Avatares de uma imigrante digital #14

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Nativos versus imigrantes

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Aquela era uma tarde de confissões.

– A culpa de eu ter de me esforçar tanto para deixar de ser uma inepta digital é da minha infância analógica.

– Explique-se melhor, querida – disse Richard.

– Os meus pais nunca quiseram me comprar uma “maquineta” de matar marcianos, não tive um leitor de vídeo até aos vinte e tal anos, quando já não era necessário optar entre Beta e VHS, e nem sequer me ofereceram na primeira comunhão um daqueles relógios digitais com calculadora tão bacanos da Casio…

– Ai, Anita, agora já entendo tudo. Eu, por outro lado, me fartei de tragar bolas e fugir de fantasmas jogando “Pac-Man”. Cultivei muito a paciência esperando que o jogo carregasse no meu Spectrum, com aqueles cartuchos que faziam um barulho infernal.

– Está vendo? Esses pormenores foram o que nos tornou tão diferentes. Mas, ouça, eu até tenho algumas noções de programação.

– Essa é boa. Desembuche.

– Estudei BASIC no colégio –disse Ana, pavoneando-se.

– Você me mata. E se lembra de alguma coisa?

– Claro, tinha de inserir PRINT “Ana” RUN ENTER, e depois o meu nome aparecia na tela em letras brilhantes. Bom, ou algo do gênero.

– E isso era o máximo naquela idade, não era? Se nos tivessem falado na altura do mouse, do Windows, dos portáteis e de todas essas coisas, tínhamos flipado.

– Sim, os nativos digitais não entendem o que nós, os imigrantes, sofremos, sobretudo os ineptos como eu.

– Agora têm tudo de mão beijada, nós é que temos mérito. Eu acho uma graça as pessoas que alucinam quando vêem um neném de um ano passando fotos num smartphone ou num tablet. E os pais da criatura dizem logo: “Esta criança é um gênio”. No entanto, acham perfeitamente normal folhearem um livro em papel. Pois para um nativo digital, é a mesma coisa, na minha opinião.

– Tenho de reconhecer que, de vez em quando, você até diz coisas muito sensatas, Richard.

– Obrigado, querida, também gosto muito de você.

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Já todos nos perdemos alguma vez neste novo e mutável mundo digital tão repleto de tecnologia. Descubra através da Ana como todos estes avatares vão afetando uma personagem totalmente analógica que, de repente, se vê envolvida em todo este mundo cibernético.

Se se identifica com Ana, basta enviar-nos a sua confissão escrevendo o seu comentário no final da página.

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