Está preparado para o ocaso da Internet?

Ocaso de Internet

No evento TED celebrado em março passado em Vancouver, o filósofo norte-americano Dan Dennet subiu ao palco e pronunciou estas palavras: “A Internet irá abaixo e, quando isso acontecer, viveremos vagas de pânico a nível mundial. A nossa única hipótese é sobreviver às primeiras 48 horas”. Ao escutar isto, qualquer um pode começar a imaginar as inúmeras cenas apocalípticas a que o cinema e a televisão nos têm acostumado. Mas o que há de preocupante nas palavras de Dennet? Estará a sociedade digital realmente em perigo?

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Dennet afirma que a hecatombe ocorrerá mais cedo ou mais tarde, por isso, ficámos todos alerta para identificar os possíveis indícios do caos:

Espionagem e ciberguerra fria

Em fevereiro de 2013, a Casa Branca descobriu uma série de ataques cibernéticos repetidos, que uma investigação relacionou diretamente com uma unidade secreta do exército chinês. O acontecimento foi classificado como: “um grave desafio para a segurança e para a economia dos Estados Unidos” e poderia ser definido como a entrada oficial numa nova guerra fria a nível mundial, sendo que neste caso o campo de batalha é o ciberespaço.

Será uma ameaça séria? Poderíamos dizer que sim, a julgar pelos grandes investimentos da maioria dos países na cibersegurança ou nas novas leis que estão sendo criadas para fazer frente aos ataques. Por exemplo, para lutar contra ameaças como a supracitada, os Estados Unidos colocaram em marcha um decreto que confere poderes especiais para responder a qualquer ataque informático, uma espécie de Def-Con 2 do ciberespaço que faz lembrar o temido botão vermelho para lançar mísseis na Guerra Fria.

Não sabemos se todas estas demonstrações de poder na Internet por parte das superpotências podem despoletar uma guerra. A avaliar pelo aumento no uso de drones, podemos pensar no pior.

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Ataques de piratas e outros delitos na Internet

Estamos cada vez mais dependentes dos nossos dispositivos eletrónicos e isso fez com que os delinquentes se tenham transposto para o território digital e que sejam capazes, cada vez mais, de encontrar fissuras nas nossas vulneráveis contas de usuário. Atualmente, o crime cibernético move mais de 250.000 milhões de euros por ano. Ainda está bem presente a memória da Operação Aurora, quando uma complexa trama de ciberataques conseguiu atingir o coração do Google em 2009 e permitiu roubar gigabytes de informação durante meses sem que ninguém desse conta.

spyware e os bots são dominantes no ciberespaço e, na sua maioria, só pretendem obter dados dos usuários para retirar disso benefícios económicos, mas outros procuram prejudicar equipes e estruturas tecnológicas de grande calibre, sendo outro perigo que poderia destruir a Internet tal como a conhecemos agora.

Perda de privacidade e identidade do usuário

Apesar de, nos últimos dois anos, os usuários da Internet terem aprendido a ser mais cautelosos com a informação, fotos, vídeos, etc., que sobem para a Internet, há um antes e um depois do caso Snowden; as suas revelações sobre a espionagem da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos e a existência de um programa internacional de intercâmbio de dados pessoais conhecido como Five Eyes fizeram-nos ver que as ameaças à privacidade não vêm só da má utilização que os usuários da Internet fazem dela, mas que existe uma rede de agências de informação que investigam e processam todos os nossos dados à revelia das leis de proteção dos mesmos. Como diz o próprio Snowden: “A monitorização de metadados é ainda mais intrusiva do que a espionagem”.

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Mais próximas do que o manejo do Big Data são as cláusulas de utilização, que afetam a privacidade, da maioria das redes sociais e que, nos últimos anos, têm aumentado cada vez mais e sob um controle maior. Isto tem provocado os crescentes protestos e denúncias dos usuários, desagradados por ver como as redes sociais fazem um uso público cada vez maior da sua vida privada.

Em 2012, o próprio Mark Zuckerberg declarava que “A privacidade morreu”. Isto dá uma ideia da importância que os proprietários das redes sociais dão aos direitos dos cidadãos, e que alguns autores identificam como Ciberutopismo. Mais uma maneira de destruir a democratização da Internet.

® Risco de perda do Princípio da Neutralidade na Internet

O Princípio de Neutralidade da Internet advoga uma rede neutra e de acesso universal para todos, em igualdade de condições. O pior é que este princípio se adequava muito bem aos primórdios da Rede, quando não se lhe atribuía demasiada importância ou lucro, mas agora que a atividade económica da mesma é cada vez mais clara, as empresas adjudicatárias da sua distribuição, as operadoras de telecomunicações, se agarram ao controle que tomar as decisões lhes confere e estão começando a transformar a Internet num meio com duas velocidades: a boa para quem pode pagar por ela e a má para o resto. Face a isto, há países que começam a criar leis para lutar contra este abuso de concorrência, que muitas vezes não busca outro fim do que ficar com o negócio das tais operadoras sob a sua supervisão. Noutros países, por outro lado, dominam fortemente os interesses económicos e os gigantes tecnológicos conseguiram impor as suas normas acima do interesse comum. Campanhas de protesto como a da Avaaz.org estão lutando contra este monopólio.

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A nossa dependência excessiva das Redes Sociais

Chegámos a um ponto em que as nossas relações sociais se desenrolam com maior frequência na Internet do que na vida real. De acordo com Dennet: Algumas tecnologias nos deixaram dependentes e a Internet é o exemplo máximo disso: tudo depende da rede. O que aconteceria se fosse abaixo?”. A única coisa que pode salvar a situação se a Internet for realmente abaixo é o antigo tecido social de organizações de todo o tipo e natureza que foram (praticamente) aniquiladas com a chegada da Internet. Associações, grupos e lugares que até há pouco tempo eram a base das relações humanas. 

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O controle da Internet pelo poder político

Da mesma maneira que os nossos dados ficam registados quando compramos ou consultamos um produto, os politólogos utilizam os Big Data para rastrear os movimentos da população e adiantar-se aos acontecimentos que poderiam vir a suceder e, desta forma, poderão conseguir controlar desde uma concentração espontânea de cidadãos protestando por causa de uma ação de despejo ou uma greve geral iminente. De facto, um grupo de investigadores australianos garante ter desenvolvido um modelo de algoritmos para prever genocídios. 

Um exemplo recente da utilização do poder das Redes Sociais para controlar politicamente é o caso do ZunZuneo, uma espécie de Twitter cubano criado pelos Estados Unidos para incitar os cubanos a insurgirem-se contra o governo.

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Outros casos de uso político da Internet são precisamente os que proíbem a sua utilização, países como o Egito, a Síria, a China ou a Turquia, onde se corta o acesso a serviços de Internet (Google, YouTube, Twitter), põem à vista o interesse pelo controle férreo da Rede a quase qualquer custo.

Vimos que o poder informativo dos Big Data baseados nas infrações de privacidade, a escalada dos países ricos pelo controle tecnológico, a desdemocratização da Rede ou a rutura da bolha do bem-estar digital poderiam muito bem ser fatores que desencadeariam o caos na Internet, mais próximos da obra de George Orwell, “1984”, do que gostaríamos. Felizmente, o ser humano, como fez em outras ocasiões, saberá adaptar-se aos tempos vindouros e sobreviver ao caos.

Miguel Ángel Corcobado
Departamento de Transformación de PRISA

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