Big data versus privacidade: é necessário renovar o contrato social entre cidadãos, governo e empresas?

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Dados, dados, dados… Sim, todos os fóruns sobre economia digital insistem que são “o novo petróleo” e que uma gestão inteligente dos mesmos terá como resultado grandes oportunidades nos mais diversos setores. Mas como se conjuga essa exploração da informação com a proteção dos dados pessoais? Está a ser feita uma análise correta desses dados do ponto de vista ético? É necessário renovar o contrato social para regular da melhor maneira os pontos de ligação entre a privacidade e os diferentes usos do big data? Até que ponto isto refreia o empreendedorismo no mundo digital?

Estas e outras questões foram o ponto de partida de “Rumo a uma sociedade de dados”, a mesa redonda organizada pela Adigital no âmbito do seu encontro InnoData, celebrado ontem em Madrid. Moderado por Borja Bergareche, diretor de Inovação e responsável do Vocento Media Lab, este debate contou com a participação de Borja Adsuara, conselheiro de estratégia digital de diferentes empresas e da Administração Pública; Noelia Fernández Arroyo, diretora-geral de Desenvolvimento de Negócios e Transformação Digital da PRISA; Bernardo Hernández, ex-diretor do Flickr, empreendedor e investidor; e Antoni Gutiérrez-Rubí, assessor de comunicação e consultor político.

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Desde o primeiro momento, Adsuara deixou bem clara essa necessidade de renovar o contrato social não só entre cidadãos e governos, mas também entre as empresas. E, a seu ver, essas relações devem articular-se com base na confiança e na boa-fé, ou seja, na lealdade por parte de todos os implicados. “Fala-se muito de gestão inteligente dos dados, mas é muito necessário trazer à baila o tema da gestão leal dos dados, algo que não se tem trabalhado o suficiente aqui, ao contrário do sistema anglo-saxónico”, salientou durante a sua intervenção. Além disso, o ex-diretor-geral da Red.es assinalou que essa diferença em relação a outros países faz com que, em Espanha, se conte com certas limitações no momento de inovar: “No sistema anglo-saxónico, partem do princípio que as pessoas vão agir bem. E, como num mundo global não competem apenas as empresas, mas também os sistemas jurídicos, contam com vantagens porque não têm leis que refreiem a inovação. A priori, os cidadãos são livres de pôr em marcha projetos e os governos confiam que farão bom uso dos dados.”

Noelia Fernández Arroyo mostrou-se de acordo com Adsuara na ideia de que é necessário lutar contra esse controlo prévio que trava o empreendedorismo no mundo digital. Mas, na sua opinião, a nível tecnológico, os espanhóis já estão muito preparados para explorar todas as oportunidades que o big data oferece. Concretamente, assinalou que, a nível do jornalismo, já há uma série de agentes muito bem instalados neste meio e que, de forma proativa, estão a utilizar essa gestão sofisticada dos dados para os incorporar no processo informativo e identificar áreas de denúncia. “Agora, contamos com ferramentas tecnológicas que nos ajudam a planificar a investigação com todo esse universo de dados e a fazer correlações entre diversas variáveis, o que se traduz numa oportunidade muito interessante para recuperar a figura do jornalista capaz de formular as perguntas fundamentais perante uma determinada situação e de contar histórias com maior profundidade”, afirmou.

Mas o que fez com que, hoje em dia, se esteja a falar desse confronto entre o big data e os dados pessoais? Para Bernardo Hernández, tudo começa no momento em que os “pais da Internet” deixaram que o desenvolvimento da tecnologia permitisse duas ações que redundaram em dois problemas: o anonimato e a falta de respeito pela propriedade intelectual. “Os governos devem regular a forma de travar a facilidade com que podemos dizer na Internet coisas extraordinariamente duras e muito graves graças a esse tremendo anonimato, assim como refrear a prática do copiar e colar através da qual se torna possível difundir por todo o lado a propriedade intelectual de outras pessoas. Mas as companhias têm uma responsabilidade para com os utilizadores e um dos nossos princípios mais importantes é o respeito e a proteção dos seus dados pessoais. Se, para cumprir este princípio, há que pagar o preço de enfrentar os governos, teremos de o fazer.”

