Jornalismo digital, sim podemos (já)

Periodismo digital

Seria de esperar – num evento como o Congresso de Jornalismo Digital celebrado na semana passada em Huesca – darmos por nós rodeados de repórteres geeks conectados a tablets ou a celulares de terceira geração e escutar as conferências quase em HTML. Mas, este ano, apesar da primeira previsão se ter cumprido, a linguagem mais utilizada foi a da economia.

E se em edições anteriores – e com esta já lá vão 16 – o idioma deste congresso era o da crise e o do lamento, este ano se deu o lugar, finalmente, ao da sobrevivência e ao do sim, é possível.

É difícil, mas possível. A boa notícia de Huesca é que as grandes ideias que sempre ficamos conhecendo num evento como este chegam agora catalogadas como viáveis, rentáveis e até prósperas. Portanto, das duas, uma: ou algo está mudando ou os jornalistas já aprenderam alguma coisa no mundo digital. Apostemos na segunda hipótese.

Os projetos estão deixando de ser projetos, as famosas start-ups já descolaram e têm de mudar de nome porque agora são negócios jornalísticos rentáveis. Não se justifica lançar já foguetes, é verdade, mas pelo menos se acabou o tempo dos grandes balanços no mundo do jornalismo e chegou o da alternativa ao tradicional pela porta, sempre aberta, da Internet. E é possível viver disso.

Aos tradicionais exemplos de sucesso na rede como eldiario.es, chega agora a concorrência do El Español, a iniciativa de Pedro J. Ramírez que nasce com muito mais do que com uma chupeta de ouro: a suculenta indemnização do jornalista do El Mundo, onze milhões de euros, é a base deste projeto digital que verá a luz daqui a seis meses. Um valor importante só por si que, além disso, foi composto colocando em marcha uma campanha de crowdfunding não para captar mais capital – que não lhes faz falta – mas para fidelizar sócios e assinantes, convertendo-os em acionistas, uma parte ligada ao projeto jornalístico que vai nascer daqui a menos de meio ano exclusivamente no mercado online. Um tweet na meia-noite mais mediática do ano, o passado dia 1 de janeiro, serviu de anúncio para o que se avizinha. No dia 11 de janeiro, nasceu o blog e, pouco depois, à mesa virtual de um jornal diário que ainda não existe, tinham já chegado 6.000 currículos. Assim funciona a Internet.

No Congresso de Jornalismo Digital de Huesca, nos apercebemos de que faz sempre falta novas ideias, mas ainda mais renovar as que já aplicamos todos os dias no exercício da nossa profissão. E isso, hoje em dia, já não se criar nas redação, mas nos laboratórios.

No Confidencial.lab – o laboratório de inovação do jornal diário digital El Confidencial – eliminam parágrafos de abertura, modificam subtítulos e testam sem parar novas narrativas para contar as histórias de sempre. É a área de inovação de um jornal que, na Internet, se tornou o terceiro meio mais lido de Espanha, atrás de outros jornais impressos mais tradicionais que ocupam as primeiras posições da OJD. Acabam de renovar o design da sua primeira página, na qual, todos os dias, dão as boas-vindas aos seus leitores e tentam cativá-los para que leiam mais.

DN Lab

O DN LAB é o laboratório de um jornal diário com mais de cem anos, o Diario de Navarra. Eles tentam melhorar o jornal a partir do interior mas, como dizia o seu responsável, Alfredo Casares, “a partir de um lugar físico e mental diferente”. Aqui, a inovação jornalística se veste com móveis do IKEA, se forra com grandes quadros brancos nas paredes para não perder uma única ideia e se preenche com colaboradores a que chamam aliados e que vêm de áreas tão díspares como as telecomunicações, a docência, o design ou o jornalismo. Casares diz que são inspirados pela “multidisciplinaridade” e anunciam um novo produto jornalístico para o próximo mês de maio. Não dá muitas pistas, mas são suficientes: “Será móvel e será dirigido aos jovens”.

Nos laboratórios de inovação jornalística, se ferra o dente no jornalismo de dados que permite o fenômeno da transparência, nas narrativas audiovisuais também nos meios escritos, nos mapas, na geolocalização, e se pensa em novos projetos, start-ups que são pensadas por jornalistas e dirigidas – veja bem – por sociólogos.

Mas “o verdadeiro poder vem da vontade, porque nem todo o mundo quer fazer coisas novas”. Uma grande verdade proclamada pelo responsável navarro deste laboratório. Ela é completada por outro axioma do seu colega de mesa redonda, Alejandro Laso, diretor de Inovação e Estratégia do El Confidencial, que salienta que podemos inventar e renovar muitas coisas, mas “não se fazem omeletas sem ovos”. Não podemos perder de vista no meio de tanta inovação que, no jornalismo, o mais importante continua sendo a notícia.

O JORNALISMO DIGITAL É O JORNALISMO

O presidente da Associação de Jornalistas de Aragão, José Luis Trasobares, é de palavra rápida, afiada e precisa e, quando na abertura do congresso, começou com esta frase: “o jornalismo digital é o periodismo”, foi uma verdadeira declaração de princípios. Isto porque às vezes – demasiadas – apontamos o dedo para a lua, mas ficamos olhando para o dedo, ou então são tantas as árvores digitais que não nos permitem apreciar a floresta.

A conferência inaugural de Arsenio Escolar, editor do jornal impresso e gratuito 20 minutos, nos fez descer à terra e assentar os pés no chão, onde todos devemos estar para contar a realidade, e propôs-nos “confrontarmo-nos a nós mesmos” com perguntas incômodas que, para variar, não se destinam a desferir estocadas nos poderosos, mas que pelo contrário têm como objetivo ser uma chamada de atenção para nós.

periodismo_digital

Onde estavam os jornalistas quando, há dez anos, parecia que tudo corria tão bem?”. Ter-se-á cumprido a profecia de Noam Chomsky que alertava para o perigo de que o jornalismo acabasse por se tornar uma indústria de relações públicas? Agora, diz Escolar, “nos pusemos todos na primeira linha da manifestação, mas deveríamos exigir-nos o mesmo que exigimos aos políticos”.

Para isso, ele propõe um decálogo tão ambicioso como particular, dez mandamentos da ética e da honorabilidade levados ao extremo que acerta onde mais dói: o bolso dos meios de comunicação social.

O primeiro mandamento conseguiu conquistar os aplausos do auditório do Centro de Congressos de Huesca: Não às conferências de imprensa sem perguntas. Até quando vamos suportar estas más práticas que cerceiam o direito à informação por parte dos cidadãos? Não também às comparências institucionais que se despacham com comunicados de imprensa prefabricados nos gabinetes e que impedem o redator de realizar qualquer outro trabalho. “É preciso acabar com isto”, exigiu Escolar.

O mesmo se aplica às doações e aos presentes, “cuidado com as viagens institucionais pagas precisamente por aqueles que temos de vigiar”, empresas, partidos, governos ou todo o tipo de instituições públicas. Nem presentes nem, e isto é o mais complicado, publicidade institucional opaca, nem subsídios ou ajudas públicas duvidosas.

Escolar denunciava que “ninguém quis incluir na Lei da Transparência – nem sequer algumas associações de imprensa – as ajudas ou a publicidade institucional em meios de comunicação”. Também não foi possível um censo de subsídios “que evite critérios execráveis” como o de “dar de comer aos meus” e que torne públicos “tachos” e “compadrios políticos”. Como podemos exigir transparência – se lamentava Escolar – se não a aplicamos a nós mesmos?

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Eva Pérez Sorribes

Radio Zaragoza-Cadena SER

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