“As novas tecnologias abriram possibilidades infinitas para os contadores de histórias”

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Quando Henry Stanley chegou em 1871 a Ujiji, na Tanzânia, e encontrou um escocês repousando tranquilamente à sombra, não teve qualquer dúvida: “Doutor Livingstone, presumo.” Se, atualmente, viajarmos até algum ponto remoto do mundo, é muito possível que encontrássemos um murciano bem-humorado a gozar placidamente a vida. E novamente não restam dúvidas: “Paco Nadal, presumo.”

Jornalista especializado em viagens e na natureza, além de escritor, bloguista, realizador de documentários e fotógrafo, Paco Nadal partilha as suas experiências de viajante no programa ‘La Ventana’, da Cadena Ser, e no suplemento ‘El Viajero’, do jornal diário El País, além de contar com mais de duas décadas a publicar reportagens nas melhores revistas especializadas de viagens e a escrever guias para viajantes.

Esta personalidade soube retirar proveito do impacto da Internet e é o autor de “El Blog de Paco Nadal”, um dos livros de bordo mais lidos e influentes de língua espanhola. Também produz o canal de YouTube “Paco Nadal, supongo”, onde nos permite participar visualmente nas suas viagens.

P.- Tombuctu, Banguecoque, Machu Picchu, Mazarrón… A primeira pergunta que ocorre é quase obrigatória. Há algum canto do mundo que ainda não tenhas pisado ou alguma aventura histórica ou ficcionalizada que não tenhas revivido? E já agora, sentes-te mais turista ou mais viajante?

Felizmente, ainda existem muitíssimos sítios que ainda não visitei. O mundo é tão grande que uma vida não é tempo suficiente para vê-lo todo. Além disso, a melhor viagem é sempre a que ainda está por fazer. Quanto à famosa – e absurda – questão de ser turista ou viajante, tento sempre evitá-la por isso mesmo, por ser absurda. Somos todos turistas ou, o que vai dar ao mesmo, viajantes com prazo de validade. Conheço muito poucos verdadeiros viajantes e eu não sou um deles.

P.- A segunda pergunta também é obrigatória. Onde arranjas tanto tempo para viajar e, ainda por cima, compatibilizá-lo com a imensidão de projetos que tens entre mãos?

Arranjo tempo para viajar porque dedico a minha vida a isso. É a minha paixão e, felizmente, consegui fazer dela a minha profissão. Por isso, parece que estou sempre a trabalhar, mas, na verdade, estou sempre a aproveitar. Aproveito o que sempre sonhei fazer na vida: viajar e contar. O que mais detesto na vida é a rotina e lutei para que, na minha vida, não haja dois dias iguais.

P.- Tens um trabalho fascinante e invejado, o que explica aquela graçola que circula pela Internet: “Quem não odeia o Paco Nadal?” Falando de trabalho, já colaboras há quase 10 anos no programa La Ventana da Cadena SER e desde 1992 que escreves as tuas crónicas no teu blogue El Viajero, do El País. Como funcionam as regras do jornalismo de viagens? Já incluíste no teu trabalho ações de marketing baseadas no branded content ou o storytelling?

As regras básicas do jornalismo de viagens continuam a funcionar como sempre funcionaram: o objetivo é criar histórias que emocionem os leitores ou seguidores. Essa é a pedra angular do jornalismo de viagens e continua a ser tão válida no mundo 2.0 como o foi no papel. O que mudou completamente e para bem é a maneira de contar essas histórias. A Internet e as novas tecnologias abriram possibilidades infinitas para os contadores de histórias, que é o que somos, no fundo. Digo sempre que o jornalismo de viagens está a viver um momento esplêndido. Nunca um contador de histórias dispôs de tantas ferramentas, tão úteis e tão capazes de chegar a um público tão diverso como agora.

P.- Um dos teus projetos que mais me fascina é o que realizas com a Cadena SER Viajes, em que um grupo de leitores pode ter o luxo de te ter como guia numa viagem singular. Que bela experiência! Fala-nos um pouco mais sobre isto e diz-nos quais são os resultados deste tipo de projetos.

