O Jornalismo na Era do Twitter

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É inquestionável que a Internet e as redes sociais têm tido impacto sobre a imprensa e a indústria noticiosa, fornecendo-lhes novas ferramentas e possibilidades, mas afetando também os fluxos de informação e a natureza do trabalho dos jornalistas.

Um estudo publicado recentemente pelo International Journal of Communications, “The Revolutions Were Tweeted: Information Flows During the 2011 Tunisian and Egyptian Revolutions” (artigo completo disponível em PDF), revela de que forma estão a desenrolar-se algumas destas mudanças.

Os media tradicionais adotaram o Twitter, tanto para tirar proveito das fontes no terreno como para publicar de forma rápidas as suas atualizações, amplificando e fortalecendo o seu alcance e influência, sobretudo no que toca a acontecimentos fulcrais, como as insurreições da “Primavera Árabe”.

A rede social está, efetivamente, a desemprenhar um “papel chave na amplificação e difusão oportuna de informação a nível mundial”. Porém, a dinâmica de produção, distribuição e reprodução de informação foi alterada.

Segundo esta investigação, centrada em como o Twitter foi utilizado durante as revoltas no Egito e na Tunísia, os meios de comunicação tradicionais continuam a desempenhar um papel fundamental na disseminação de notícias em acontecimentos deste género. Contudo, os bloguistas e ativistas proeminentes revelaram-se também veículos de informação cruciais.

O estudo, que envolveu investigadores da Web Ecology Project, Gilan Lotan, da rede de bloguistas Social Flow, e a socióloga e investigadora sénior da Microsoft, Danah Boyd, analisou em primeiro lugar a origem das informações difundidas. Determinando se provinham de ativistas, meios de comunicação, jornalistas, bloguistas ou celebridades, avaliou o alcance de cada um destes intervenientes, examinando a forma como a mensagem passou de uma fonte para outra.

Uma das conclusões que mais chamaram a atenção nesta análise de influência é o facto de, ainda que os grandes meios de comunicação tenham uma forte presença no Twitter e alguns contem com milhões de seguidores, as contas pessoais dos jornalistas foram muito mais seguidas e “retweetadas” por terceiros do que as contas oficiais dos meios para que trabalham.

Contas pessoais melhores do que as oficiais

A passagem da “era dos meios de comunicação de massas” para a “era da rede de meios de comunicação” implicou uma evolução na forma como se recebe as informações rumo a esquemas mais participativos e a uma relação com as fontes que se propõe ser mais “próxima” e “pessoal”.

Não é por acaso que as redes são denominadas de “redes sociais”: falamos de pessoas que querem comunicar e trocar informações com outras pessoas, o que implica que os seus utilizadores preferem as notícias transmitidas por pessoas reais em detrimento das que são publicadas nas contas dos meios de comunicação de massas, a cargo de funcionários anónimos.

Neste sentido, a análise de mais de 160 mil “tweets” emitidos entre 12 e 19 de janeiro de 2011 com as hashtags “#sidibouzid ” ou ” #Tunísia”, e mais de 200 mil publicados entre dia 24 e dia 29 de janeiro de 2011 com as hashtags “#Egito” ou “#jan25″, mostrou como os conteúdos do Twitter são recebidos, dependendo de quem os “tweeta”.

Bloguistas, jornalistas e ativistas foram as fontes de maior destaque durante as revoltas, representando, em conjunto, 43% das contas que difundiram informações sobre o Egito e 44% das que “tweetaram” sobre a Tunísia, face a apenas 7% correspondente às contas de meios de comunicação em ambos os países. (Ver gráfico).

O estudo aprofundou o grau de interação gerado por cada um dos intervenientes, analisando o número médio de respostas alcançado por cada “tweet”. A tendência repetiu-se; as contas dos meios de comunicação obtiveram, em média, 16 “tweets” de resposta, enquanto os jornalistas individuais alcançaram uma média de 22 respostas.

De facto, apesar de as organizações em geral “tweetarem” com mais frequência e terem mais seguidores, os meios de comunicação conseguiram apenas superar os investigadores, ativistas e bots no número de respostas. Por sua vez, as contas que receberam mais feedback foram as contas de celebridades, com uma média de 63, e as dos políticos, com 55.

Tendo observado o “sub-fluxo” de informação, o relatório mostrou também que os jornalistas e os ativistas funcionam principalmente como “fontes chave” de informação, enquanto os bloguistas e os ativistas tendem a “retweetar” conteúdos, pelo que funcionam como “routers”, “encaminhadores” de conteúdos.

O negócio das notícias pode agora mostrar-se mais ou menos caótico, visto ser composto por milhares de vozes, em vez de apenas umas tantas figuras proeminentes, que tinham as ferramentas para se fazerem ouvir.

Não obstante, o surgimento daquilo que alguns apelidam de “jornalismo em rede” também abriu outras áreas em expansão, como tudo o que está relacionado com as “curated news”: serviços de verificação, seleção e redistribuição de notícias provenientes de milhares de fontes – incluindo o usuário –, que são republicadas e distribuídas através de ferramentas como o Storify para apresentar um panorama coerente do que acontece no terreno.

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