Lola Núñez: “A leitura e a escrita são quase, quase funções vitais”

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A literatura infantil e juvenil é um mundo apaixonante, e saber criar uma ligação com o público mais jovem e dedicar-se a fazer germinar neles a semente do amor pela leitura é praticamente um dom. Quem tem este dom é Lola Núñez, editora de livros didáticos na Santillanae prolífica autora de livros infantis e juvenis na chancela Loqueleo e noutras editoras. Lola tem o binómio perfeito, sabe escrever para os leitores mais jovens e, além disso, tem alma de educadora. Entre as suas obras, destacamos as coleções de Sherlock Tópez e de Malos de cuento, e livros como ¿Por qué hay brujas en las veletas? ou Donde viven los lobos feroces, entre muitos outros. À sua bibliografia acresce também Almagesto, uma obra pensada para o público adolescente.

Lola Núñez junta-se por estes dias a um vasto elenco de autoras e autores que partilham com ela o dom de saber contar histórias para crianças e jovens no FESTILIJ, o Festival de Literatura Infantil e Juvenil de Tres Cantos,(Madrid), um evento patrocinado pela chancela Loqueleo que pretende promover a literatura infantil e juvenil, colocando especial enfoque na produção de escritoras e escritores espanhóis. Neste evento, haverá workshops de escrita, palestras, contadores de histórias, debates e uma série de atividades que procuram fazer crescer e apresentar aos jovens histórias escritas especialmente para eles.

Conversámos sobre isto e muitas outras coisas com Lola Núñez nesta entrevista:

FESTILIJ3C-INTERNET-1P.- O FESTILIJ é um evento em que participa a chancela Loqueleo e que procura promover a literatura infantil e juvenil, com especial destaque para a produção de escritoras e escritores espanhóis. O que representa este evento para o setor e o que destacarias nestas jornadas literárias?

Qualquer evento relacionado com a leitura é um grande acontecimento e a Loqueleo tem essa noção, pelo que está sempre presente na celebração da leitura. As feiras, os festivais e todas as atividades deste tipo são festas da cultura em que os leitores e os criadores partilham as suas experiências. São oportunidades para nos conhecermos, para explorar novos caminhos livrescos e novos gostos literários. Sempre um evento relacionado com a leitura é lançado, há uma maré que empurra todos os envolvidos a promover mais a leitura e os livros. É como um novo impulso para todos nós.

Por outro lado, de um ponto de vista institucional, todos os organismos reconhecem a importância da cultura para o desenvolvimento das sociedades e têm como uma das suas prioridades aproximá-la dos cidadãos. Portanto, sempre que se abre uma nova janela para a leitura, como o FESTILIJ de Tres Cantos, dá-se início a algo muito importante.

P.- O fomento da leitura é uma missão difícil e complicada, sobretudo na era digital, em que as distrações audiovisuais são imensas. Porém, a situação é tão grave como a pintam ou, na verdade, as nossas crianças e jovens leem mais do que julgamos?

Eu sou uma grande otimista porque estou convencida de que quem se envolve na leitura desde os primeiros anos fica leitor para sempre. Basta ver o número de visitantes que recebem as livrarias especializadas em literatura infantojuvenil, tanto nas suas sedes como em feiras e festivais. É verdade que as leitoras e os leitores têm uma relação diferente com os livros de acordo com a idade mas, se mantiveram um idílio com a leitura desde a primeira infância, voltarão a explorá-la infinitas vezes. Por vezes, os seus interesses mudarão e distanciar-se-ão (um pouco), mas sentirão a sua falta e a ela regressarão uma e outra vez, com redobrado vigor.

P.- Como autora e editora de livros didáticos na Santillana, estás familiarizada com o ensino da leitura, mas como podemos formar também escritores desde a infância?

A escrita tem um enorme poder de atração para as crianças e jovens, o que faz dela uma atividade motivadora. Se, além disso, formarmos leitores, críticos e ávidos de textos de qualidade, estaremos a plantar neles a semente da criação literária.

Quando me encontro com os leitores, há sempre vários que confessam escrever histórias. Na infância, a escrita é uma expressão de interesses, desejos e inquietudes, é a escrita espontânea, a exploração das palavras como um novo suporte criativo. Na adolescência, escrever torna-se uma catarse que facilita a reflexão sobre os turbilhões de sentimentos, insatisfações, emoções, etc., que se acumulam nas mentes dos mais jovens. Depois, os adultos que se tenham expressado pela escrita toda a sua vida mantêm esta atividade sempre. Na minha opinião, a leitura e a escrita são quase, quase funções vitais.

P.- Como especialista em experiências de leitura com crianças, que ingredientes deve reunir um contador de histórias para captar a atenção dos mais pequenos do princípio ao fim?

Ora aí está uma pergunta difícil. Não há uma resposta, pelo que darei uma opinião. Quando uma atividade deste tipo funciona, cria-se uma ligação mágica entre o que conta e os que ouvem, entre o relato e o cenário. Há uma infinidade de ideias significativas relacionadas com essa ligação: a paixão da pessoa que conta, a capacidade evocativa de emoções e sentimentos do próprio texto e a relação especial que se estabelece entre o narrador, o texto e o ouvinte.

P.- Não há dúvida de que a época em que vivemos é propícia para “mudar os contos”, as princesas não querem depender de nenhum príncipe e os heróis dos contos são mais sensíveis do que valentes. Achas que é importante que as crianças aprendam a ver como comuns, desde estas primeiras leituras, termos como a diversidade, a igualdade de género ou o respeitos pelos outros e por si mesmo?

