Como deve funcionar uma redação digital?

Tablet PC and smartphone with business news

Medios onlineO desafio é comum a todos os jornais do mundo: a transformação digital das redações, concebidas para as estruturas de papel e que hoje devem elaborar também um produto exclusivamente digital que é muito exigente e que evolui muito rapidamente. O novo mantra cunhado pelos gurus chama-se “digital first”, ou “o digital primeiro”, e apesar de haver um certo consenso em como é esse o caminho a seguir para a sobrevivência dos meios de comunicação social, ninguém sabe ao certo como levá-lo a cabo.

Digital First Media, o segundo maior grupo de jornais dos Estados Unidos, acaba de lançar aquilo que denominaram de “Project Unbolt”, que em português seria algo como “projeto desagrilhoado”, e que é a sua proposta para libertar as redações da estrutura e dos processos de trabalho do papel para assim alcançar uma redação que realmente dê prioridade ao digital.

O projeto foi colocado em marcha em quatro jornais diários norte-americanos: o New Haven Register, do Connecticut; The News-Herald, do Ohio; El Paso Times, do Texas e The Berkshire Eagle, do Massachusetts.

Por ocasião do lançamento, Steve Buttry, editor da companhia, publicou um post em que explica como deve funcionar uma redação baseada no digital first. Os seus conselhos dividem-se em cinco categorias. Aqui fica um resumo:

En directo1. Cobertura das notícias: sempre que seja possível, a cobertura das notícias de última hora deve ser feita em direto, com tweets, retransmissões em vídeo, etc. O live deve ser uma rotina para a redação e os jornalistas têm de conceber planos de cobertura em direto, a menos que tenham bons motivos para não o fazer (como um tribunal que não permita celulares ou computadores na sala de audiências, um lugar com pouca cobertura…)

A atualização dos temas é fundamental e a página de Internet deve oferecer notícias novas todas as manhãs, ao longo do dia e também à noite, para as edições para tablet. Os jornalistas, afirma Buttry, têm de esforçar-se, na medida do possível, por publicar o seu trabalho diário não quando considerem conveniente, mas sim quando a audiência do meio é maior.

As melhores histórias devem ser concebidas como packs digitais: ou seja, pensadas desde o início com elementos como vídeos, gráficos interativos, bases de dados, etc., e todos os elementos devem ser publicados no momento ideal para a audiência digital (não necessariamente ao mesmo tempo). Assim, propõe-se publicar uma boa história repartida ao longo de vários dias: pode-se começar na quarta-feira ou na quinta-feira com dois ou três dias de conteúdos digitais novos, seguidos de um artigo impresso no domingo e um chat ao vivo na segunda-feira.

O que fazer com a opinião? O jornal tem de orientar a conversa da comunidade como fazia com os editoriais. É necessário desenvolver essa liderança de forma agressiva e criativa usando as ferramentas digitais.

Os jornalistas, de acordo com a Digital First Media, escrevem também em blogues dirigidos a nichos de audiência, que são promovidos na página de entrada e nas redes sociais.

A redação deve desenvolver capacidades de processamento de dados, e deve contar com especialistas nessa área. Um bom exemplo de um conteúdo a adotar são as bases de dados interativas. Além disso, jornalistas e câmaras fotografam e filmam vídeos rapidamente nos cenários das notícias de última hora. Deve permitir-se aos leitores experienciar as notícias, mais do que apenas lê-las: cria-se interatividade com concursos, mapas, cronologias…

2. Processos de trabalho. Parece algo óbvio, mas é uma revolução em muitas redações: os jornalistas irão centrar-se em produzir conteúdos dando prioridade às plataformas digitais. É importante a edição dos temas, centrada em melhorar a qualidade do conteúdo. E eis outro mantra do digital: a linguagem SEO, que serve para que o Google indexe melhor os temas. Portanto, diz o Project Unbolt, os jornalistas e os editores devem escrever manchetes SEO.

Todos os conteúdos devem ser promovidos nas redes sociais: Facebook, Twitter, Google+… Mas também no Tout, Instagram, Pinterest, YouTube ou qualquer outra rede social relevante.

Interação. Com os leitores, a quem o editor há de explicar as decisões da redação regularmente, seja num blogue ou nas redes sociais. Pode-se convidar a comunidade a participar nas coberturas. Todo o mundo na redação é ativo nas redes sociais.

Reuniões e direção do meio de comunicação. A reunião diária começa de manhã e foca-se nos planos de cobertura das notícias, nas formas de interação com os leitores… E não se foca no papel. Os participantes devem pensar em elementos interativos, vídeos, dados, etc., para elaborar os conteúdos.

Na equipe, deve haver mais especialistas focados em temas digitais como celulares, redes sociais, visualização de dados e gráficos interativos.

3. Medição de audiências. A redação usa medidores de audiências para avaliar a eficácia dos seus conteúdos e a interatividade dos mesmos. Todos os elementos da redação têm acesso a esses dados em tempo real e a redação trabalha para redefinir e melhorar a sua utilização. Os editores dão grande prioridade à formação da equipe nessas tarefas específicas.

Noticias en el móvil4. Mobilidade. Nas reuniões diárias, os editores planificam os conteúdos também para as plataformas móveis. A redação terá de ter um especialista em mobilidade e deve-se dar prioridade a este tema. São desenvolvidas aplicações para celulares para coberturas de notícias, eventos especiais ou interesses concretos de uma comunidade.

5. Padrões qualitativos. As prioridades digitais não devem ter influência sobre a qualidade dos conteúdos, que devem ser extremamente cuidados. Na Digital First Media, afirmam que o que é publicado nas redes sociais deve reger-se pelos mesmos critérios de rigor e que a transparência em como se elabora a informação deve ser total: assim, o jornalista tem de deixar bem claro como obteve a informação e também expressar o que não sabe.

Aqui ficam as indicações do Project Unbolt para uma redação focada em priorizar o digital. Algumas, talvez várias, criarão certamente polémica entre os jornalistas, que assistem a uma mudança na sua profissão que lhes exige novas competências a que têm de se adaptar muito rapidamente. Fica lançado o debate: será a reconversão digital a salvação dos meios de comunicação social? Terão as novas formas de narração e as novas exigências repercussões na qualidade do jornalismo? Dê-nos a sua opinião.

Elsa García de Blas

PRISA Noticias

Deixe uma resposta

MENU
Leer entrada anterior
Mesa de centro e muito mais

Está pensando em redecorar a sua sala? Se sim, temos a certeza de que a mesa Callisto não pode faltar...

Cerrar