Iniciativas em papel na era da mobilidade. Revistas infantis que convivem com o YouTube

S

Em plena era da digitalização dos meios de comunicação social, surgem ainda projetos que se atrevem a apostar em força no papel ou, pelo menos, num ecossistema híbrido, entre o digital e o analógico, que permita continuar a desfrutar da leitura de uma revista física, ao mesmo tempo que se enriquece a experiência com conteúdos digitais. Se a tudo isto acrescentarmos o facto de os leitores que constituem o público-alvo serem sobretudo crianças, poderíamos achar que é uma espécie de loucura, com tantos ‘brinquedos digitais’ a chamar a sua atenção por aí, mas nada podia estar mais longe da realidade, já que existem vários projetos de revistas infantis que se estão a consolidar, que procuram fazer algo muito diferente das tendências habituais e que nasceram para um tipo de leitor com uma grande dose de curiosidade, imaginação e, acima de tudo, vontade de se divertir a descobrir.

Convidámos para uma conversa sobre este assunto os responsáveis de duas das propostas mais interessantes e originais do panorama atual: Enrique Royuela, diretor da Principia Kids, e Gustavo Puerta Leisse, editor de ¡La Leche!

Principia Kids

PrincipiaKids_cabecera_01

Descrição: Revista de ciência ilustrada para crianças dos 0 aos 99 anos.
Periodicidade: Semestral
Faixa etária: 0-99 anos (>5 anos, para quem quiser ser um pouco mais específico)
Número de páginas: 74, sendo que mais de 95% são ilustradas.
Preço: 12 € (portes de envio e impostos incluídos). Há também ofertas de assinaturas anuais
.

Trata-se da versão infantojuvenil da revista Principia, um projeto para divulgar a ciência de uma forma diferente que surgiu em 2015. À semelhança da sua versão para adultos, o design e as ilustrações são uma parte fundamental da publicação. Tanto os seus fundadores como a maioria dos seus colaboradores contam com formação científica em várias áreas e pretendem fomentar a difusão cultural e a leitura. Existe também a versão digital, Principia.io, galardoada com o Prémio Prismas para a melhor página de Internet de divulgação científica.

PrincipiaKids_ERoyuela

PRINCIPIA KIDS - ENTREVISTA A ENRIQUE ROYUELA, DIRECTOR. Haz clic aquí ⇒

Principai_kids_02

P.- Numa época em que as crianças estão altamente digitalizadas e dominadas pelo audiovisual, o que vos levou a criar este projeto?

São vários os motivos que nos levaram a criar a Principia Kids. Em primeiro lugar, porque o digital e o analógico são altamente compatíveis e é por isso que também publicamos artigos da Principia Kidsna nossa página de Internet. Mas, por outro lado, nós que crescemos num ambiente dominado pelos livros em papel temos a sensação de que há uma parte emocional da leitura que se está a perder. O processo de leitura com um livro nas mãos, com o seu cheiro particular a tinta e a liturgia de passar as páginas e sentir os textos usando vários sentidos não é igual à leitura digital e nós quisemos que os nossos pequenos “fossem submetidos” a essa experiência que é a leitura de conteúdos em papel, que observámos que estava a diminuir.

Por outro lado, também é um facto que, no processo de aprendizagem, as crianças tendem a imitar os comportamentos que veem em casa, portanto, tal como concebemos originalmente a Principiapara “os mais velhos” (Principia Magazine), imaginámos os pequenos a quererem imitar os seus progenitores lendo a sua própria Principiae achámos que isso os incitaria a explorar as suas páginas, dando assim o nosso modesto contributo para o fomento da leitura.

Mas, obviamente, a Principia Kidsnão é uma revista qualquer. É feita com a máxima qualidade, tanto a nível dos conteúdos como do design e da produção. Não olhámos a despesas com os melhores materiais, para que a experiência de leitura seja a de um livro, algo intemporal e colecionável, como os livros (a nossa revista tem lombada, atenção! ;)) e não como as revistas clássicas a que estamos habituados e que acabam por ir parar à reciclagem. APrincipia Kidsé uma peça de coleção e os nossos leitores reconhecem-nos como tal.

De facto, ao fim de dois anos de publicação da Principia Kids, parece que lançar uma revista em papel para crianças não é assim tão má ideia, pois pudemos comprovar como, depois de nós, outros se sentiram motivados a seguir o nosso exemplo.

P.- Como são os leitores da Principia Kids e quais são os temas que conseguem interessá-los e desviar a sua atenção do YouTube?

