As artes não são trabalhos manuais

little girl and water colors

Como acontece todos os anos, a Feira de Arte Contemporânea de Madrid, ARCO, convida-nos a descobrir as últimas tendências mundiais no contexto da expressão plástica e visual. Pela primeira vez nos seus 34 anos de história, a educação faz parte da oferta, entendida como ferramenta ativa para formar os espectadores do futuro. A iniciativa surpreendeu agradavelmente docentes e famílias no ano em que entrada em vigor da LOMCE (Lei Orgânica para a Melhoria da Qualidade Educativa) reduziu drasticamente não só as horas de aulas, mas também o valor curricular da educação artística no sistema educativo espanhol.

Inseridos em coletivos de ação cultural e educativa como a associação COAEM, a iniciativa Cero en Conducta ou o movimento +Artísticas @masartisticas, os docentes pedem à comunidade internacional uma maior sensibilidade em relação ao papel fundamental da arte e da cultura na construção de um modelo educativo integral e de qualidade.

María Acaso ARCO 2015

María Acaso

A responsável do Programa Arte+Educação da ARCO 2015 é María Acaso, Professora Efetiva de Educação Artística (UCM) e Coordenadora da Escola de Educação Disruptiva (Fundação Telefónica).

“Num mundo hipervisual em que as imagens hegemônicas provenientes da cultura de massas têm um papel central nas nossas vidas, as instituições educativas (e dentro desta categoria incluo uma feira como a ARCO), têm a responsabilidade de dar valor ao grupo de imagens que não fazem parte da cultura de massas. Introduzir a arte contemporânea nessas instituições, e especialmente nas que não estão relacionadas com a arte de uma maneira direta, como a escola, tem que ver com a dinâmica de romper com as histórias únicas, neste caso, das histórias visuais.”

Que valor se atribui ao pensamento visual no sistema educativo atual? Perguntamos a diferentes professores de artes.

Inma Contreras@inmitacs, Professora para alunos do 1º e 2º do ESO (Ensino Secundário Obrigatório) e membro do coletivo +Artísticas, responde numa entrevista à Inevery Crea:

“… em todas as instâncias criativas, parte-se do princípio que a criatividade e o pensamento visual fazem parte da inovação na educação, enfatiza-se a necessidade de construir um pensamento crítico e o fato de o corpo discente dever aprender a refletir e a interpretar de forma crítica as manifestações do mundo que nos rodeia, assim como as suas próprias produções… e uma vez ditas todas estas frases tão bonitas, passa-se a excluir as áreas de índole artística e musical a favor de áreas que se crê serem mais importantes ou, simplesmente, mais relevantes… de acordo com pontos de vista de produtividade… no mínimo discutíveis.”

“A proposta do programa de arte+educação da ARCO 2015 assenta sobre a necessidade de intercâmbio de práticas contemporâneas entre a Colômbia, como país convidado, e a Espanha, como país anfitrião,” explica María Acaso. “Sendo o objetivo fundamental da Feira visualizar o nível alcançado pela Colômbia em termos de desenvolvimento da arte contemporânea nos últimos anos, o programa de arte+educação quer cumprir este mesmo objetivo no contexto das práticas educativas. O intercâmbio se baseia em duas atividades abertas, assim como um Encontro Profissional.”

Inma Contreras

Trabalho ‘ Platero para ou pintado ‘, onde Inma Contreras propõe aos alunos fazer versões nos capítulos de ‘Platero y yo’ de Juan Ramón Jiménez, quadrinhos com formas inspiradas pelas pinturas de El Greco. Editores de imagem e ferramentas de apresentação da web 2.0 também têm sido utilizados.

Estas atividades abertas foram desenvolvidas em colaboração com o MediaLab Prado Madrid e o Espaço Fundação Telefónica, através de workshops e conferências informais de entrada livre, com o intuito de criar um olhar aberto, flexível e sem preconceito sobre as manifestações artísticas contemporâneas, facilitando a aproximação às obras de arte. Orientados a todo o tipo de perfis, os organizadores trabalharam a oferta pensando em particular nos educadores e nos pais que estão incorporando progressivamente estratégias didáticas para utilizar a arte contemporânea como um motor de aprendizagem, tanto no contexto da sala de aula como na escola aplicada a todas as facetas da vida. Uma forma de compensar a desvinculação da administração educativa da formação crítica e visual do corpo discente.

“O objetivo é criar workshops que permitam experimentar, através de ferramentas digitais, os novos modelos e experiências didáticas para a aprendizagem e a participação,” afirma Javier Laporta, responsável de educação no MediaLab Prado, “e, ao mesmo tempo, descobrir o potencial destes novos modelos para a sala de aula ou para a família. A educação e a participação estão cada vez mais relacionadas.”

O único requisito para fazer parte do intercâmbio é se cadastrar na página de Internet do MediaLab Prado e chegar ao centro com a mente aberta à tecnologia e à arte. Da mesma maneira, é imprescindível se registrar previa e gratuitamente na sua página para assistir ao seminário “O contexto educativo nas práticas artísticas contemporâneas na Colômbia”no Espaço Fundação Telefónica.

“Em anos anteriores, participamos também na ARCO através de instalações que ligavam a arte à tecnologia,” diz Javier Laporta. “Este ano, nos pareceu mais interessante entrar através da educação, a ferramenta mais poderosa para ligar o cidadão à arte contemporânea. Nós colaboramos no programa deste ano acolhendo três residentes colombianos que procedem de três agentes culturais de diferentes regiões da Colômbia, ligadas à arte contemporânea e que desenvolvem projetos de educação. São o coletivo La Agencia, o Espaço Lugar a Dudas e o Diretor de Educação do Museu de Arte Moderna de Medellín, que trabalha numa linha de investigação sonora chamada Edunoise. É importante referir que, ao contrário de outros espaços, onde o formato é de conferência, iremos fazer workshops de entrada livre no nosso espaço.”

MediaLab Prado

Imagem do MediaLab Prado durante a oficina de programação para meninos e meninas CoderDojo.

Diz Inma Contreras: “Claramente, a educação artística é uma janela para o pensamento divergente. Quando falamos de criatividade, esse conceito que temos banalizado tanto nos últimos tempos, não nos referimos necessariamente à criação artística ou literária. Nos referimos à mudança necessária no planejamento, ao encarar um problema concreto de outro ponto de vista, para procurar soluções inesperadas. A educação artística e musical ajuda a favorecer essas maneiras de pensar, essa procura de soluções alternativas, essa mentalidade aberta que enriquece.”

Na exploração de novas metodologias pedagógicas que facilitem a formação do pensamento crítico visual, María Acaso juntou-se ao grupo de especialistas que constituem a iniciativa #SantillanaLab, a nova proposta de inovação da Santillana para a definição das estratégias educativas do século XXI.

“Esta é a primeira edição em que a ARCO dedica um programa específico ao tema da arte+educação, e espero que a partir deste ano seja um programa permanente, porque é necessário que as organizações e instituições visíveis, as que têm influência e que, no final de contas, importam, deem visibilidade dentro das suas atividades à educação como uma prática criadora de conhecimento ao mesmo nível que as próprias artes visuais,” diz María Acaso.


Isabel Andrade

Santillana Negocios Digitales

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