deve ter-lhes dado uma carapaça, porque quase todas continuam na casa e recordam aquela época com carinho.

Juanma_Ortega y Tom Jones

El cantante galés Tom Jones acompañado de Juanma Ortega en los estudios de Cadena SER de Gran Vía.

Gravávamos programas e comerciais apinhados, fazendo fila enquanto ouvíamos os sermões dos chefes de promoção das editoras discográficas. Mas sabíamos (apenas em parte) que influenciaríamos os milhões de adolescentes da altura que agora podem ser executivos, pilotos ou funcionários públicos, e que jamais se esqueceriam dos artistas que lhes apresentávamos e das coisas que lhes contávamos.

Um exemplo claríssimo de tudo isso cortou a Gran Vía. Os Take That vieram e as fãs tomaram literalmente de assalto a entrada do número 3232. O problema da segurança foi tão complexo, ao ponto de nos depararmos, em plena entrevista, com garotas saltando para o estúdio depois de subir pela fachada do prédio até ao oitavo piso. O então diretor de Los 40, Luis Merino, juntamente com o agora Chefe de Emissão, Alberto Ruano, tiveram a ideia genial de descer um microfone da varanda para poderem interagir com as adolescentes que tinham rádio. Se estabeleceu então um irrepetível diálogo entre as saudações da banda no estúdio e os gritos das suas fãs na rua.

O corredor, agora sala de fumadores improvisada, que unia a zona musical à Cadena SER, servia de plateau para que o Canal Plus gravasse entrevistas com os artistas que se encontravam na rádio para “El Gran Musical”. Ao fundo desse corredor, a sala de espera com sofás amarelos era ocupada em algumas noites por aqueles que, de vez em quando, lá ficavam a dormir para poder continuar trabalhando. Mesmo ao lado, as máquinas de café nos ajudavam a ficar acordados. Sempre presente estava a decoração de fundo dos telhados de uma Madrid em mudança, crescente.

Pouco depois chegaria o A1, Hoy por Hoy, Carrusel Deportivo, o público, os artistas e o piano, as “Superbowls” e outro ajuntamento humano: o dos nossos amigos ouvintes ao se querer partilhar momentos de rádio e esporte.

As minhas piores recordações das vitrines do estúdio são nuvens de fumo. O 11 de Março, o Windsor… Tudo se via claramente das janelas que davam para a cidade. É claro que também fazer um programa matinal como o Anda Ya durante oito anos me permitiu fotografar dezenas de amanheceres, que publiquei na Internet antes de existirem as redes sociais. Alguém escolheu um deles para fazer um trabalho. E essa pessoa me pediu autorização para o usar. E a conversa acabou se chamando Alex e tem agora 4 anos. O meu filho me pede agora para “ir à rádio” sempre que passamos pela Gran Vía. Ele adora ver os técnicos no estúdio e indo para a varanda da qual se verão mais amanheceres nos próximos 90 anos.

  • Si quieres conocer más sobre la historia y los actos de celebración del 90 Aniversario de Radio Madrid accede a esta web: 90 Aniversario

Juamna_Ortega

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Juanma Ortega
Presentador de la Cadena SER y director de Estudios Quinto Nivel.

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