O êxito do verão: as minisséries de 140 carateres

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Certamente haverá quem se recorde que a origem dos 140 carateres do Twitter está nas mensagens de SMS que se enviavam pelo telemóvel e que tinham esse limite por volta de 2006. Jack Dorsey, o criador do Twitter, tinha noção de que vivia numa época em que simplificar a comunicação era fundamental para nos destacarmos num ecossistema digital sobrecarregado de informação e de dados. Anos mais tarde, pudemos comprovar em primeira mão que assim é e que, apesar de gostarmos de andar bem informados, na maioria das vezes, basta-nos ler os títulos das notícias e, se o que anunciam for do nosso interesse, clicamos sobre elas ou damos uma vista de olhos aos dois (ou talvez três) primeiros parágrafos, desde que não seja nada que ultrapasse as 1000 ou 2000 palavras.

Mas a verdade é que gostamos de ler, de encontrar bons textos que nos surpreendam com histórias originais e narrativas viciantes. Também é verdade que essa busca constante pela novidade nos provoca um défice de atenção que não nos permite dedicar de forma adequada a relatos longos. Daí o êxito dos relatos curtos no Twitter.

O melhor exemplo é o mais recente. A narrativa do ilustrador de banda desenhada Manuel Bartual, que decidiu dar uma pitada de sal às suas férias passadas criando uma história fictícia que tinha lugar no hotel onde estava hospedado e cujos duplos maléficos, suspense, terror e enigmas interativos conseguiram cativar centenas de milhares de pessoas. Graças a isso, Bartual conquistou mais de 300.000 seguidores numa semana e conseguiu ser trending topic durante 72 horas. Algo que muitas marcas nunca conseguiram, nem oferecendo vales de desconto.

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Perante o sucesso desta narrativa, muitos perguntam-se se poderá ser o início do êxito de um formato literário com base em 140 carateres. O facto é que não é a primeira iniciativa deste género na história do Twitter, há milhares delas; na verdade, junta-se a outras narrativas que têm vindo a conquistar uma grande quantidade de seguidores nesta rede social nos últimos anos. Aqui ficam 5 exemplos.

Zola: Este thriller, publicado em 148 tweets em 2015, baseia-se numa história que envolve duas jovens mulheres que se veem enredadas num mundo de strippers, proxenetas e assassinatos e que conseguiu manter em suspense mais de 200.000 utilizadores no decurso das 4 horas em que foi sendo tweetado. O êxito foi de tal ordem que o realizador de cinema James Franco se propôs a rodar a história. A autora, Aziah Wells,apagou a narrativa do Twitter, para voltou a publicá-la neste link.

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Dear David. Este relato nasceu no início de agosto e o próprio Manuel Bartual admite que foi a inspiração para criar o seu. Trata-se de uma história de terror criada pelo também ilustrador nova-iorquino Adam Ellis, em que este conta como é perseguido por um fantasma com muito más intenções. É possível seguir a narrativa no Twitter, mas, para tornar as coisas mais fáceis, o próprio autor organizou a história de forma linear no Storify, de modo a proporcionar uma melhor imersão no relato.

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Beauty Strikes Back. O escritor canadiano residente em Espanha Ernesto Filardi criou uma história comovente sobre um grupo de refugiados sírios que chegam a Alberta, no Canadá, onde são ajudados a perder o medo de andar de barco, para que a água deixe de ser para eles sinónimo de morte e volte a ser algo de que consigam retirar prazer. A narrativa foi criada em julho de 2016 e já não pode ser lida no Twitter, mas o hashtag criado por Filardi mantém-se na rede social como um símbolo de aproximação entre culturas e de esperança para todos os que desejam um mundo menos horrível. De facto, #BeautyStrikesBack foi muito utilizado como demonstração de solidariedade após os recentes atentados terroristas de Barcelona.

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Mini Relatos: A partir desta conta do Twitter, o autor chileno Fernando de Gregorio conta já com mais de 7 anos a escrever aquilo a que o próprio chama “contos comprimidos”. É incrível como adapta aos 140 carateres cada uma das suas mini histórias e prova que, num tweet, é possível contar muito mais do que parece à primeira vista.

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El bar de Lola: Arturo Pérez-Reverte (polémicas e críticas à parte) foi um dos primeiros autores espanhóis a interagir com os seus leitores através das redes sociais. Para tal, criou uma taberna ficcional, El bar de Lola, à qual vai todos os domingos para “beber um copo” e conversar com os seus seguidores (e detratores, obviamente). O que mais se destaca nesta publicação é que a forma de interagir em cada tweet faz com que o leitor pense que está realmente a viver uma história verídica ao balcão deste bar muito especial.

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Perante estes exemplos e tantos outros que podemos encontrar no Twitter, com base em relatos breves, é possível constatar que este tipo de formato é um bom recurso para a narrativa transmedia e para o storytelling e que o seu potencial como suporte de marketing de conteúdos é uma via interessante a explorar. Sobretudo se tivermos em conta o engagement que cria em cada utilizador e que, pelo menos no caso do Twitter, parece ser mais eficaz do que as hiperligações para conteúdos externos que quase ninguém visita e que, inclusivamente, seis em cada dez utilizadores se atrevem a partilhar sem sequer terem lido antes. Isso pode ser visto neste estudo da Universidade de Columbia e do Instituto Nacional Francês.


Miguel Ángel Corcobado
Comunicación y marketing de PRISA

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