Conversas inspiradoras: Noelia Fernández e Javier Rodríguez Zapatero analisam a transformação digital

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O homem que foi diretor-geral da Google Espanha e Portugal durante quase nove anos, Javier Rodríguez Zapatero, esteve à conversa connosco precisamente no último dia em que exercia esse cargo. Noelia Fernández, diretora de Transformação da PRISA, trouxe-o como convidado ao “All Hands”, evento que se organiza periodicamente com os diversos departamentos de transformação digital e tecnologia da PRISA. Aqui fica a conversa.

Noelia Fernández.- Antes de mais, há algo que tenho de te perguntar. Trabalhas há quase nove anos no que se considera ser o motor digital da mudança a nível global, a Google. O que te levou a fazer uma mudança e passar a dirigir o ISDI, cujo enfoque principal é a formação?

Javier Rodríguez Zapatero.- Os meus filhos não entendem porque vou deixar a Google quando tem escritórios tão fixes. Eu digo-lhes que, dentro de alguns anos, darão valor a esta mudança. Trabalho há 25 anos em multinacionais, sempre americanas, 18 deles em multinacionais dedicadas à Internet. E acho que, nessas empresas, ajudei o meu país tanto quanto podia, mas agora prefiro continuar a ajudá-lo no âmbito da educação e da formação.

O ISDI começou há sete anos apenas como um mestrado e, agora, é muito mais do que isso, é um ecossistema que está presente em vários países e é também uma aceleradora de empresas. Na Google, ajudámos este país a avançar um pouco mais depressa, mas é na formação que está a diferença para que um país avance e esteja preparado a nível digital e, neste sentido, é o fator de competitividade mais importante que uma sociedade pode ter.

NF.- A Google tem gerado mudanças contínuas. Juntamente com a formação e o talento humano, que elementos, a teu ver, tiveram mais peso nas equipas com que trabalhaste?

Noe_Zapatero_AllHands01JRZ.- Neste contexto tão mutável em que temos de tomar decisões no momento e em que o consumidor, utilizador ou leitor está em constante mudança, tudo tem de ser rápido e flexível. O que aprendemos num dia já não é válido no seguinte. É por isso que a atitude que devemos ter perante esta mudança é a de sermos como as crianças, no sentido em que é preciso estar constantemente a fazer perguntas e perder o medo de aprender coisas novas. Digo a mim mesmo que tenho de ser como uma criança, porque tenho de continuar a aprender e a fazer perguntas. Numa organização em que as pessoas não sentem que são como crianças, elas deixam de querer aprender a dizer as coisas, a comunicar entre si. Julgamos que o recurso mais escasso é o tempo, mas é a energia. Se canalizarmos essa energia para a colaboração e não para a negatividade, conseguimos fazer mais coisas. Portanto, sintamo-nos crianças e dediquemos a nossa energia a construir. Se a isto aliarmos a capacidade de aprendizagem constante, será uma garantia de sucesso nesta área tão exigente.

NF.- No que diz respeito à transformação das empresas, há vários anos que trabalhas com os CEO mais importantes do país e lhes dizes que devem mudar e transformar o seu negócio para se adequar às novas abordagens. Como tem sido a tua experiência neste sentido, nos últimos anos? Achas que as empresas demonstram agora mais iniciativa para a transformação do que há uns anos?

JRZ.- Essa foi uma das partes do meu trabalho na Google que mais prazer me deu, uma vez que pude falar com os presidentes de várias companhias e comprovar que, pelo menos, me ouviam. Alguns davam-me mais ouvidos do que outros mas, felizmente, encontramo-nos num momento em que toda a gente reconhece que vivemos uma altura de mudanças, que a transformação digital veio para ficar e que, seguramente, dentro de poucos anos, veremos outras coisas que não terão a ver com a revolução digital que estamos a viver no presente. Eu particularmente acho que as empresas espanholas estão melhores e mais dispostas do que as de outros países. Além disso, como sou um otimista digital, acho que a Espanha é um país com talento, criatividade, vontade e capacidade de reagir sempre no último momento. A única coisa que nos falta talvez seja incutir disciplina neste processo. Se aliássemos a disciplina alemã à criatividade espanhola, seríamos imparáveis. A indústria do turismo, por exemplo, soube adaptar-se muito bem à mudança. Reagiu com rapidez e percebeu as vantagens que o mundo digital lhe pode oferecer. Outro setor é a banca, que está neste momento a apostar a 100% no desenvolvimento digital. Conheci diretores de empresas que têm como principal missão enfrentar todas as questões de transformação de forma prioritária mas, infelizmente, outros limitam-se a dizê-lo da boca para fora e apenas para fingir que não estão desfasados. Creio que é o momento de perceber a importância desta trajetória.

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NF.- Quanto aos meios de comunicação social, temos assistido a momentos de uma verdadeira relação de amor-ódio com a Google, especialmente no caso de Espanha com a Google News, em que houve muita tensão. Contudo, agora, os media inovam com a ajuda da Google. Como viste da tua posição essa relação com os media e como achas que deviam encará-la a partir de agora?

JRZ.- Estou de saída da Google, mas aconselharia os meios de comunicação social que se mantenham próximos da empresa e das suas plataformas. Analisar a relação dos últimos anos entre a Google e os media é uma longa história que teve a sua maior crise no momento em que se decidiu acabar com a Google News. Para mim, foi um dia triste, porque significou que se cerceava a liberdade de informação e de expressão por causa de uma lei que foi mal enfocada desde o início. Porém, por outro lado, também é verdade que a Google era uma companhia jovem e veloz que considerava mais importante fazer do que deixar de fazer. Assim, posteriormente, demo-nos conta de que os meios de comunicação social de um país são fundamentais para que este funcione bem, para que mantenha a liberdade de expressão e o espírito democrático, porque no fundo são os cronistas da realidade e estão a ajudar o país a desenvolver-se adequadamente.

O problema é que os meios de comunicação social pensavam que, tendo sido a Google a criar este espaço de comunicação, devia ser ela a dar a solução. Mas a Google não a tem, nem para eles, nem para a banca e nem para o turismo. O que tem é a vontade de trabalhar com os media para encontrar essas soluções, sendo que muitas delas estão a permitir aos meios de comunicação social avançar.

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NF.- Em relação à formação, que perfis digitais consideras ser necessário fomentar atualmente e quais terão um maior enfoque?

JRZ.- Há uma procura brutal na Europa por este tipo de empregos. Estima-se que, nos últimos três ou quatro anos, terá havido um défice de quase um milhão de empregos desta natureza que não foram atribuídos. Neste momento, os perfis mais procurados são os que têm a ver com a análise de dados, os relacionados com a inteligência artificial e tudo o que tenha a ver com os negócios integralmente online. A única certeza é que as disciplinas, a nível empresarial, serão muito diferentes do que se aprendia há alguns anos.

NF.- Para terminar, adoraríamos que deixasses uma recomendação específica aos media para que continuem a evoluir.

JRZ.- O desafio de transformação dos meios de comunicação social é complicado. É um setor que sofre a pior mudança ao entrar no universo digital; se antes um leitor valia 10, agora vale um e, além disso, agora há outros agentes a competir. Porém, os media têm outros valores que permanecem como a sua marca. Julgo que um bom exercício é perguntar-se a todo o instante o que pode funcionar e o que não funciona. Experimentar e continuar a experimentar, e garantir que esse espírito de planeamento e busca de soluções constante nunca esmoreça.

1 Comentario

  • avatar franku 26 novembro, 2016

    muy interesante

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