“Coragem e coração são dois valores imprescindíveis para o jornalismo”

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Sarah Castro Lizarazo é uma politóloga e jornalista cuja carreira esteve sempre ligada aos media na Internet, o que faz dela uma verdadeira nativa digital do jornalismo desportivo. Na sua extensa carreira com mais de uma década de TalentoInterno_08pequeexperiência, fez a cobertura de três Copas América (2007, 2015 e 2016), doMundial do Brasil de 2014e de várias edições da Copa Libertadorese daCopa Sul-Americana. Foi este currículo brilhante que fez com que passasse a dirigir, desde 2015, a edição dojornal diário AS na Colômbia, algo que Sarah Castro soube gerir com êxito, conseguindo em apenas um ano audiências de meio milhão de visitantes únicos e 6 milhões de páginas vistas, números que continuam a aumentar de mês para mês.

Nesta nova entrevista incluída na série dedicada ao “Talento Interno“, composta por profissionais da PRISA, quisemos conhecer melhor Sarah Castro, para que nos falasse sobre a transformação digital dos media e também sobre os aspetos que rodeiam o jornalismo desportivo, área em que se tornou uma instituição.

P.- Politóloga e jornalista especializada em desporto, muito centrada sobretudo no futebol, desde que fez a cobertura informativa da seleção da Colômbia na Copa América de 2007. Já são vários anos de profissão que a levaram à direção do jornal diário AS na Colômbia. O que significou para si a direção deste jornal? É importante que um grupo internacional como a PRISA apoie o seu trabalho?

R. É uma grande responsabilidade profissional que traz novos desafios todos os dias. Quando se fala em competir em plena transformação digital, isso implica uma evolução constante da forma como fazemos as coisas para podermos proporcionar a melhor oferta informativa. O que não se negoceia são os valores da companhia e o interesse em que os nossos utilizadores e clientes fiquem satisfeitos com o que o AS Colômbia tem para lhes dar. Dirigir um meio de comunicação de um grupo tão importante como a PRISA representa um enorme apoio a este projeto, assim como ao meu presente e futuro profissionais.

P.- Desde o lançamento da edição do diário AS Colômbia, em janeiro de 2015, que este se tornou o líder entre os meios desportivos digitais do país, segundo os dados da comScore. A página registou em maio 499.000 visitantes individuais e 6 milhões de páginas vistas. Qual é o segredo deste sucesso? Como foi que uma publicação de origem espanhola como o AS conseguiu deixar marca no público colombiano?

R. O AS é uma marca muito forte em termos de informação desportiva. No entanto, o aumento de audiências da nossa edição baseou-se numa oferta de conteúdos que dá resposta às necessidades dos utilizadores colombianos. Sabemos e compreendemos o que lhes interessa e isso é muito valioso em comunicação porque há uma identificação do outro lado do ecrã – do seu dispositivo. Além disso, a evolução digital não se limita apenas à utilização de elementos multimédia, mas também à produção de peças para cada uma das plataformas em que as pessoas consomem os nossos conteúdos. Avançamos a bom ritmo nas duas frentes para nos conseguirmos destacar num mercado competitivo.

P.- Atualmente, o AS está presente em vários países. Como se coordenam as diferentes edições locais do AS? Que sinergias se estabelecem entre os diferentes países no momento de partilhar conteúdos e em que medida facilitou a tecnologia este trabalho?

R. Este é um dos pontos que fazem do AS um meio cada vez mais forte a nível internacional. A oferta das nossas edições é imbatível graças à rede de jornalistas e especialistas em todo o mundo que informa os nossos leitores em primeira mão. A diversidade de “sotaques” enriquece e é indicadora de proximidade com o tema que se trata. Criamos processos de comunicação internos para aproveitar diariamente os conteúdos que nos interessam e, em eventos como a Copa América, planificamos a cobertura de forma conjunta. Além de fortalecer o trabalho jornalístico, as diferentes edições enriquecem a parte comercial, de mercado e desenvolvimento. Com o WhatsApp, o e-mail ou a WebEx, estamos permanentemente ligados.