Todos os nossos leitores têm uma característica em comum: são intrépidos. Exigem muito de nós porque são crianças que querem aprender mais. Não lhes basta ler um texto e dizer: “Sim, é muito giro.” São leitores que nos escrevem e enviam desenhos de robôs, de planetas, de mulheres cientistas e até da… gravidade! São tão ousados que se atrevem a desenhar conceitos tão abstratos para eles como a gravidade. São portanto crianças com uma elevada dose de criatividade.

Por outro lado, não cremos que seja necessário desviar as suas atenções do YouTube, basta distribuir melhor o tempo que se dedica a cada coisa. Temos a tendência de achar que as crianças são tontas e que temos de obrigá-las a ler mais para que fiquem mais espertas. Isso é um problema dos pais. O YouTube não tem nada que uma boa leitura não tenha, portanto, se este canal da Internet os cativa tanto, temos de nos perguntar o que estamos a fazer mal (pais e editores de textos infantis). Mas também é verdade que se a Principiativesse os meios financeiros do YouTube, outro galo cantaria (risos).

P.- Como deve ser o tom ou a linguagem dos conteúdos destinados às crianças? Uma revista infantil deve educar, revelar ou simplesmente entreter?

Não vou dar uma resposta com uma abordagem pedagógica ao assunto, mas é evidente que, para explicar determinados conceitos, temos de transformar a linguagem (algo que também acontece com os adultos!). Isto não se passa apenas com a ciência, porque não creio que falar de economia, política ou filosofia seja mais fácil do que falar de biologia, química ou física. Prescindir de determinada terminologia demasiado técnica, usar exemplos ou escrever em formato de ficção ajudou-nos imenso a transmitir o que pretendemos. Mas o que jamais devemos fazer é tratar as crianças como se fossem imbecis e explicar-lhes as coisas como se viessem de outro planeta e não percebessem a nossa língua. Um vírus é vírus e uma proteína é uma proteína, e temos de chamá-los pelos nomes. Depois, virá o trabalho de fazê-los compreender o conceito. Uns serão mais complicados do que outros devido ao seu nível de abstração e à idade da criança, mas omitir certos nomes porque achamos que eles não os vão compreender não ajuda em nada.

Como é óbvio, a capacidade de uma publicação de entreter ou de ensinar não depende apenas do seu conteúdo, mas sobretudo do nível de exigência dos leitores. No nosso caso, são exigentes, e muito. Os nossos leitores não se contentam com ler, querem saber mais! E nós vemo-nos na obrigação de lhes proporcionar isso. Além disso, no nosso caso (e tendo em conta o baixo nível de conhecimentos científicos dos adultos no nosso país, de acordo com os inquéritos), é quase uma obrigação não nos dedicarmos única e exclusivamente a entreter. Outra história é que depois retirem algum conhecimento do que lerem, isso já depende de cada leitor. É preciso deixá-los seguir o seu ritmo, sem imposições, mas dando-lhes a oportunidade de aprender além de se divertirem, se assim o desejarem.

principia_kids_055

P.- Quais são as sinergias entre a faceta offline e a faceta online daPrincipia Kids?

No nosso caso, são muitas e importantes. Temos um exemplo muito claro: criámos um clube online para os assinantes da Principia Kids: “El Club de los Intrépidos“. Até têm um cartão impresso que lhes enviamos com a revista e uma página de Internet secreta de uso exclusivo dos assinantes, onde podem… Bom, lamento, mas não posso dizer. Para saber, têm de fazer parte do clube.

P.- Não parece fácil vender uma revista sem oferecer um brinquedo qualquer, como fazem as revistas de canais televisivos como Clan, Boing, etc. Ou então, competir com revistas pertencentes a grandes grupos editoriais, como a Muy Interesante Junior, Leoleo, Okapi ou Reportero Doc. Neste sentido, qual é a vossa aposta ou diferença? O que pode oferecer ou o que gostariam que a vossa revista oferecesse a um jovem leitor no futuro?

O que distingue a Principia Kidsem relação às revistas mencionadas é o facto de não precisarmos de oferecer brinquedos para cativar o leitor: o brinquedo são as histórias. Se calhar, são as revistas que não criam conteúdos de qualidade suficiente para cativar o leitor que precisam dessas coisas. Além disso, quando oferecermos alguma coisa, será algo muito mais original, como o nosso jogo “Ciencia a pares“.

A Principia Kidscaracteriza-se pelo seu rigor e pelo seu elevado valor cultural (sim, a ciência também é cultura), e é isso que a diferencia do resto. Por isso, creio que oferecemos rigor e qualidade em formato de livro ilustrado, onde, através da ciência, contamos histórias extraordinárias, publicamos sempre poemas, temos atividades, experiências que se podem fazer em casa (Queres fazer a tua própria estalactite?), publicamos a banda desenhada científica e lúdica The Oobik, autocolantes para conhecer o Sistema Solar, receitas e hábitos saudáveis e secções como: “Nem todos os super-heróis usam capa” ou “Break it down into parts“, onde escrevemos sobre a vida desses super-heróis que são os cientistas e ensinamos as partes do corpo humano em inglês, respetivamente.

