A leitura digital: mais além do ebook

W

Abril, com o Dia do Livro, é um bom mês para refletir sobre a leitura e, já agora, sobre a transformação da mesma, que, tal como outras atividades culturais, está a adaptar-se ao mundo digital que a rodeia.

Segundo o que se retirou da última conferência Quantum, o encontro do setor livreiro que se celebra todos os anos antes da Feira do Livro de Londres, o livro em papel resiste às vendas perante o estancamento do livro digital. Por exemplo, em Espanha, o crescimento da compra de livros digitais rondará apenas os 45 milhões de euros, daqui ao ano 2021, segundo a Statista. Isto deve-se, sobretudo, às vendas de livros eletrónicos que não se estão a produzir nas categorias mais populares do setor (literatura, romances, ensaios…). Pelo contrário, centram-se sobretudo em temáticas mais setoriais (desporto, humor, autoajuda…). Com isto, vemos que o leitor que interessava à indústria, o que lê uma média de dez livros por ano, talvez tenha experimentado o uso do ereader, considerado as suas vantagens, mas, no fim, voltou a decidir pela leitura em papel. Além disso, continua a não ajudar que o IVA do livro físico seja de apenas 4%, perante os 21% do ebook, que, apesar do preço relativamente baixo, pode não compensar na altura de adquirir um objeto intangível, outra das desvantagens do livro digital.

-

ebook_statista_España

A alternativa da autoedição

No entanto, há outros aspetos da digitalização do livro que prosperam, apesar do escasso crescimento. O certo é que se vendem livros para ler no ecrã e ainda se vai gerando uma tendência paralela à editora tradicional. Falamos da autoedição, em que os utilizadores compram diretamente aos autores de ebooks. Atualmente, 1 em cada 4 livros digitais que se adquirem correspondem a uma venda direta deste tipo. Esta tendência passou dos 12% ao todo em 2012 aos 22% em 2016, um crescimento bastante significativo que pode resultar numa parte da indústria editorial futura.

A autoedição e as editoras independentes que publicam digitalmente estão a ter um especial crescimento na América Latina. Existem exemplos como o portal argentino IndieLibros ou o brasileiro Clube de Autores, que representam uma referência na autoedição.

Para o êxito da autoedição, também contribui que o preço de venda seja muito mais competitivo que o dos ebooks das grandes editoras. Neste gráfico, publicado no relatório Evolução do livro eletrónico na América Latina e España 2016, editado por Dosdoce e Bookwire, pode-se ver o impacto dos preços nas vendas de ebooks. As vendas realizadas em todo o mundo em mais de mil editoras em 2015 indicam que o nicho inferior a 6 euros representa 54% das vendas, com um declínio percentual muito elevado à medida que aumenta o preço do livro eletrónico.

ebook_venta

O auge do audiolivro

Por outro lado, está-se a implementar o formato de audiolivro como alternativa à leitura direta do livro e que se adapta perfeitamente ao meio dos dispositivos móveis a que recorrem os utilizadores. Há muitos anos que este formato tenta arranjar lugar na indústria editorial, mas sempre frustrado. Este ano, segundo Javier Celaya, especialista no setor e diretor da Dosdoce: “será uma das tendências que mais dará que falar dentro do mundo editorial deste ano, sendo o formato que mais crescerá e a disrupção mais importante que nos permitirá inovar no nosso mercado”.

A Dosdoce publicou recentemente esta infografia onde se pode ver a evolução histórica deste formato, a situação atual do mercado, o seu modo de consumo e que contribuições podem ter no incentivo à leitura.

BOCETO15

Mais inovação

Outra vantagem da inclusão da leitura no mundo digital é a criação de grupos virtuais de leitores, onde se recomendam ou se partilham diversas leituras. Uma ideia derivada do uso das redes sociais e que também tem o seu auge na Internet.

Projetos como El Placer de la Lectura,uma comunidade de leitores em espanhol que já alberga mais de dois milhões de utilizadores. Outros como o Librotea procuram uma certa qualidade na recomendação de livros, já que ali não são apenas os utilizadores que recomendam livros, mas também os próprios autores, livreiros, críticos de prestígio, bloggers e comentadores participam nisso.

Bibliomanager é um exemplo de outra tendência futura que deriva da autoedição, a impressão por pedido. É uma plataforma online que liga leitores, livrarias, distribuidores e editores de Espanha e da América Latina para a produção e venda de livros através da impressão por pedido.

Teskum, por sua vez, seria uma evolução absolutamente tecnológica da recomendação de leitura, já que se trata de uma plataforma que utiliza a inteligência artificial através do big data. A Teskum realiza a análise de cada livro dividindo-o em três grandes partes: Análise de Sentimento, Análise Demográfica e Interação Social do livro e do autor.

Por outro lado, aproveitando a corrente do empreendimento ligado ao mercado digital, a Fundação Germán Sánchez Ruipérez e a Factoría Cultural, com o apoio do Ministério da Educação, Cultura e Desporto, criaram o EmprendeLibro, um programa orientado para o apoio de iniciativas inovadoras de editoras digitais emergentes em espanhol.


Miguel Ángel Corcobado
Comunicación y marketing de PRISA

Deixe uma resposta

MENU
Leer entrada anterior
Bomarzo_850
Reserve grátis “Bomarzo” no seu Palco digital

​A PRISA está a participar de forma muito ativa na celebração do bicentenário do Teatro Real de Madrid, cujas atuações...

Cerrar