Girls: Geração e série

20140312
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«(…) Creio que poderia ser a voz da minha geração. Bem, pelo menos a voz de uma geração.»

Hannah Horvath, episódio-piloto de Girls

A idade de outro das séries de ficção já está instalada nas nossas telas há alguns anos. A mudança de consumo de lazer televisivo impregnou até a nossa forma de socializar e muitas conversas entre amigos, há já algum tempo, podem começar ou terminar assim: “Viu o último episódio de …?”.

As análises de algumas séries de ficção são autênticas bombas de informação antropológica. Para além disso, o seu estudo pode se converter numa fonte de futuras investigações sociológicas, linguísticas, de marketing ou até de história do jornalismo.

Let’s Put On A Show, girlshbo 3x07

Como, por exemplo, a série Girls, do HBO emitida pelo Canal +. Quem assiste sente-se certamente identificado ou aprenderá bastante sobre a chamada Generación Y. Escrita, interpretada e realizada por Lena Dunham (Nova Iorque, 1986), mostra-nos um universo muito distante de Sex and the City, série à qual foi inicialmente comparada. Afastou-se, desde o primeiro episódio, de tudo o que está relacionado com o glamour e os “Manolos”, e sobretudo, se diferencia pelo hiper-realismo dos seus diálogos.

Há que ter em conta que esta geração, também conhecida como geração do milênio, é a mais adaptada à mudança pela transformação constante que acarreta a vivência na era digital. Estão ligados durante 24 horas, para eles tudo acontece em tempo real, o que acontece é comunicado em simultâneo e possuem as ferramentas sociais necessárias, daí a sua impaciência e facilidade de adaptação.

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Lena interpreta Hannah Horvath, uma escritora na casa dos vinte anos que tenta abrir caminho no mundo literário e nos apresenta a sua vida neurótica e caótica, e a de três amigas suas em Brooklyn (a realidade de Lena Dunham é muito melhor do que a da sua personagem: acaba de assinar um contrato milionário para a publicação, pela Random House em outubro deste ano, do seu primeiro romance ‘Not that King of girl’). Do ponto de vista da transformação tecnológica em que estamos imersos, a Geração Y, nativa e apaixonada pelo digital, há muito que dizer. Assim, termos como e-book, Whatsapp, Snaptchat, Facebook, Twitter, Google e Instagram estão integrados da forma mais natural no enredo e nos inteligentes diálogos de Girls. O mundo digital e as redes sociais são uma parte indissociável do seu quotidiano.

Girls toma o pulso conversacional dessa geração, como nos indicou o primeiro episódio. Assim, através das observações da sua autora e realizadora, são abordados temas do seu interesse em diferentes âmbitos, incluindo as referências jornalísticas. A realidade de Lena se alinha frequentemente com a do seu alter ego de ficção para defender ou denunciar alguns meios de comunicação ou tendências da sociedade de informação. Um dos exemplos mais evidentes aconteceu na terceira temporada (atenção, spoiler) em que a série critica o meio online sensacionalista Gawker.com, cujo lema é “o que hoje é fofoca, amanhã será notícia”. Lena Dunham decidiu que a sua personagem o defenderia de forma sarcástica, tal como faz com o site feminino Jezebel.com, que chegou a oferecer uma recompensa a quem revelasse as fotos sem Photoshop de Lena Dunham na última capa da revista Vogue.

A sua forma de demonstrar o desdém que sente por este tipo de publicações na Internet é notória no seguinte diálogo:

dialogo
Adam (namorado de Hannah): Você lê as notícias do Gawker?
Hannah: Eles ampliam a informação das notícias mediáticas e eu sou mediática. Onde leria as notícias? (…)
Adam (namorado de Hannah): São um bando de invejosos que ganham a vida apelando ao nosso desejo básico de fazer lenha de uma árvore tombada.
Hannah: Não estou de acordo. É um site que homenageia a palavra escrita. E ou seu site irmão, Jezebel, é um sítio onde as feministas se podem apoiar e que é muito necessário neste mundo moderno cheio de machistas (…)

As irônicas palavras de Hannah conseguem, sem o expressar, atacar estas publicações sensacionalistas da Internet.

Termos tão atuais no mundo da publicidade como branded content também são assumidos por Dunham na série. Para não ir mais longe, nessa mesma temporada, a protagonista trabalha no departamento de marketing da revista GQ, precisamente como criativa para campanhas de branded content. A introdução desse tipo de expressões no decorrer da série da HBO evidencia a sintonia que existe entre os seus argumentos e o reflexo de uma tendência profissional tão atual na sociedade contemporânea.

Do outro lado do espelho, encontramos o principal público-alvo de Girls: precisamente os jovens da Geração Y que nasceram e cresceram na sociedade de informação e que necessitam de diferentes canais para se identificarem completamente com a série. Através de ações de comunicação transmídia, conseguiu alcançar esta audiência tão ‘geek’. Assim, a HBO não hesitou em utilizar um vídeo publicado no YouTube realizado com imagens do Instagram para promover a última temporada; utilizou o Snapchat para enviar uma versão emoji de Shoshona Shapiro, amiga de Hannah; criou gifs no Tumblr, e lançou no Spotify a trilha sonora original de cada temporada.

As redes sociais desempenham um papel notável na aproximação a este espectador ativo, que gosta de participar e colaborar. A sua fanpage no Facebook tem cerca de um milhão e meio de fãs, e a conta oficial da série Girls e a de Lena Dunham no Twitter, somam cerca de dois milhões de seguidores no seu conjunto.

A sua personagem, Hannah Hovath , como seria de esperar, também criou uma conta no Twitter que utiliza na série.

O difícil, para esta geração, é viver sem contar o que pensa a cada instante em menos de 140 caracteres. Não é verdade?

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