Como podem ver, argumentos para “vender” a revista não nos faltam.

P.- Quem se deve convencer mais quando se quer vender uma revista infantil? Os pais, as crianças ou ambos? Em que aspetos têm de se concentrar com uns e com os outros?

Da maneira como a pergunta foi colocada, tenho dizer que são os pais, claro. Sobretudo nós, que não temos a capacidade de aparecer na televisão ou em todos os quiosques e livrarias para que as crianças vejam a nossa revista e a peçam. O nosso alcance e canais são mais limitados (página de Internet e redes sociais) e estão mais dirigidos aos adultos (sejam as mães, os primos, os tios ou as avós que comprem a revista).

Mas também é um facto que nós não queremos convencer, mas persuadir. Apostámos desde o início numa revista ilustrada, que foi uma verdadeira novidade e uma escolha acertada, porque não há nada como a ilustração para ajudar a reforçar os conceitos científicos. A ciência e a ilustração constituem uma parceria maravilhosa, que tem a capacidade de convencer (perdão, de persuadir) tanto os pais como as crianças.

O curioso é que, com a Principia Kids, acabamos por persuadir não apenas as crianças, mas também os adultos. Temos várias assinaturas duplas porque os pais querem a sua própriaPrincipia Kids, sem que as suas filhas ou filhos lhes fiquem com os autocolantes. É por isso que dizemos que a Principia Kidsé uma revista para crianças dos 0 aos 99 anos, porque é para todos os públicos e serve de elo de ligação entre gerações.

P.- Quais serão os vossos próximos passos? Há alguma aposta de que nos possa falar?

Se vos dissesse, teria de vos matar… Está bem, nós contamos: estamos a trabalhar no desenvolvimento de um jogo de vídeo relacionado com a Principia Kids, um projeto que seja simultaneamente lúdico e divertido, que ajude a promover as vocações científicas e a interação entre o digital e a revista em papel (estamos empenhados nisso, nada a fazer).

De facto, se alguém ler isto e quiser oferecer o seu apoio financeiro à nossa ideia, não hesite em contactar-nos, sim?

Princiapia_faldon


¡La Leche!

LaLeche_cabecera_01

Descrição: Revista de jornalismo cultural para crianças.
Periodicidade: Trimestral
Faixa etária: Sobretudo dos 9 aos 12 anos.
Número de páginas: 60, com ilustrações.
Preço: 9 € (despesas de envio e impostos incluídos). Também há ofertas de assinaturas anuais.
 

Revista ilustrada de jornalismo cultural destinada principalmente ao público leitor infantil. É impressa em papel ecológico a duas tintas que mudam de número para número, acompanhando as variações cromáticas das estações. As secções que compõem a revista abarcam temas como as catástrofes, o desporto, a zoologia, a sexualidade, a antropologia, a física, a psicanálise, a política, a linguística, a tecnologia, o passado, os ofícios, a pedagogia, os trabalhos manuais. No entanto, em cada artigo, prima o interesse em narrar histórias atrativas e estimulantes sobre a ideia de servir de introdução a determinadas áreas do saber. Entre os colaboradores da revista, encontram-se reconhecidas figuras públicas e também pessoas que se encontram em início de carreira, escritores e docentes habituados a dirigir-se ao público infantil e outros profissionais que o fazem pela primeira vez. Contam também com uma página de Internet, Revistalaleche.com, que reforça e enriquece os conteúdos impressos.

LaLeche_gustavoPuertaLeisse

LA LECHE - ENTREVISTA A GUSTAVO PUERTA LEISSE, EDITOR. Haz clic aquí ⇒

laLeche_056
P.- Numa época em que as crianças estão altamente digitalizadas e dominadas pelo audiovisual, o que vos levou a criar este projeto?

O acesso à informação que os meios de comunicação eletrónicos oferecem aos mais pequenos não é suficiente, eles precisam também de deslindar a complexidade de acontecimentos como a crise dos refugiados, a ascensão de Donald Trump ao poder ou o Brexit. Expor estes temas de forma clara e atrativa é o nosso objetivo. Ao passo que o formato digital tem tendência para a simplificação e a imediatez e a ser complacente com o público, para nós, a prioridade é a qualidade do que contamos e a forma como o fazemos: não abordamos “temas”, mas publicamos boas histórias, não escrevemos para consciencializar as crianças, mas para despertar o seu interesse, não pretendemos ser trending topicnem ter muitos “gostos”, mas despertar perguntas, reflexões, debates e, acima de tudo, a vontade de saber mais.