Evidentemente. São valores indiscutíveis. A leitura é um suporte magnífico para isto, porque oferece uma infinidade de modelos e de mundos, uma infinidade de realidades e perspetivas. Nos textos que lemos, descobrimos pontos de vista distintos dos nossos e maneiras de pensar diferentes, e abrimos cada vez mais a nossa perceção à mudança e à riqueza que representa a diversidade que nos rodeia.

Acrescento algo em que sempre acreditei: o objetivo vital das pessoas é serem felizes. A felicidade de cada um segue um caminho e a felicidade coletiva alimenta-se da felicidade individual. O respeito pelo caminho que cada um escolhe, pelas diferenças, pelos gostos pessoais e pela diversidade é a semente da felicidade.

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P.- A Santillana, com a chancela Loqueleo, pretende ser a referência da literatura infantil e juvenil em Espanha e na América Latina. Hoje em dia, há muitos métodos de promoção graças ao mundo digital e às redes sociais, incluindo fenómenos como os booktubers ou os bookstagrammers, jovens apaixonados pelos livros que têm gosto em falar sobre ou mostrar as suas leituras preferidas. Qual é a tua opinião sobre estas iniciativas? Achas que é preciso explorar outros formatos digitais para aumentar o número de jovens leitores? Achas que formatos como o audiolivro podem ser a chave, tal como defendem alguns especialistas?

A resposta a esta pergunta é semelhante à que dei no início da entrevista e resume-se da seguinte forma: qualquer iniciativa que procure aproximar livros e leitores é uma grande notícia.

Se explorarmos a curta mas intensa e interessante trajetória de Loqueleo, apercebemo-nos de como os seus responsáveis foram equilibrando e perfilando um catálogo de grande qualidade e diversidade que vai atrair os leitores para os livros. Se pensarmos no mundo digital e da leitura, veremos que é uma montra magnífica para os livros, as histórias e os criadores, que podem assim aproximar-se mais dos seus leitores. Estamos ainda numa época de exploração de novos suportes, pelo que é difícil vaticinar quais serão os formatos chave. Não obstante, a chave é precisamente que haja diversos formatos para os livros e para a leitura, e que esta continue a ser protagonista da cultura e da formação das pessoas.

P:- No seguimento da pergunta anterior, parece que a vasta maioria dos jovens leitores mais ávidos prefere o livro em papel ao e-book, apesar de serem nativos digitais e usarem dispositivos tecnológicos continuamente. O que tem um livro que os outros objetos não têm para continuar a ser tão atrativo na época do intangível? E para os que não apreciam ler, como se convence uma criança de que um livro é tão emocionante como uma partida de Fortnite?

Esta pergunta é muito bonita. O livro, como dizes acertadamente, é tangível e, fora as suas qualidades formais, contém em si um conteúdo especial, do qual apenas os leitores se pode aproximar. Num livro em papel, podemos ter uma dedicatória do autor, um papel que tenhamos arranjado na feira em que o comprámos ou um marcador de livros especial. No seu conteúdo e na sua capacidade de objeto que alberga pequenos tesouros reside também uma parte do valor que os leitores lhe atribuem.

Quando uma criança viveu desde sempre em contacto com a paixão pelos livros, dificilmente não os aprecia. Além disso, o livro não tem de competir com os jogos ou outras alternativas. Tem de estar presente, à disposição dos leitores, pronto para ser explorado a qualquer momento. Só isso.

P.- Por último, no filme de Isabel Coixet, “A Livraria”, a protagonista recomenda a leitura de “A High Wind in Jamaica” a uma menina que não gosta de livros. Que leitura ou autor te marcou em pequena e te tornou uma escritora de literatura infantojuvenil e qual é o livro que, a teu ver, todos os meninos e meninas deviam ler na sua vida?

Sempre gostei das aventuras ao estilo mais tradicional. Em pequena, lia tudo aquilo a que deitava a mão, desde os Cinco, os Happy Hollisters, os Sete ou Puck, até revistas aos quadradinhos e livros menos adequados à minha idade (segundo dizia a minha mãe). Creio que um dos primeiros livros que me pareceu maravilhoso quando ainda era pequena foi O Conde de Monte Cristo. Recordo-o com muito carinho e reli-o em várias ocasiões. Agora, continuo a ler literatura infantojuvenil e gosto imenso. Posto isto, não seria capaz de escolher “o livro” que toda a gente deveria ler. Creio que aconselharia os leitores a lerem muito, muito e, depois de terem lido tudo o que lhes vier às mãos, que sejam eles próprios a escolher o livro da sua vida.

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  • FESTILIJé o festival que pretende transformar a cultura em algo dinâmico, participativo e acessível; para tal, organizou-se uma grande quantidade de atividades diferentes, pensadas para agradar aos mais novos e aos mais velhos, porque a literatura juvenil não tem limites nem idade.

Se gosta de boas histórias e quer passar uns dias divertidos em que possa conhecer as principais figuras do setor infantil e juvenil, pode dirigir-se, do dia 17 ao dia 20 de janeiro de 2019, à biblioteca Lope de Vega, em Tres Cantos, Madrid. Pode consultar aqui o programa do evento.


Miguel Ángel Corcobado
Comunicación y marketing de PRISA

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