A aventura da Cadena Ser Viajes está a ser uma das grandes experiências da minha vida profissional. Sou um viajante-turista solitário, gosto de viajar sozinho e, além disso, acredito que é necessário para mergulharmos bem num lugar e transmitir isso com emoção. Portanto, quando me propuseram acompanhar grupos de ouvintes da Cadena SER, tive as minhas dúvidas. Mas está a ser uma grande experiência. Primeiro, porque são grupos de pessoas muito semelhantes, todos ouvintes da Cadena SER, e isso criou uma cumplicidade e grupos muito divertidos. Em segundo, porque aprendi uma coisa: um jornalista de viagens solitário também tem muito que aprender com os outros turistas-viajantes. E eles estão a ensinar-me muita coisa.

P.- Desculpa o atrevimento, mas não consigo deixar de te comparar, em certa medida, com Miguel de la Cuadra Salcedo, outro viajante peculiar tão mediático como tu, só que, no teu caso, vives numa época em que os meios são um pouco diferentes. Nesse sentido, como utilizas a tecnologia digital para o teu trabalho? O que trouxeram as redes sociais à tua relação com os teus leitores? E que impacto tiveram os novos dispositivos e a Internet nas tuas viagens?

Quem me dera ser um pouco parecido com o Miguel de la Cuadra Salcedo (risos)! Mas é verdade que era outra época e havia outras formas de fazer as reportagens. Como dizia, vivemos o momento mais incrível que conheci em 25 anos de trabalho como jornalista. As redes sociais, os novos dispositivos, a Internet e a tecnologia digital trouxeram muitíssimas coisas boas. Mas, se tivesse de escolher uma, é a possibilidade de criar uma relação direta entre o contador de histórias e os seus seguidores. O processo típico, em que era necessário haver um meio de comunicação social tradicional entre quem escreve e quem lê, foi dinamitado pela Internet. É a grande revolução. Agora, como jornalistas, falamos diretamente com os nossos leitores/seguidores. E eles podem contactar diretamente connosco. É uma mudança radical e o que mais me agrada nas novas tecnologias.

Paco Nadal_cadena SER

P.- Em relação à pergunta anterior, vejo que há uma faceta que exploras muito bem, que é a de ‘YouTuber viajante’. O teu canal do YouTube “Paco Nadal , supongo” ou os vídeos da rubrica “Kilometraje Ilimitado” da Cadena SER são realizados muito de acordo com os cânones do mundo digital: são virais, divertidos, atrativos e são visualizados por uma multitude de utilizadores. Gostas da experiência de incluir o vídeo no teu trabalho? Fala-nos um pouco mais sobre esta iniciativa.

Eu entrei na comunicação pela imagem. Queria ser fotógrafo e, no fim, acabei por fazer um pouco de tudo. Mas tenho de dar graças pela minha formação em imagem, porque me abriu as portas de um mundo fascinante: o vídeo. Não há melhor ferramenta para contar uma história de viagens do que o vídeo, porque tem tudo menos o cheiro: som, movimento, imagem fixa ou texto. Há muito tempo que faço televisão convencional, mas quando o fenómeno do YouTube começou, não tive dúvidas: o público, sobretudo o mais jovem, ia migrar para lá. Por isso, agora centro uma boa parte dos meus esforços no meu canal do YouTube, “Paco Nadal Supongo”.

P.- Permite-me fazer uma pergunta mais íntima. Há pouco tempo, li que o Sebastião Salgado tinha tido de pousar a câmara em muitas ocasiões para chorar com o que estava a ver diante dos seus olhos. Todas as viagens têm uma parte boa e uma parte má num mundo infelizmente tão convulso. Já choraste também em alguma das tuas viagens perante a injustiça humana?

Muitas vezes, mas sobre esse tema, remeto-te para este post do meu blogue do El País: Los otros “turistas”. Um viajante não pode ser indiferente ao que o rodeia. Não viajamos apenas para nos divertirmos; viajamos para aprender, para descobrir, para compreender, e isso inclui também todas as maldades e injustiças do mundo.

P.- Os controlos excessivos dos aeroportos, a insegurança de alguns sítios, as praias paradisíacas ou a tranquilidade de um entardecer. O que é o melhor e o pior de viajar para alguém que o faz com tanta frequência e por tantos lugares?

O pior é o espaço apertado dos aviões. O melhor é o sorriso de uma criança.

P.- Como o Toyoutome blog gosta de conhecer os gostos digitais dos seus entrevistados, podes recomendar-nos alguma aplicação para telemóvel que te tenha sido verdadeiramente útil?

Uso muitas, como o Skyscanner para pesquisar voos, o Google Maps para não me perder e o Snapssed para retocar as fotos.


Miguel Ángel Corcobado
Comunicaación  y Marketing, PRISA

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