Festival El Chupete: o rapazinho que criou uma rádio com uma tábua de passar a ferro

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Estávamos nos anos 70 e, num apartamento de Barcelona, um rapazinho não tinha com quem falar. A mãe dele passava todos os dias a trabalhar de sol a sol e o pai vivia longe, em Madrid.

E naquele espaço de 90 metros quadrados com varanda e arrecadação encontrou um lugar propício à sempre necessária criatividade. Aquela criança precisava de falar com alguém e não tinha como o fazer. Ou será que tinha?

Sim. Sou um rapaz que, um dia, criou uma rádio. Onde? Bom, aqui surge novamente a criatividade. Roubei a tábua de passar a ferro à minha mãe e pus-lhe em cima uns equipamentos que eu próprio construí. Coloquei uma antena na varanda e entrei no ar. Com tão pouca potências que só os vizinhos me ouviam. Mas tinha uma rádio.

el-chupete_2015Continuo a ser aquele miúdo que tem de usar o engenho para relacionar conceitos e conseguir efetivamente comunicar, sobretudo no mundo da publicidade.

Existe em todos e cada um de nós uma força que faz com que um rapazinho que não tem com quem falar não desista até conseguir ter mais de dois milhões de ouvintes. Somos assim. Todos nós. Adaptamo-nos, sobrevivemos. Somos pequenos e simultaneamente grandes quando somos crianças. E do problema, no meu caso a mais profunda solidão infantil, nasce o milagre da criatividade.

Isto porque não há criatividade sem problema, e o problema que não conhecíamos é o que poderemos resolver com esse pequeno grande milagre que surge dentro de nós. Essa capacidade de relacionar conceitos aparentemente desconectados é o que faz da publicidade uma arte.

Há quem se tenha atrevido a definir o processo criativo como “a capacidade do ser humano de dar resposta a um problema que nunca se tinha colocado”. Ou seja, um pedreiro que procura uma maneira de terminar uma parede pode ser tão ou mais criativo do que aquele que vende os seus guiões para uma campanha ao preço do ouro.

A luz que salva, que oferecerá a solução perante a adversidade, encontra-se na criatividade. Tudo o resto se aprende, mas isto desenvolve-se. Se dissermos aos nossos filhos que estão a dizer parvoíces porque garantem ter visto o Batman na sala de estar lá de casa, não estamos a ajudá-los a acreditar na sua própria fonte de imaginação. Bom, mas não será má ideia chamar a Polícia se ouvirmos barulhos estranhos.

Potenciar a criatividade face ao pensamento racional nas nossas crianças é o melhor presente que podemos oferecer-lhes. E fica para sempre.

Este ano, no Festival Internacional de Comunicação Infantil “El Chupete” 2015, convidaram-me para falar sobre criatividade e rádio. Da minha parte, só posso oferecer a história do tal rapazinho que montou uma rádio de verdade a partir de uma tábua de passar a ferro com uma antena na varanda e oferecer alguns exemplos de rádios para crianças em que estou a trabalhar.

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A rádio para crianças requer ter em conta que tem ouvintes de todas as idades. E a criatividade está em fazer rádio que agrade aos mais pequenos, que não desagrade aos menos pequenos e que divirta os adultos. São “camadas” com quem podemos falar. E é possível. Estou dedicado a isso.

Mais notícias virão.

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ElChupete_logo“El Chupete” Festival Internacional de Comunicação Infantil, Um Festival independente que tem como finalidade premiar a cada ano os melhores trabalhos criativos com valores dirigidos ao público infantil.
 

Juanma Ortega
Presentador de la Cadena SER y director de Estudios Quinto Nivel.

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