P.- Como são os leitores de ¡La Leche! e quais são os temas que conseguem interessá-los e desviar a sua atenção do YouTube?

Como uma serpente engole um ovo e expele a casca, a evolução da máscara de gás, um manual de esgrima, a história de uma rapariga que descobriu o que significa, em termos sociais, ter uma irmã gémea com Síndrome de Down, as dez maiores tragédia da exploração espacial, como preparar o primeiro cocktail, porque voa um autogiro, o sistema de comunicação marítima com bandeiras… Se te interessas por algum destes temas, podes ser um leitor de ¡La Leche!

P.- Como deve ser o tom ou a linguagem dos conteúdos destinados às crianças? Uma revista infantil deve educar, revelar ou simplesmente entreter?

Fazemos jornalismo e contamos histórias. O nosso objetivo não é transmitir conhecimentos nem divertir, é informar. Em ¡La Leche!, é possível aprender muita coisa e queremos que o leitor retire prazer da sua leitura. Como? Apostando na clareza e elegância da linguagem: narramos histórias fáceis de ler, apesar de se referirem a realidades difíceis. Para tal, mergulhamos na investigação, trabalhamos cada artigo ao pormenor e rescrevemo-lo as vezes que forem necessárias, fazemos ilustrações que consigam enriquecer o nosso olhar, confrontamos perspetivas lúdicas e valemo-nos do humor. Antes de mais, procuramos colaboradores capazes de contagiar o leitor com o seu entusiasmo por aquilo que os apaixona.

LaLeche1-2

P.- Quais são as sinergias entre a faceta offline e a faceta online de ¡La Leche!?

Há muito material de valor que, basicamente por limitações de espaço, não chegamos a publicar, há também temas secundários que gostaríamos de abordar nos nossos artigos (mas que, infelizmente, temos de descartar), há recursos audiovisuais e hiperligações que os enriquecem… Para tudo isso, o blogue, a página de Internet, o canal de YouTube ou a conta do Instagram oferecem um contributo enorme. Além disso, quando a revista chega às mãos dos nossos leitores, as plataformas digitais são um importante canal de difusão e intercâmbio com eles. Oferecem-nos também a possibilidade de continuar a aprofundar os temas que abordámos nas páginas de ¡La Leche!e recorrer a meios como vídeos, animações, áudio…

P.- Não parece fácil vender uma revista sem oferecer um brinquedo qualquer, como fazem as revistas de canais televisivos como Clan, Boing, etc. Ou então, competir com revistas pertencentes a grandes grupos editoriais, como a Muy Interesante Junior, Leoleo, Okapi ou Reportero Doc. Neste sentido, qual é a vossa aposta ou diferença? O que pode oferecer ou o que gostariam que a vossa revista oferecesse a um jovem leitor no futuro?

Apostamos em fazer jornalismo, em falar sobre coisas que não são faladas na escola e que até mesmo muitos adultos nem sequer consideram indicadas para crianças. Interessa-nos oferecer um amplo leque de perspetivas, de opiniões, de maneiras de ver e de compreender o mundo. Tocamos em temas da atualidade, muitos deles controversos. Não oferecemos brinquedos, mas fazemos um convite muito sério à brincadeira.

P.- Quem se deve convencer mais quando se quer vender uma revista infantil? Os pais, as crianças ou ambos? Em que aspetos têm de se concentrar com uns e com os outros?

O nosso interlocutor é a criança e é a ela que queremos chegar. Mas não de qualquer maneira. Não queremos que seja obrigada a ler e, pelo contrário, até achamos o máximo quando a lê às escondidas ou quando passa a revista a um amigo, ou quando a lê no recreio, no banho ou enquanto espera pelo autocarro. Os adultos podem ser tanto nossos aliados como outro obstáculo que temos de ultrapassar.

P.- Quais serão os vossos próximos passos? Há alguma aposta de que nos possa falar?

Como se faz uma prancha de surf, o que leva um reconhecido ilustrador ateu a dedicar-se a ilustrar a Bíblia, como se explica que a erupção de um vulcão tenha deixado meio mundo na pobreza e contribuído para a escrita de Frankenstein por Mary Shelley, qual é o motivo pelo qual a língua dos índios Piranha não tem palavras para cores, a Venezuela vive numa ditadura?… Deixo aqui alguns dos temas do nosso próximo número.

LaLeche_faldon


Miguel Ángel Corcobado
Comunicación y marketing de PRISA

Deixe uma resposta

MENU
Leer entrada anterior
AutoDraw_850
Já pode desenhar bem, por muito mal que o faça

Se carece de dotes artísticos, até os mais básicos, é possível que, ao desenhar um cão, o resultado final se...

Cerrar