O mundo digital de acordo com o novo ‘Livro de Estilo’ de EL PAÍS

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Libro de estilo de EL PAÍSO novo Livro de Estilo do EL PAÍS representa uma revisão integral do texto vigente até agora, de modo a adaptá-lo às profundas transformações que o ofício de jornalista tem vindo a sofrer nos últimos anos: a informação na Internet, as redes sociais, a utilização de suportes outrora impensáveis para a Redação de um jornal diário (o vídeo e o áudio, por exemplo) e, claro está, todas as mudanças registadas pela Academia e pelo uso dos falantes da língua espanhola: neologismos, nova ortografia, gentílicos novos, topónimos, transliterações, femininos e masculinos, abreviaturas, termos científicos, linguagem informáticas…

O mundo novo que se abriu com a Internet obrigou-nos também a nos colocarmos novas questões éticas. Por exemplo, o “direito ao esquecimento”. Agora, toda a informação é recuperável na Internet, e isso pode prejudicar a vida de pessoas que cometeram algum deslize de juventude, alguma imprudência no trânsito, um delito menor… e que podem vir a pagar por isso muito tempo depois de terem cumprido a sua sentença e com custos mais elevados do que a multa a que foram sujeitos na altura.

A esse respeito, o Livro de Estilo tenta harmonizar o direito à informação e à documentação com o direito de qualquer indivíduo de refazer a sua vida ou a que alguns aspetos do seu passado sejam esquecidos. Por isso, estabelece estes critérios quando uma pessoa exige que se elimine uma notícia, crónica ou reportagem verídica que afete a sua imagem:

1.- Nunca se eliminará a peça dos arquivos digitais do EL PAÍS, mas pode-se considerar a possibilidade de ocultar essa informação dos buscadores de Internet.

2.- A informação deve ter sido publicada há mais de 15 anos em relação ao momento em que se exige a sua eliminação.

3.- A informação tem de ser prejudicial à pessoa reclamante a nível da sua vida familiar ou profissional.

4.- Não serão tidas em consideração as reclamações que afetem factos que figurem em decisões irrevogáveis dos tribunais de justiça e que se refiram a atos de violência.

Entre outros aspetos relacionados com as novas tecnologias, o manual do EL PAÍS regula também a utilização de câmara oculta (agora possível para elpais.com). Um apartado específico indica, entre outras questões: “O EL PAÍS trabalhará com o sistema de câmara oculta apenas quando esse seja o último recurso possível para obter uma informação de indubitável interesse geral e sempre que nenhum jornalista tenha assumido uma personalidade alheia, que não se invada lugares privados e que não se afeto o direito à intimidade, à honra e à própria imagem.”

“O uso legítimo da câmara oculta (filmar atos criminosos na via pública, por exemplo, para a sua denúncia por impunidade ou falta de vigilância, sem que o jornalista neles intervenha ou os provoque) deverá preservar em todo o caso”, acrescenta, “a identidade das pessoas ou entidades implicadas e não fornecer dados que a elas conduzam.”

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O Livro de Estilo inclui 119 termos relacionados com a Internet e com a informática, na sua maior parte neologismos. Esta lista não tem um caráter exaustivo, como é lógico (pois não se trata de um dicionário específico dessa matéria), mas serve para estabelecer as analogias necessárias perante novos vocábulos de formação semelhante que possam surgir (trate-se de anglicismos, galicismos, tecnicismos, palavras procedentes de siglas ou de abreviaturas, marcas comerciais, etc.).

Entre esses termos figuram, por exemplo, as palavras espanholas ‘apli’ e ‘aplis’, que podem ser usadas em itálico como abreviaturas de “aplicação”. Ou ‘attachment’, que deve ser substituído por “anexo” ou “ficheiro em anexo”.

Na maioria dos casos, o Livro de Estilo explica a origem dos vocábulos e explica a decisão adotada a esse respeito. É o que sucede com a palavra espanhola ‘banear’, que está relacionada com o termo em inglês to ban e que se entronca com as raízes espanholas de “bandido” e do verbo “bandir” (proscrever). O “bandido” era denunciado por sua vez num “bando”, ação que o tornava proscrito. A violação do “bando” degenerava precisamente em “contrabando”. Portanto, uma pessoa que seja baneada de um fórum da Internet ou uma empresa a que se retire a sua ligação com buscadores ou navegadores são uma pessoa ou uma empresa “proscritas” ou, se quisermos ser mais precisos, ‘ciberproscritas’. Também se recomendam como alternativas a ‘baneado’ os termos “excluído”, “sancionado”, “despedido” ou “vetado”.

O Livro de Estilo sugere normalmente palavras espanholas como alternativas aos tecnicismos e anglicismos que tantas barreiras erguem entre os especialistas e o público em geral. Para tal, recomenda recorrer com frequência ao elemento compositivo “ciber”, procedente da palavra de origem grega ‘cibernética’ (“a arte de navegar”). Atualmente, esse elemento indica “relação com redes informáticas” e é uma forma clara – e não excessivamente violenta para a língua – de marcar certos conceitos quando estes se aplicam ao mundo da Internet. Assim, recomenda-se o seu uso como prefixo quando uma palavra se refira a esse campo: cibercafé, cibernauta, ciberespaço, ciberpapo, cibermensagem, ciberlivro, cibercorreio, caixa de correio cibernético, etc.

Muitas das decisões ou recomendações desta obra são obviamente facultativas. Trata-se de estabelecer um estilo para um meio em concreto, que se autorregula desse modo, não de ditar normas para o público em geral. Mas todo o livro está enfocado em facilitar a comunicação com um público o mais amplo possível e em garantir o uso respeitoso dos poderosos meios informáticos que o jornalista tem ao seu dispor.

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