“Todos os ofícios jornalísticos ou artísticos estão vivendo momentos de transformação e de uma nova adaptação”

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A fotografia utilizando o celular está obtendo mais interesse a cada dia que passa: redes sociais, blogs e aplicações se alimentam continuamente do material instantâneo obtido com as câmeras dos nossos smartphones e personagens de variada índole se juntam a esta prática, buscando incorporar esta fixação ao desenvolvimento do seu trabalho.

Uma das pessoas que soube tirar partido da câmera do seu celular é Elvira Lindo, que soube combinar a literatura e a sua paixão pela observação da vida quotidiana através desta pequena objetiva. Hoje, ela nos fala sobre tudo isso nesta entrevista:

P.-Escritora, colunista, participante em tertúlias, atriz com participações especiais e, agora, fotógrafa com celular. Você sempre foi uma pessoa bastante multifacetada, mas porquê esta nova inquietude?

Creio que o fato de estar afastada do meu país durante tanto tempo despertou em mim inquietudes novas. Sou uma pessoa sociável por natureza e passar tanto tempo sozinha num país onde, nos primeiros anos, não conhecia ninguém me levou a me movimentar nas redes e a estudar as suas possibilidades. Há também o choque visual que Nova Iorque provoca, que é uma cidade tremendamente fotogênica, onde cada esquina e cada personagem com que nos cruzamos parece estar nos contando uma história. Comecei a tirar fotos do que me rodeava para dar notícias minhas aos meus familiares e depressa ampliei o meu olhar até oferecer uma visão do meu dia a dia. Como se fosse um gênero de diário ilustrado.

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Imágenes tomadas en el metro de Nueva York por Elvira Lindo.

P.-Como escritora e colunista, que valores positivos e aplicáveis à sua profissão você crê que têm as novas tendências da sociedade da informação (redes sociais,mobile first, conteúdos virais, etc.)? E quais acha que podem ser negativos?

São muitas as vantagens que a Internet nos ofereceu. Em primeiro lugar, a possibilidade de andar com o escritório na sacola. Já não nos lembramos mas, há alguns anos, era tudo mais custoso e complicado. Em segundo lugar, aceder à informação a partir de qualquer lugar e estabelecer relacionamentos com desconhecidos com os quais descobrimos imediatamente muitos pontos em comum. Há muita informação disponível, mas temos de aprender a fazer uma seleção diária e a desconfiar, porque desconfiar é essencial para qualquer pessoa que escreva. Não podemos acreditar em tudo o que lemos e nem todas as opiniões são válidas.

No meu caso, a Internet serviu para ir mostrando o meu trabalho diariamente e isso me encoraja, me motiva. Mas também é verdade que temos de nos proteger dos “lobos”, da agressividade anônima, do Oeste selvagem. Creio que, no futuro, todos entenderemos melhor como utilizar as possibilidades da rede. Digamos que, agora, estamos num período de experiência.

P.-Além do Instagram, você experimentou alguma outra app ou rede social para partilhar fotos que nos queira recomendar? Já comprou a vara para tirar selfies?

Utilizo o Facebook porque lá posso obter comentários às minhas fotos de forma mais ampla e até posso mesmo ilustrá-las com música. Não comprei a vara para tirar selfies, nem a comprarei, porque me parece o cúmulo do culto do ego. Eu sou mais tradicional; se quero uma foto num sítio qualquer, peço a um transeunte que ma tire.

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Personajes singulares fotografiados en Nueva York por Elvira Lindo.

P.-O livro “Don de gentes” (Alfaguara, 2011), uma compilação dos seus artigos publicados no EL PAÍS, é descrito como a observação da realidade através dos seus olhos. A fotografia instantânea com o celular serve de instrumento para continuar observando essa realidade?

A fotografia mudou a minha vida. Não no aspeto profissional, porque não sou nem nunca serei fotógrafa. Mas as artes visuais sempre me interessaram e tirar fotos foi educando o meu olhar. Não só vou enquadrando pela rua como também desfruto muito mais do trabalho dos outros e dou valor à dificuldade que implica tirar fotos. Agora, tenho os olhos mais abertos.

P.- O título de outra das suas publicações é “Lugares que no quiero compartir con nadie” ou “Lugares que não Quero Partilhar com Ninguém” (Seix Barral, 2011) e, nela, você acaba partilhando o seu dia a dia em Nova Iorque com todo o mundo. Agora, também partilha esses momentos com as suas fotos no Instagram e no Facebook em formato de diário. De onde surge esta necessidade de partilhar os seus momentos privados? Quando tira fotos com o seu celular, você distingue as que ficam só para você e para o seu círculo íntimo das que vai publicar na Internet? Ou isso surge depois?

