“Os gurus se enganaram ao acreditar que não havia espaço para apresentar os conteúdos de outra maneira”

Carles A. Foguet
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Desde o seu nascimento, em maio de 2011, a Jot Down tem remado contra a maré. Carles A. Foguet, o seu diretor de Comunicação, explica-nos porquê e faz uma retrospetiva da trajetória desta revista cultural que saltou da Internet para o papel.

Que sinergias se estabelecem entre a edição digital da Jot Down e a sua versão impressa?

Todas. De facto, e já o dissemos muitas vezes, sem a existência de ambas as edições em simultâneo, o projeto da Jot Down não seria possível (entenda-se possível como sinónimo de viável). Elas são, na verdade, o mesmo produto em dois formatos distintos.

Como nasceu e evoluiu o projeto?

A sequência foi a seguinte: queríamos começar o projeto com a versão em papel da revista, mas não nos era possível fazer isso sem hipotecar o futuro dos nossos filhos, pelo que optámos por lançar o nosso projeto na Internet (creio que isto explica, em parte, por que a página jotdown.es tem o aspeto que tem).

Com tempo e tenacidade, a versão digital cresceu o suficiente para nos permitir fazer as contas e atrever-nos a lançar a versão em papel que queríamos fazer desde o início. A diferença entre uma e outra é que a segunda exige que alguém que não nós acabe gastando dinheiro. Quando começámos com a Jot Down, queríamos fazer a revista que nós mesmos gostaríamos de ler. A reação dos leitores fez com que déssemos conta de que podíamos ser um pouco loucos, mas que não estávamos sozinhos e que havia muito mais pessoas como nós. Ou, pelo menos, as suficientes para manter o nosso projeto de pé.

Qual é o balanço atual entre as duas versões?

Neste momento, a revista digital dá-nos uma certa visibilidade perante uma minoria significativa de leitores, enquanto a versão em papel nos dá o prestígio que as edições impressas continuam tendo… e receitas. A desproporção de leitores entre uma e outra é abissal. Ao passo que a versão online contou com 450.000 leitores únicos no último mês, a versão em papel alcança os 10.000 por trimestre, se fizermos duas edições do mesmo número. Mas o compromisso que se exige num caso e no outro é diferente, pelo que a diferença é compreensível.

E, atualmente, não podemos tomar partido por nenhuma das nossas duas edições, pois ambas são absolutamente imprescindíveis para que a máquina continue funcionando. Com o tempo, conseguimos manter todas as bolas no ar num exercício mais próprio de um circo do que do jornalismo. Creio que os que passaram pelo ESADE (Escola Superior de Administração e Direção de Empresas) chamam a isto o “círculo virtuoso”, mas pode se transformar com a mesma velocidade num “círculo vicioso” se uma das bolas cair no chão.

jot_down

Que características devem ter os conteúdos mais adequados para cada uma das edições?

Como aludi anteriormente, nenhuma em particular. De facto, há conteúdos que, quando os estamos elaborando, não sabemos de antemão se vão parar a uma edição ou à outra. Pensando bem, a maioria dos conteúdos. E os autores estão habituados a publicar em ambas as edições indistintamente. As entrevistas são a melhor prova disso: publicámos grandes entrevistas em ambos os meios, não há uma hierarquia entre eles. Mas se tentar encontrar uma característica específica, como as edições em papel têm um fio condutor (a viagem, o passado, a libertinagem…), os conteúdos que surgem nesse formato têm alguns limites temáticos específicos que não existem na versão digital. Mas, por vezes, a abordagem dos autores ao tema é tão subtil e ambígua que acaba não sendo uma condicionante muito restritiva.

O que não fazemos é publicar o mesmo conteúdo em ambas as plataformas: tudo o que aparece na revista em papel é inédito, mas o mesmo se aplica ao que aparece na edição digital. Creio que tudo isto pode suceder desta forma porque, na verdade, a jotdown.es é, como dizia há pouco, uma versão online de uma revista em papel. O tipo de conteúdos, o tratamento, as questões formais (como a extensão, que dá azo a tantas graças, mas também a utilização das fotografias, de qualidade e em preto e branco) não eram típicos da Internet pelo simples motivo de que nunca foram pensados especificamente para esse meio. Sabíamos que não estávamos seguindo a norma do que se fazia na Internet: curto, rápido, visual, para ser lido na diagonal e em simultâneo com meia dúzia de outros conteúdos, mas essa nunca foi o nosso método de trabalho.

O tempo veio a demonstrar que, apesar de os gurus poderem ter razão quanto a como deviam ser os conteúdos na Internet, se enganaram ao acreditar que não havia espaço para os apresentar de outra maneira. E esta postura inicial, aparentemente errónea, é o que permite que a transição dos conteúdos de uma plataforma para a outra seja tão fácil e não nos dê demasiadas dores de cabeça extra.

O futuro das revistas passa por manter um equilíbrio entre as estratégias on/off? Ou será que uma delas acabará se impondo?

A nossa ideia de futuro abarca, com uma margem de erro razoável, as próximas doze horas da nossa vida. Somos péssimos a fazer previsões para nós mesmos, pelo que não nos vamos atrever a fazê-las para os outros. Contudo, é evidente que estamos num momento de mudanças, de mudanças rápidas e profundas. Mas parece que ainda estamos com um pé em cada lado e que o tradicional ainda não morreu, ao passo que o novo ainda não nasceu. Enquanto for possível, manteremos o nosso compromisso de estar em ambos os formatos e de o fazer do mesmo modo que fazemos agora. Não por teimosia, mas porque para nós, por enquanto, funciona. E deixe-me insistir em dois pontos da frase anterior. Dizemos “para nós” porque não podemos garantir que a fórmula que nós aplicámos funcione se alguém a replicar. E dizemos “por enquanto” porque também não temos nenhuma garantia de que amanhã não deixe de ser útil para nós. Francamente, não temos de todo o dom da premonição: só quando algo sucede é que começamos vendo tudo claramente.

José Ángel Plaza
Equipe de Transformação da PRISA

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