“O desafio no Planeta Futuro é apresentar de forma diferente histórias que nem sempre são as mais agradáveis”

Pablo_Linde_TalentoInterno_850

Pablo Linde é um jornalista empreendedor, apaixonado pelo seu trabalho e comprometido com as suas ideias, algo que nos mostra em cada uma das reportagens que publica em Planeta Futuro, a secção do El País apoiada pela Fundação Bill TalentoInterno_05e Melinda Gates e pela FAO que nasceu para dar voz às pessoas anónimas ou esquecidas de qualquer canto do mundo. Foi precisamente uma destas reportagens que acabou de ganhar o prémio da XVII Edição do Prémio de Jornalismo Accenture na categoria de inovação. Pablo diz-nos o que representa este prémio e o seu trabalho em Planeta Futuro nesta entrevista, que queremos sea a primeira de uma série dedicada à os ‘talentos internos‘ que fazem os profissionais PRISA.

P.- Acaba de receber o prémio da XVII Edição do Prémio de Jornalismo Accenture na categoria de inovação pelo seu trabalho publicado no Planeta Futuro do El País intitulado “23 Invenções que Podem Melhorar a Vida de Milhões de Pessoas”, selecionado entre 836 trabalhos apresentados. O que significa para si um prémio como este? Estava à espera?

Como disse, são imensos trabalhos, e a verdade é que não estava mesmo nada à espera. Quando me ligaram a dizer que era finalista, foi uma bela surpresa. Receber um prémio é sempre uma alegria. Além da satisfação pessoal, como disse na cerimónia de entrega, parece-me especialmente importante que este tipo de galardões – este em concreto premeia artigos sobre inovação – recaiam sobre trabalhos que não falem necessariamente das empresas da linha da frente ou que movimentem mais dinheiro, mas sim de projetos muito modestos que podem ser muito úteis em lugares aos quais não se costuma dar grande atenção nos media. Nesse sentido, é um reconhecimento do Planeta Futuro, a secção do El País em que trabalho, onde falamos constantemente sobre estas realidades menos visíveis.

P.- O seu trabalho no Planeta Futuro, um projeto que conta com a colaboração da Fundação Bill e Melinda Gates e também da FAO, dá visibilidade aos problemas quotidianos dos mais desfavorecidos que não costumam contar com um espaço como este nos media. O que faz com que este seja realmente um projeto jornalístico inovador? O que o diferencia de outras propostas semelhantes?

Este projeto é o sonho de qualquer jornalista com uma certa consciência social. O El País, com a ajuda de Fundação Bill e Melinda Gates, apostou em dar visibilidade a assuntos que normalmente os jornais não costumam tratar em profundidade; por um lado, porque nem sempre são os mais virais ou atrativos para o grande público e, por outro, porque são caros: requerem tempo, viagens, estadias no estrangeiro, bons fotógrafos, vídeos, especiais multimédia. Eles patrocinam o Planeta Futuro, dando-nos uma independência editorial absoluta. Não existe outra proposta em castelhano tão dedicada ao jornalismo de desenvolvimento.

PremioPeriodismoAccenture_ganadores

P.- De todos os temas que já abordou no Planeta Futuro, com quais sentiu especialmente que tinha a obrigação, como jornalista, de fazer com que o mundo soubesse o que está a acontecer e que temos de fazer algo em relação a esse problema para o resolvermos entre todos?

Interesso-me particularmente pelos temas relacionados com a saúde, que são também os que mais cubro no Planeta Futuro. Dentro desta área, por um lado, há três pandemias que matam todos os anos cerca de três milhões de pessoas no mundo (SIDA, malária e tuberculose) e que a comunidade internacional se propôs erradicar até 2030; é apaixonante ver como isto acontece, como se está a reduzir a mortalidade, como os cientistas trabalham nisto, independentemente de se conseguir atingir uma meta tão ambiciosa. Por outro lado, um assunto que cobrimos e que é muito difícil encontrar nos media generalistas é aquilo que se conhece como as doenças esquecidas: 17 patologias que atingem 1.000 milhões de pessoas e nas quais as grandes indústrias não investem porque não são rentáveis. Nesse caso, são sobretudo as ONG, médicos de medicina tropical e fundações que trabalham com poucos meios para lutar contra doenças como a Doença de Chagas, a lepra ou tracoma, que nos são praticamente desconhecidas mas que são um verdadeiro problema na Ásia, na América Latina e em África, sobretudo. Dar-lhes visibilidade é um desafio bonito.

P.- Pelo menos, como jornalista pode dar o seu pequeno contributo para que as coisas mudem no mundo e para que este seja mais justo e sustentável, mas o que podem as restantes pessoas fazer para mudar as coisas no planeta? O que nos aconselha a fazer, além de depositar mais ou menos dinheiro na conta corrente de uma ONG?