Creio que complicamos demasiado a questão da intimidade quando tudo pode ser resolvido de uma forma sensata. Se tiro fotos a membros da minha família, é evidente que faço algo que possa partilhar. Não invado a intimidade deles, nem a minha. Fotografo com respeito, tal como faço com as pessoas da rua. Se os fotógrafos só mostrassem fotos de estúdio, não faríamos ideia de como era a vida nos anos 50 ou nos anos 60. Graças ao seu olhar sobre a vida quotidiana, sabemos muitas coisas sobre as pessoas dessa altura, as suas atitudes, a sua estética, os seus sonhos… É isso que eu tento captar, não me quero meter na vida de ninguém. Tenho um grande respeito pelo próximo. E também por mim mesma.

P.- A sua famosa personagem Manolito Gafotas continua crescendo. Como se foram adaptando as personagens à era digital? Você já ponderou incluir nos próximos livros da série esta sua faceta de fotógrafa do Instagram?

No último livro, “Mejor Manolo” (Seix Barral, 2012), já incluí o computador e o celular na vida quotidiana da família. Apesar de nos livros desta série o tempo funcionar de forma arbitrária, decidi atualizar a família em termos tecnológicos. Neste livro, o avô tem uma conta de Twitter que é gerida pelos netos e a Catalina, a mãe do Manolito, vai ficar viciada num jogo de celular no próximo livro.

No que diz respeito às fotos, felizmente, o Manolito conta com as incríveis ilustrações de Emilio Gónzález Urberuaga e eu sou uma aficionada do desenho. É uma arte que respeito muito.

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El escritor Antonio Muñoz Molina fotografiado por Elvira Lindo en su casa de Nueva York.

P.- Mas você publicou as suas fotos no livro “Memphis-Lisboa”, uma crônica visual via telefone celular da viagem que fez com Antonio Muñoz Molina enquanto ele fazia a pesquisa para o seu livro “Como la sombra que se va“. Como surgiu este projeto? Podemos dizer que se pode fazer outra forma de literatura a partir das imagens quotidianas publicadas nas redes sociais?

Surgiu da necessidade que o Antonio tinha de documentar a história sobre a qual estava trabalhando. Eu tirei muitas fotos para que ele tivesse as imagens vivas no seu escritório. Já tinha pensado em fazer um livro com as minhas fotos, mas este foi uma estreia peculiar. Me associei ao Ximo e à Lola Espinosa e criamos uma marca para publicar histórias ilustradas, com fotos e desenhos. “Memphis-Lisboa”foi a nossa estreia, mas prometemos coisas muito interessantes, preciosas a nível do seu conteúdo e como objeto de prazer. Creio que esse pequeno livro complementa o romance do Antonio. Foi como uma homenagem a ele, à sua vocação, ao seu amor pela literatura.

P.- Na fotografia móvel, o que é mais importante? A técnica ou a espontaneidade de uma imagem?

Para um fotógrafo profissional, as duas coisas são essenciais. A técnica tem de estar ao serviço do que se pretende contar. Quanto a mim, que sou uma amadora, me dou conta de que tenho mais perícia e mais olho agora. Tudo se educa. Mas é claro que dou primazia à expressividade, porque as minhas fotos são um divertimento.

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Autorretrato fotográfico de Elvira Lindo.

P.- Você participou recentemente no The App Date Photojuntamente com outros fotógrafos que exploram esta vertente da fotografia através do celular. Que novas ideias você encontrou neste fórum para aplicar ao seu trabalho?

Todos os dias, encontro inspiração nas fotos que vejo. Em Nova Iorque, há uma hora de fotógrafos caçando cenas interessantes. Creio que os profissionais poderão ver esta nossa paixão como uma invasão, mas eu acho que é o contrário: a fotografia está mais viva do que nunca. Outra questão é que se trata de um ofício mal pago, mas todos os ofícios jornalísticos ou artísticos estão vivendo momentos de transformação e de uma nova adaptação.

P.- Que outros projetos dedicados à fotografia com celular você tem em mente?

Estou preparando um diário. Um diário. Um diário fotográfico. Logo veremos no próximo outono…

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Si queréis ver más sobre el trabajo de Elvira Lindo en Instagram, haz clic en este link.


Miguel Ángel Corcobado
Comunicación y Markting Corporativo de PRISA

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