O impacto do Blockchain nos meios de comunicação digitais

Blockchain word made from hex numbers array.3D illustration

O Blockchain é uma tecnologia conhecida como a infraestrutura que oferece suporte ao famoso Bitcoin, a criptomoeda virtual que circula pela Internet. Trata-se de um sistema descentralizado (P2P) para armazenar e partilhar qualquer tipo de dados ou arquivos, desde um Bitcoin a um documento legal ou a uma música em formato digital.

A particularidade desta tecnologia é que os dados que validam a autenticidade de cada arquivo são partilhados por toda a rede, de modo a que só se possa ativar ou fazer uma alteração com o consenso da maioria dos constituintes da rede. É uma base de dados distribuída em que cada bloco de informação está ligado a todos os outros e em que qualquer ação sobre esses blocos fica registada.

É esta particularidade que faz do Blockchain uma maneira segura de partilhar arquivos, já que qualquer alteração não autorizada fica visível para todos os membros da rede, utilizando-se por isso aplicações financeiras em que a autenticação do valor de uma transação, por exemplo, é fundamental para que o sistema funcione. A outra característica principal é que se trata de uma arquitetura descentralizada, não requer uma entidade ou uma instituição que regule o sistema; as regras de funcionamento estão imbuídas e distribuídas nos próprios blocos na forma de contratos inteligentes, o que significa que toda a rede se gere a si própria sem supervisão.

golden bitcoin coin

A grande pergunta é a seguinte: que impacto pode ter o Blockchain no mundo dos media?

A resposta mais direta e imediata consiste em entender a possível aplicação das criptomoedas ao contexto das publicações digitais. As moedas virtuais permitem ao público aceder aos conteúdos através de microtransações de um valor tão reduzido que é difícil de gerir com moeda real. Os utilizadores criam porta-moedas virtuais que lhes permitem pagar pequenas quantias para aceder a conteúdos, assim como serem premiados nessa mesma moeda por participar, partilhar ou até ver publicidade. Plataformas de Blockchain como o Blendle ou oTipsyestão já a oferecer serviços de micropagamento adaptados ao contexto dos media.

Porém, existem aplicações mais profundas desta tecnologia, e potencialmente mais disruptivas.

Já em 2015, Imogen Heap, uma artista britânica, lançou o seu tema “Tiny Human” numa plataforma de Blockchain chamada Ethereum, permitindo aos fãs comprar a canção pagando em Ethers, a criptomoeda da Ethereum, que pode ser trocada, claro está, por moeda real. Deste modo, a artista tinha controlo sobre quem, quando e como se consumia a sua música sem necessidade de nenhum tipo de intermediário. Os pagamentos chegavam diretamente à cantora num meio em que, graças à assinatura digital do Blockchain, a pirataria se torna um pouco mais difícil.

À semelhança do que acontece com o mundo da finança, o Blockchain tem a capacidade de desintermediar meios de conteúdos. Qualquer arquivo de música, vídeo ou texto a que se atribua um valor determinado pode ser partilhado publicamente, consumido e monetizado sem a participação de terceiros. Se a esta realidade acrescentarmos a possibilidade de realizar micropagamentos na forma de moedas virtuais como a Ether, a Monero ou a Bitcoin, podemos prever que a possibilidade da criação de um ecossistema de media aberto e participativo baseado em conteúdos pagos é uma realidade muito próxima e que criaria um cenário com o potencial de mudar mais uma vez as regras da indústria de conteúdos.

Abstract photo of FINTECH connection over the technology and dig

O desafio com que nos deparamos, no caso dos meios jornalísticos, é o da identificação do valor transacional do conteúdo. Ao contrário da música e do vídeo, a peça de conteúdo num meio de atualidade e opinião tem valor em relação ao contexto do acontecimento, é um valor efémero e variável, que oscila em relação à relevância, do ponto de vista do leitor, do tal conteúdo. É um problema complexo, cuja solução se pode começar a esboçar com a ajuda da Inteligência Artificial.

Uma empresa que começou a explorar essa via é a Steem, uma plataforma social que permite que os utilizadores criem e partilhem artigos, premiando com moeda virtual o criador, o curator e o participante com base na popularidade, na avaliação e na atividade dos seus conteúdos. Trata-se de uma iniciativa nova que parece mostrar como o Blockchain é capaz de construir todo um ecossistema de criação, consumo, distribuição e monetização de conteúdos à margem dos modelos digitais já existentes e onde o papel dos media tradicionais não está, de momento, presente.

A assinatura digital, ou contrato inteligente, rastreável e não falsificável que acompanha os arquivos no contexto do Blockchain pode também servir como certificado da origem dos conteúdos. Esta funcionalidade pode ser aproveitada como uma forma de lutar contra a proliferação de notícias falsas e dos media construídos ad hoc para a sua propagação. No futuro, graças a uma estrutura como o Blockchain, as plataformas de consumo de conteúdos poderão contar com outra ferramenta para a validação da origem do conteúdo.

Blockchain concept with hand holding modern smart phone as examp

Por último, num mundo em que, da noite para o dia, a Reuters comunica aos seus jornalistas nos Estados Unidos que trabalhem como se estivessem num país sob um regime autoritário, os aspetos criptográficos e de segurança que o Blockchain oferece também apresenta soluções que podem ajudar os jornalistas que trabalhem de forma independente e precisem de proteger a sua identidade.

Por isso, start-ups como a empresa holandesa Publicism estão a desenvolver uma tecnologia baseada no Blockchain que permite que os jornalistas publiquem e financiem de modo seguro o seu trabalho, garantindo o anonimato das fontes e dos próprios jornalistas, beneficiando, consequentemente, a liberdade de imprensa.

Citando Alberto Gómez Toribio, CEO da Clluc e um dos maiores especialistas espanhóis na tecnologia Blockchain, “em breve, emergirá uma grande plataforma, semelhante à Uber ou à Airbnb que anulará a figura do intermediário nos media“.

Já conhecemos as consequências, vemo-las noutras indústrias. A disrupção que provoca uma tecnologia como o Blockchain compara-se com o impacto que teve, na sua altura, a chegada da Internet. Por isso, temos de estar atentos para garantir que os media podem manter o seu papel, cada vez mais crítico e mais ameaçado, no panorama que a nova vaga de mudança está a traçar.


Alberto_Barreiro

-

Alberto Barreiro González
Chief Experience Officer, PRISA

Deixe uma resposta

MENU
Leer entrada anterior
ImasD_PRISA_850
(Español) Un año entero de I+D PRISA

Desculpe-nos, mas este texto esta apenas disponível em Español.

Cerrar