‘Expats’ e telas

Expatriados

Somos expats e não somos poucos. Muitos de nós nem sequer nos apelidávamos de expats há algum tempo, simplesmente porque a palavra ainda não se tinha popularizado e… alguns de nós não tínhamos as boas condições de trabalho e de vida que se depreendem desse termo. Em suma: vivemos e trabalhamos no estrangeiro.

Somos camaleões que se adaptam às mudanças com uma facilidade assombrosa. Cada vez fazemos malas melhores e mais pequenas, e torna-se mais difícil contar as camas em que dormimos, os apartamentos, as cidades, os amigos… Muito do que vivemos é fugaz, mas intensíssimo. Podemos estar um pouco desligados dos programas de televisão do nosso país, de quem é o famoso que está na berra, do que se respira nas ruas… mas depressa surpreendemos com sabedoria popular do gênero “na Austrália, a água roda na direção contrária quando vai pelo cano”. Estes conhecimentos não nos farão vencer uma partida de Trivial mas – generalizando, porque há sempre pessoas que não aproveitam, estejam onde estiverem – nos darão senso comum, pragmatismo, relativismo e amplitude de visão que ficarão para sempre.

No caso dos espanhóis, alguns decidiram viver no estrangeiro por vontade própria, outros como consequência da crise econômica, outros arrastados pela família ou pelo companheiro… Em qualquer um dos casos, estamos longe da imagem a preto e branco do emigrante de mala e boina e até de outras conotações mais recentes que – pessoalmente – creio que não nos têm feito favores; veja-se “Españoles por el Mundo”, “Callejeros Viajeros”, etc. Não, a muitos de nós já não interessa que o nosso grupo de amigos seja todo constituído por espanhóis e ficar a ver futebol a desoras, desafiando o fuso horário. Nem vivemos da comida que levamos conosco. Nem gritamos quando falamos pelo Skype, não vá a pessoa do outro lado não nos ouvir. A nossa experiência no estrangeiro já ultrapassou essa fase de rústico ao estilo de Paco Martínez Soria. Com matizes, mantemos um equilíbrio entre o amor por descobrir uma cultura diferente e a conservação de costumes próprios. Se você for a um restaurante de praia, pede peixe, correto? Mas, se você viver em Tóquio, lança-se à comida japonesa. Quilômetro zero ou senso comum, chame-lhe o que quiser. A verdade é que isso não significa que tenha de se proibir uma noite regada a vinho e fumados, pois a nostalgia é bonita e não é preciso acrescentar um aforismo que o justifique. O extremo, imitar os autóctones e perder a própria identidade, por exemplo, vestindo um quimono 24 horas por dia, pode ser respeitável, mas é sociologicamente ridículo.

instagram

Em todo este turbilhão de check-ins, aterragens, mudanças e uma vida longe do que era a nossa casa, o apoio das telas e da Internet é inquestionável, desde que seja aplicado com um equilíbrio entre a vida física e a vida tecnológica. Relações à distância com a família e os amigos que se mantêm por todos os meios (Skype, WhatsApp, Instagram, correio eletrônico, blog, Facebook…), mas também novas oportunidades que surgem entre os expatriados. As suas dúvidas, a necessidade de partilhar experiências, a informação, o apoio, a ambição, a curiosidade em saber o que estão fazendo outras pessoas noutras partes do mundo e até mesmo o ócio e o entretenimento do ponto de vista do expat são temas que se abordam no projeto 0034 Código Expat, que eu idealizei com base na minha própria vida no estrangeiro. Trata-se de uma página de Internet com informação e serviços para espanhóis que vivem fora. Não é que tenhamos inventado a penicilina: apenas aplicamos esse senso comum de que falava. Os projetos digitais que existem dirigidos a eles (fóruns, conselhos para o exportador, denúncias pela “fuga de cérebros”…) me parecem interessantes, mas limitados. Por seu lado, os meios de comunicação espanhóis focam-se em informar e, de cada vez que o INE publica uma estatística, deitam as mãos à cabeça com manchetes do tipo “Já não sei quantos espanhóis emigraram…”, mas pouco mais. O que há que aborde os seus problemas, o que sentem, as suas curiosidades, que conte histórias sobre as suas vidas sem o tom melodramático de “volte para casa, volte” e, em última instância, sobre estar fora?

logo0034Há um nicho para uma plataforma profissional e séria, que seja capaz de aglutinar a enorme quantidade de conteúdos e de ajuda que se lhes pode oferecer. Já se fez muita coisa, mas falta algo global: o ponto de referência para este grupo. Cientes disso, vamos tentar ser uma dessas telas em que os expats se apoiam, sabendo bem que eles merecem uma plataforma à sua altura e como é uma realidade complicada.

0034 é (sabe tão bem poder falar já no presente e não no futuro) um projeto em que estão envolvidas pessoas que viveram no estrangeiro e profissionais do jornalismo e da comunicação. Neste momento, estamos trabalhando na aceleradora de start-ups da PRISA (PRISA INN) em Madrid e em colaboração próxima com EL PAÍS, para que o jornal nos assessore neste processo, para poder apresentar a versão beta da página dentro de muito poucas semanas, caminhar com o seu apoio nos nossos primeiros meses de vida, e com a possibilidade e esperança de que venham a ser nossos sócios no futuro.

Portanto, sim, menti. Já não sou um deles. Formalmente, já sou uma ex-expat ou repatriada, apesar de ainda me considerar uma expat e falar na primeira pessoa porque: 1) regressei há pouco tempo; 2) tenho muito presente a vida e as pessoas no estrangeiro; e 3) porque sei que, para muitos, é lá que está o seu – o nosso? – futuro.

Nina Tramullas

Jornalista e fundadora de 0034 Código Expat

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