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P.- O Diário AS Colômbia mantém uma estreita relação com outro meio importante da PRISA, a Caracol Radio. Como é esta relação e que vantagens vos traz?

R. A Caracol Radio é a nossa principal aliada na Colômbia. É um meio de comunicação que, historicamente, tem sido líder no país, pelo que iniciar as nossas atividades pela sua mão colocou-nos desde o primeiro dia numa posição de relevo em relação à concorrência. Apesar de a nossa independência editorial ser absoluta, há por parte de ambos os meios reconhecimento e difusão das iniciativas e feitos de cada uma das partes. De facto, temos colaboradores da Caracol e eu faço parte da equipa do Carrusel Deportivo. A nível comercial e de mercado, traz grandes vantagens poder estabelecer ofertas conjuntas que gerem um valor diferencial para os nossos clientes.

P.- O jornalismo desportivo foi, durante demasiados anos, um mundo tradicionalmente de homens, onde poucas mulheres se puderam destacar, e a Sarah foi uma delas. A informação desportiva continua a ser um mundo masculino? Teve mais dificuldades do que os seus colegas homens em desenvolver a sua carreira profissional?

R. Acredito que o jornalismo é um mundo só e que o êxito só é alcançado por quem tem o profissionalismo e a sensibilidade que este ofício exige. Obviamente, os homens continuam a ser a maioria quando se fala de informação desportiva porque, em termos culturais, as raparigas estavam destinadas a interessar-se por outros temas, mas, atualmente, há muitas mulheres que abriram caminho graças ao seu trabalho e dedicação. A preparação é fundamental. Felizmente, isto nunca foi um obstáculo à minha realização profissional e a direção do AS em Espanha sempre demonstrou ter confiança total na capacidade de uma mulher para liderar a expansão na Colômbia.

P.- Nota-se que é uma mulher com muita força interior e, na sua biografia do Twitter, pode-se ler estas palavras: “Coragem e coração”. Para que é preciso coragem na sua profissão e na vida? E em que ocasiões é melhor usar o coração?

R. É curioso porque a frase original estava em inglês (Be brave and kind) e tenho-a tatuada há vários anos. Depois, o Diego Simeone, técnico do Atlético de Madrid, popularizou o lema “Coragem e Coração” e pareceu-me a tradução mais exata para esses valores que, a meu ver, são imprescindíveis. Os desafios do mundo atual levam-nos a esquecer o essencial e essa frase propõe um equilíbrio perfeito: contar com a força necessária para enfrentar os obstáculos sem esquecer o respeito pelos outros. A nível profissional, é preciso valentia para salvaguardar os princípios que regem qualquer meio de comunicação, mesmo quando tudo corre bem. Do mesmo modo, o coração é fundamental no jornalismo, porque apenas a sensibilidade permite encontrar, reportar e contar histórias relevantes para os nossos utilizadores.

P.- A sua carreira tem estado muito ligada também à transformação dos media no ecossistema digital. Como acha que está o panorama atual dos media tradicionais? O que veio o mundo digital melhorar ou piorar no jornalismo desportivo?

R. Fiz a minha formação num meio de comunicação 100% digital, numa época em que havia muito poucos mentores e os desenvolvimentos apenas ofereciam soluções para criar aquilo a que chamávamos conteúdos multimédia. Assim sendo, a evolução dos últimos 10 anos tem sido muito valiosa tanto para os jornalistas como para os consumidores de informação. Os media tradicionais viram-se obrigados a pôr em marcha uma transformação digital que tem a ver com a forma como as pessoas acedem aos conteúdos e não com a relevância desses meios. Muda a plataforma, mas mantêm-se os princípios, a credibilidade e o prestígio do jornalismo, pelo que depende dos seus líderes conservar o que os torna fortes durante os processos de adaptação. O desafio comercial é grande, já que não se pode esquecer que uma grande percentagem das receitas desses meios continua a vir da publicidade offline.