Nestes últimos anos no Planeta Futuro, aprendi muitas coisas. Uma das que mais me chamou a atenção é o desperdício de alimentos: deitamos fora um terço da comida que se produz, ao mesmo tempo que 800 milhões de pessoas em todo o mundo passam fome. Desperdiçar comida contribui também para gastar recursos e esgotar o meio ambiente de forma desnecessária. Está nas nossas mãos colmatar parte deste problema: basta um pouco de responsabilidade no consumo e na compra. E não custa dinheiro; pelo contrário, até poupamos.

P.- A sua relação com o El País começou em 2007, quando estudou na Escola de Jornalismo UAM-EL PAÍS. Tinha já experiência como jornalista, mas o que representou para si esta etapa de aprendizagem no jornal?

Anteriormente, tinha trabalhado durante quatro anos em jornais locais, nos quais aprendi muitíssimo. Na Escola do El País, continuei esta aprendizagem e descobri outra dimensão do jornalismo, uma com muitos mais recursos que permitem mais possibilidades e padrões de qualidade mais elevados. Aqui, conheci alguns dos melhores jornalistas de Espanha, tanto entre os professores da escola como entre os colegas, que são uma fonte de inspiração.

PlanetaFuturo_linde

P.- O EL PAÍS, como todos os meios de comunicação social, encontra-se numa viragem para o digital e a transformar radicalmente a sua forma de trabalhar. Que mudanças afetam ou melhoram o trabalho em Planeta Futuro?

O Planeta Futuro é uma secção digital de nascença. Para nós, o papel é uma referência valiosa, mas não faz parte do nosso dia-a-dia. Estamos constantemente a implementar novas formas de trabalhar, de difundir os nossos conteúdos nas redes sociais, de apresentar os temas de formas diferentes e atrativas, publicando especiais multimédia. A base do trabalho jornalístico é a mesma, mas os processos mudaram radicalmente. No meu caso, por exemplo, nunca tinha pegado numa câmara para fazer uma reportagem em vídeo, algo que nos obriga a repensar tudo de outra forma.

P.- O seu artigo premiado é verdadeiramente interessante. Qual é o próximo projeto que tem em mente e do qual nos possa falar? Neste mundo digital, em que se espera sempre que tudo seja surpreendente, qual poderia ser o elemento disruptivo na colaboração humanitária e no desenvolvimento sustentável?

Esse é precisamente o nosso objetivo no Planeta Futuro: apresentar histórias que nem sempre são as mais agradáveis ou atrativas para a maioria de uma forma diferente. E também mostrar outras perspetivas menos pessimistas do desenvolvimento. Justamente, estamos prestes a publicar um especial sobre cidades. Metade da população mundial vive já nas cidades e as políticas urbanas são essenciais para o desenvolvimento. Visitámos várias por todo o mundo para apresentar exemplos de lugares muito complicados que estão a fazer coisas diferentes, inspiradoras. Será publicado em breve.

Pablo_linde

P.- Também tem uma faceta de empreendedor, já que em 2012 fundou, juntamente com Joaquín Cuenca (fundador da Panoramio), uma start-up chamada PressPeople e que pretende ser um ponto de encontro dos jornalistas com as fontes da notícia e onde se pode consultar dados de mais de 11.000 fontes organizadas por categoria e local para seguir as suas notas de imprensa. Como surgiu este seu projeto e que receção está a ter na comunidade jornalística?

O projeto foi fruto de uma convivência muito intensa que tive com alguns empreendedores digitais verdadeiramente brilhantes. Ocorreu-me que se podia solucionar um problema: as fontes de informação estão dispersas e a PressPeople poderia ser um lugar onde as juntar. O Joaquín gostou da ideia e começámos a trabalhar nela. A página tem cerca de 100.000 visitas por mês, mas há muito tempo que não a melhoramos, porque estamos muito concentrados noutros projetos profissionais.

P.- O talento chama talento. Há outro projeto inovador que lhe esteja a tirar o sono ultimamente?

A verdade é que o Planeta Futuro consome todo o meu tempo. É uma secção pequena onde todos estamos muito envolvidos em todo o processo; além disso, temos a sorte de viajar com frequência, o que significa que aplicamos todas as nossas energias no trabalho da secção.


Miguel Ángel Corcobado
Dept. de Comunicación y Marketing de PRISA

Deixe uma resposta

MENU
Leer entrada anterior
DigitalChanfgemakers_Noe_850
Digital Changemakers: a webserie de transformação digital

Os processos de transformação digital nas empresas precisam de estar sempre atentos ao que se passa em seu redor para...

Cerrar