O triunfo de Marta

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São oito da manhã no seu primeiro dia de férias, mas Marta já não tem sono. Não para de dar voltas ao nível em que ficou bloqueada no dia anterior. Foi para a cama pensando em como resolver um dos puzzles e foi a primeira coisa que o seu cérebro resgatou ao acordar. Ela sabe que tem pontos suficientes para mudar de missão e explorar novas zonas do jogo, mas não ter atingido a pontuação máxima no nível deixou-a obcecada.

Os especialistas diriam que Marta é uma jogadora do tipo triunfador (achiever), visto a sua maior motivação ao longo do jogo de vídeo é superar todos os desafios que aparecem à sua frente, com o objetivo de obter pontos e prestígio. Segundo Richard Bartle, além de triunfadores, os jogadores podem ser do tipo ambicioso ou assassino (killer), se o nosso objetivo principal for vencer os restantes participantes; do tipo explorador (explorer), se nos dá prazer analisar cada opção do jogo em busca de cantos desconhecidos; e do tipo sociável (socializer), se o motivo por que jogamos é conhecer pessoas novas e partilhar a experiência.

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Tipos de jogadores de acordo com Richard Bartle. Gráfico de Paul Jordan.

Na hora de conceber um jogo de vídeo (e fazer parte de uma indústria que, todos os anos, movimenta cerca de 700.000 milhões de euros anuais), devemos ter em conta que as estratégias do jogo são gizadas em função do tipo ou tipos de jogadores aos que nos queremos dirigir. É por isso que precisamos de saber como é a Marta, como se comporta, como se relaciona ou quais são as suas aspirações. Para que os nossos usuários não abandonem o jogo, devem estar num contínuo estado de fluxo, superando-se a si mesmos e enfrentando desafios nem demasiado difíceis, nem demasiado fáceis, que não os levem a perder a motivação.

Para nos conectarmos como o nosso público-alvo, devemos estabelecer os objetivos que perseguimos com o desenvolvimento do jogo. É um jogo de competição? Promove a cooperação e o altruísmo? Que valores queremos transmitir? Estas perguntas vão nos ajudar a determinar as dinâmicas do jogo, intimamente ligadas às mecânicas do jogo. Se as dinâmicas são o que queremos conseguir, as mecânicas são o modo como o vamos alcançar. Como exemplos de mecanismos do jogo, podemos encontrar os bens virtuais, os desafios, os pontos ou as classificações. É importante saber que cada usuário reage melhor a umas mecânicas do que a outras. Assim, o ambicioso gosta de se ver refletido nas classificações, ao passo que o triunfador, como a nossa jogadora, precisa de desafios que demonstrem uma evolução ao longo do jogo.

Marta é uma de 14 milhões de pessoas que atualmente se dedicam a jogos de vídeo em Espanha, seguramente destina cerca de cinco horas semanas a jogar e, muito provavelmente, joga a partir do seu tablet ou celular. Tal é a relevância que este setor possui que, hoje em dia, as técnicas e estratégias do jogo se aplicam a outras disciplinas, como a educação, a saúde e os negócios através da ludificação (gamification, em inglês), com outros fins que não o mero entretenimento.
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Os jogos de vídeo educativos, por exemplo, vão aos poucos encontrando o seu lugar neste amplo panorama, com títulos que buscam potenciar desde a aquisição de conteúdos curriculares (como aprender Álgebra com o DragonBox) até ao ensino de valores humanitários (em Food Force, os usuários cumprem missões para distribuir alimentos em países em vias de desenvolvimento). A ludificação está no seu auge e ainda tem um longo caminho pela frente.

Atreve-se a imaginar o contributo que você poderia dar?


Carmela Tortajada Serra
Departamento de Producto Digital y Agente del Cambio en Santillana

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