Se bem que, para o jornalismo desportivo, a transformação digital tem sido uma grande aliada em dois aspetos chave como a imediatez e o acesso à informação, essas mesmas condições transformam-se em desafios quando os desportistas prescindem dos media e os adeptos têm um acesso direto às fontes. Temos de trabalhar em conteúdos diferenciais que nos tornem imprescindíveis para os utilizadores e em ser curadores de tudo o que viaja na Internet. Isto sem esquecer que as metas de audiência são vitais se pretendermos que projetos como o AS Colômbia sejam rentáveis.

P.- Falemos agora da América Latina e, mais concretamente, da Colômbia, um dos países onde mais se aposta na transformação digital. Como encara a evolução tecnológica e digital na região? Ainda há um grande fosso digital para colmatar?

R. O governo colombiano tem investido nas tecnologias da informação e a Colômbia é um país com um elevado nível de penetração da Internet em comparação com os seus vizinhos e a região. No entanto, por variadas razões, especialmente geográficas, ainda há muito por fazer em termos de infraestruturas e educação na utilização das mesmas. A juntar a isto, contamos com uma audiência digital de peso e participativa, que compõe um mercado com um grande potencial de crescimento. Existe uma ampla oferta de conteúdos, mas com muito por explorar a nível de qualidade, diversidade de interesses e novos hábitos de consumo.

P.- Não posso deixar de fazer uma pergunta sobre James Rodríguez, um seu compatriota. Acabámos de saber que Zidane renovou o número 10 do Real Madrid. Como especialista em futebol, que opinião tem sobre esta decisão? Atreve-se a fazer um prognóstico sobre a próxima época de James?

R. É verdade, o James fica no Madrid e terá uma época extremamente exigente, se quiser conquistar um lugar na equipa titular de Zidane. Embora o técnico tenha deixado claro que lhe interessa ter o colombiano no seu plantel, a experiência dos meses anteriores demonstrou que há certos aspetos do número 10 que não o convencem. Além das questões pessoais, de que tanto se falou, a estratégia de jogo do francês privilegiou a presença de um médio central como Casemiro em detrimento do talento de James. Há interesses comerciais de Florentino Pérez que também tiveram peso sobre a sua permanência. Espero, por ele e pelo seu futuro, que a decisão de continuar no Real Madrid se traduza também em apoio a nível do clube para que possa manter ao máximo o seu nível desportivo. A seleção colombiana precisa dele no seu melhor para continuar a sonhar com o Mundial da Rússia.

P.- Em breve, começarão os Jogos Olímpicos do Brasil, uns jogos muito esperados pela região, mas também polémicos devido à delicada situação política do Brasil e ao medo de contágio do vírus Zika. Gostaria de saber qual é a sua opinião sobre esta polémica, mas também me interessa saber como vai ser a cobertura do evento por parte do AS Colômbia.

R. Este tipo de eventos desportivos que implicam grandes investimentos por parte do estado geram sempre as mesmas questões quando têm lugar em países com necessidades sociais por resolver, como é o caso do Brasil. Ao Zika, à polémica chegada de Michel Temer ao poder e à declaração de falência do estado do Rio de Janeiro, juntam-se as preocupações com a segurança dos visitantes nessa cidade. No entanto, e apesar de muitos desportistas terem decidido dizer não aos Jogos, tanto a supervisão do COI como a vontade do Brasil, que porá à disposição todos os recursos necessários para minimizar os riscos, fazem-me pensar que as Olimpíadas serão levadas a cabo sem contratempos de maior. Existe o antecedente positivo do Mundial de 2014.

Quanto à cobertura do evento, teremos uma equipa composta por jornalistas de todas as delegações, que farão reportagens a partir de cada um dos cenários desportivos do Rio de Janeiro, assim como do desenrolar dos Jogos de um ponto de vista social. Tudo isto apoiado no trabalho das várias redações, que manterão atualizada toda a informação nas diferentes plataformas do AS (aplicação, página de Internet e redes sociais). Faremos uma grande aposta em levar aos nossos utilizadores os melhores conteúdos do sonho olímpico dos mais de 140 atletas que representarão a Colômbia nestas Olimpíadas.


Miguel Ángel Corcobado
Comunicación y Marketing de PRISA

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