Ainda neste contexto, Antoni Gutiérrez-Rubí realçou que os dados são, de um modo geral, ignorados na política: “Governa-se com intuições, convicções, paixões e intenções, mas não com dados. E, quando são usados, costuma ser para arremessá-los uns contra os outros sem nem sequer confirmá-los.” Do mesmo modo, e na opinião deste assessor de comunicação, é necessário que os governos não confundam dados com conhecimento, para o qual é relevante enriquecer o pensamento político com outras metodologias, pontos de vista ou disciplinas. “Os dados que não me ajudam a pensar preocupam-me, porque podem dar-me uma imagem fixa de uma determinada situação, mas mais nada.” Neste sentido, Gutiérrez-Rubí incentivou as empresas e os meios de comunicação a concentrarem-se na informação que ajude os cidadãos a pensar sobre “causas e relações”, que são o ADN da política.

Precisamente, as novas tecnologias, a Lei de Administração Eletrónica e a transparência das instituições públicas na Internet farão com que os cidadãos voltem a ter consciência de que os seus representantes têm de lhes prestar contas, algo que agora poderá ser feito “em tempo real e não apenas de quatro em quatro anos”, como assinalou Borja Adsuara, que acrescentou que deveria existir uma “política de dados”, da mesma forma que já existe um jornalismo de dados: “Os cidadãos não estão habituados a fazer exigências ao Governo mas, muito em breve, começaremos a ver como cada vez mais se pedirá uma maior avaliação das políticas públicas.”

Esta reflexão foi também partilhada por Noelia Fernández Arroyo que, enquanto representante de um grupo de media, advogou o “regresso aos princípios básicos da profissão de jornalista, com o objetivo de prestar um serviço à comunidade”. Para tal, no contexto digital atual, é fundamental, hoje mais do que nunca, colocar o público “no centro do processo informativo” e que os meios de comunicação social se certifiquem de que contam com jornalistas preparados, ou seja, que saibam utilizar a tecnologia da forma mais pragmática possível para dar resposta às perguntas que os cidadãos colocam. Com este propósito, agora, as redações devem configurar-se com perfis diferentes e rodear os jornalistas de programadores e especialistas em visualização de dados. “Tudo isto vai ajudar-nos a dar resposta aos desafios que o público exige neste momento, se bem que devemos tentar não fazer projetos megalómanos, com grandes transformações a um prazo de cinco anos, por exemplo, mas temos isso sim de ter um sentido mais prático que nos ajude a mudar com rapidez, adaptando-nos às diferentes variações do meio.”

Neste processo de transformação, nunca podemos matar o espírito dos empreendedores corporativos ou dos intraempreendedores “por medo do risco”. Muito pelo contrário. Segundo Fernández Arroyo, deveríamos fomentar a existência dessas figuras de agentes e criadores que, apesar de se sentirem muito bem nas companhias em que trabalham, querem arriscar, mudar as coisas, criar novos produtos… “É preciso criar esse ecossistema para podermos avançar”, assinalou.

E por falar em empreendedorismo, se há alguém que percebe muito sobre isso é Bernardo Hernández, que aproveitou a sua participação nesta mesa redonda para partilhar a sua receita para criar um negócio de êxito no meio digital: “Identificar um problema importante que afete centenas de milhões de pessoas, desenvolver uma mais-valia competitiva tecnológica que resolva esse desafio; angariar dinheiro suficiente para ter o tempo necessário para iterar; e concentrar-se, ou melhor dito, debruçar-se obsessivamente sobre a resolução de um único problema.”

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