Engane-se e acertará, mas faça-o!

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«Se quiser ter boas ideias, tem de ter muitas ideias. A maioria delas será errónea, e tem apenas de aprender quais deve descartar». Linus Pauling.

O investigador norte-americano Linus Pauling publicou em 1953 na revista científica PNAS “A Proposed Structure for the Nucleic Acids”, a sua teoria sobre o ADN de cadeia tripla que, posteriormente, se revelou ser na verdade de duas. Este tiro ao lado não o impediu de continuar a trabalhar e de dar o seu contributo tanto na área científica como na humanista, a ponto de merecer, poucos anos depois, o Prémio Nobel da Química (1954) e, posteriormente, o Prémio Nobel da Paz (1962). De facto, a sua proposta serviu para que outro par de cientistas, Francis Crick e James D. Watson, que trabalhavam também na mesma área de estudo, tornassem pública meses depois a descoberta da dupla hélice do ADN.

Um pequeno fracasso para o homem, um grande salto para a humanidade. Talvez esta frase não tivesse servido de grande consolo para Pauling, mas os líderes do século XXI consideram-na mais uma ferramenta para enfrentar o inesperado no atual ambiente de incerteza.

A historiadora cultural e professora de Harvard Sarah Elizabeth Lewis recomendava na cimeira mundial de liderança empresarial promovida pela WOBI (World of Business Ideas) em Madrid contratar “… pessoas que falham muitas vezes, porque isso indica que têm ideias pouco usuais. A distância entre o fracasso e a meta é o espaço para melhorar”. Na sua palestra TED, a professora pergunta-se: “Será o quase conseguir que nos faz avançar?”

No mesmo fórum WOBI, que se celebra sucessivamente em diferentes cidades do mundo (Nova Iorque, Sydney, Milão, Cidade do México), o especialista em educação e criatividade Sir Ken Robinson explicava esta dinâmica da seguinte maneira: “A vida não é linear, a vida é criativa. Não se pode prever as coisas, apenas antecipá-las um pouco”. E aqui está o segredo que explica porque um fracasso a curto prazo pode ser tão ou mais valioso do que um êxito no horizonte.

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Sarah Elizabeth Lewis

Empreendedorismo: aventuras de êxito alimentadas por fracassos

O modelo Lean Startup foi formulado e aperfeiçoado em 2008 por Eric Ries. Atualmente, é utilizado por milhares de start-ups e incubadoras, e faz parte dos programas de estudo de mais de 400 universidades a nível mundial. Baseia-se numa combinação de aprendizagem validada, investigação científica e iteração, aplicada à criação de um produto ou serviço. O objetivo é abreviar os ciclos de conceção e desenvolvimento, medir o progresso e conseguir uma retroalimentação rápida para continuar a melhorar. Ou, por outras palavras, começar a tentar imediatamente.

Baseado diretamente na metodologia científica que experimenta, questiona e valida, na sua versão mais terra-a-terra, seguir este modelo significa entrar num loop de conceção contínuo: Criar-Medir-Aprender. Sem sair completamente da fase de idealização (Criar), codificam-se (Medir) e verificam-se dados (Aprender). Um processo iterativo que transforma ideias em produtos, envolvendo o utilizador nas medições e aprendendo com os dados para assim manter ou mudar a ideia.

Se Walt Disney, Bill Gates ou Steve Jobs, empreendedores de sucesso que tiveram de superar estrepitosos fracassos antes de chegar ao topo da lista da revista Fortune, tivessem tido conhecimento deste processo de trabalho, é possível que o iPhone não tivesse chegado aos bolsos dos seus milhões de utilizadores.

Isto porque pelo menos 5 grandes trambolhões adornam a biografia de Jobs: o computador Apple Lisa, demasiado grande e caro para convencer os seus utilizadores; oNeXT Computer, um computador nada usável que, no entanto, serviu para criar um sistema operativo avançado para o seu tempo cuja interface gráfica foi desenvolvida mediante o que, naquela altura, era um estranho paradigma de programação orientada para objetos; o Power Mac G4 Cube, lançado no mercado há pouco menos de 10 anos e cujo preço assustou o público; o Motorola ROKR 1, que não conseguiu ultrapassar as suas numerosas falhas técnicas; e, por fim, o iPod Hi-Fi, uns speakers que foram esmagados pela concorrência mais acessível numa questão de semanas.

Ao contrário destas grandes tentativas fracassadas, os projetos Lean Startup arrancam com poucos recursos e, desde o primeiro dia, procuram validar as decisões tomadas com os utilizadores reais a que poderiam estar destinados. À medida que esta validação evolui, o investimento vai aumentando. Os projetos mantêm-se em fase beta quase permanentemente, porque a deteção das falhas e a análise dos fracassos são os alicerces sobre os quais o modelo está assente.

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Simon Sidek

Grandes empresas, baixa mortalidade

Empresas como a Telefónica, o Google, a Repsol, a General Electric, a Toyota, a Pixar e a Comcast utilizam atualmente esta metodologia para abordar os seus projetos de I+D, como se se tratasse dos primeiros passos de uma start-up e para minimizar os reveses. Também organizações dedicadas à consultoria de inovação como Thoughtworks, NeoIntuitIdeo ou Idealab estão a incorporá-la nos seus processos. Na América Latina, existem amplas redes Lean Startups, como a Pivotal Labs ou o Grupo Vi-da.

“O que apelidamos de fracasso pode proporcionar-nos a base para transformações incríveis”, afirmava Sarah Elizabeth Lewis no WOBI Madrid.Procedente também de Harvard, ainda que no seu caso da sua famosa escola de gestão, Linda Hill foi mais longe, agitando as cadeiras ocupadas por patrocinadores e líderes da América Latina presentes no encontro ao recomendar: “Contratem pessoas que vos contrariem na entrevista de emprego e que pareçam um pouco dispersas”. Especialista em trabalho colaborativo no seio de grandes organizações, Hill é coautora do livro “Collective Genius”, onde encoraja os líderes das organizações a perguntarem-se diariamente como podem despertar e alimentar o talento dos seus colaboradores.

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Devemos então evitar o fracasso? De acordo com Simon Sinek, escritor britânico e criador do conceito de Círculo Dourado, a confiança é fundamental para o gerir. “Nem uma boa ideia nem uma grande decisão fazem um líder. A nossa sobrevivência está relacionada com a nossa capacidade de gerar ambientes de confiança para os quais são imprescindíveis tempo e energia dedicados aos outros”, afirmou no WOBI.

No seu livro “Leaders Eat Last: Why Some Teams Pull Together and Others Don’t”, explica como alguns líderes inspiram cooperação, confiança e mudança, e fala do vínculo entre a liderança e a capacidade de assumir como seus os fracassos da equipa. “A confiança não tem a ver com as instruções, mas com os sentimentos.”

“A inovação exige por vezes mudar de caminho sem perder de vista o objetivo”, concluía Sarah Elizabeth Lewis. E nisto Linus Pauling teria estado completamente de acordo com ela: “O maior fracasso na vida é não correr riscos.”

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Se dermos às pessoas a liberdade de trabalharem da maneira que quiserem, haverá cada vez mais coisas interessantes no mundo....

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