Todos somos Charlie: do tweet à cobertura multiplataforma

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Quarta-feira, 7 de janeiro. 11h. Estava na redação da TVI a preparar uma peça para o Jornal da Uma sobre os novos desafios da presidente Dilma Rousseff quando consultei o twitter. Começava a surgir com insistência uma informação de que a redação do Charlie Hebdo, em Paris, tinha sido atacada e havia feridos. Parei o que estava a fazer, consultei os principais sites de notícias franceses e não havia mais informação. Os canais internacionais nada referiam, a agência Reuters não tinha lançado qualquer alerta. Poucos minutos depois já tinhamos mudado toda a nossa estratégia de redação para os próximos noticiários. As 54 horas que se seguiram foram alucinantes e colocaram-nos enormes desafios a nível jornalístico.

Às 11h30 já tinha vários dados sobre o que tinha acontecido. As más notícias surgiram umas atrás das outras. Entrei pela primeira vez em direto no posto de ligação na redação para o canal de notícias TVI24. Um gesto repetido dezenas de vezes no espaço de três dias. O método foi quase sempre o mesmo: procurar informação em vários jornais de referência em França, complementar com o que estava a ser dito pelos canais de notícias e, sobretudo, suportar toda a informação com o que era partilhado nas redes sociais, sobretudo no twitter, o campeão das “Breaking News”.

Com o correspondente da TVI em Bruxelas, Pedro Moreira, rapidamente deslocado para Paris, a operação noticiosa foi totalmente centrada neste tema. Na TV e na Internet, com o site tvi24.pt a relatar todos os acontecimentos em direto.

Às 13h do primeiro dia dos ataques, o principal noticiário português nesse horário, o Jornal da Uma da TVI, revelava todos os pormenores do ataque, com grande parte da informação recolhida a partir de redes sociais, como fotos partilhadas por testemunhas no twitter e os dois primeiros vídeos, um deles que surgiu no youtube e chocou o mundo, pois revelou a execução do polícia Ahmed Merabet. Logo aí o primeiro grande dilema: não mostrar o momento do tiro fatal (conclusão fácil de obter na redação).

A meio da tarde começou a surgir o movimento de solidariedade para com as vítimas do Charlie Hebdo, com o mote: Je Suis Charlie. Os jornalistas foram os primeiros a exigir respeito pela liberdade de expressão e eu próprio tomei essa posição num dos diretos, pelas 18h.

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Um gesto que alastrou à redação. Primeiro a foto desde o meu posto de direto:

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E depois o resultado final, que foi divulgado no Jornal das 8, da TVI, bem como por todas as plataformas na Internet da TVI e TVI24.

redaccionTVI

A hashtag #jesuischarlie generalizou-se e foi uma das bases para a recolha de informação ao longo dos próximos dois dias. Mas foi, acima de tudo, o ponto de ligação em todo o mundo, com mais de 6,5 milhões de twits.

O envolvimento mundial foi absolutamente incrível

Os maiores desafios jornalísticos começaram enquanto o mundo ficava chocado com as notícias. Começaram a surgir os rumores, teorias da conspiração, informação não confirmada e rapidamente desmentida. O esforço no interior da redação foi responder com prudência a todos os dados que iamos recolhendo. O contacto entre a equipa de resposta “breaking news desk”, online e editoria Internacional foi permanente para que a informação que surgisse nos canais de televisão fosse a mesma nos sites, redes sociais e aplicações para tablet e smartphones. A correia de transmissão estava bem oleada e a operação correu quase sem falhas.

No segundo dia dos acontecimentos, quando ficámos a saber quem eram os terroristas, mais informação foi surgindo no twitter, nomeadamente fotos e vídeos. A rota de fuga dos irmãos Kouachi foi captada por cidadãos comuns, provando que os jornalistas não podem confiar apenas no que é enviado pelas agências ou meios internacionais. O trabalho no terreno e nas redações apresenta constantes desafios e a agilidade na resposta ultrapassa os conceitos tradicionais.

O ataque do outro terrorista ao supermercado kocher, em Paris, também surgiu pelas redes sociais. Primeiro com algumas pessoas a fazerem perguntas, porque tinham ouvido tiros, depois algumas fotos do local começaram a surgir e finalmente apareceu a polícia. Estava montado novo cerco e durante várias horas o mundo (e sobretudo nós, nas redações) não largou os olhos dos ecrãs (das tv, dos telemóveis, dos computadores e dos tablets).

Estes são momentos marcantes para qualquer jornalista e todos quisemos estar a relatar os acontecimentos em direto, a partilhar as informações para os nossos espectadores e leitores. Indignámo-nos com os ataques, mas sobretudo, apesar do horror, do cansaço e da enorme montanha de informação que tivemos de resumir, ficamos com a certeza de que nos dias de hoje é possível cobrir estes acontecimentos de forma cada vez mais eficaz.

17 pessoas morreram nos ataques terroristas a Paris. Foram três dias de terror que alertaram o mundo, mas que também serviram para unir os povos contra o terrorismo. Como escrevia o Charlie Hebdo numa das suas capas mais marcantes: o amor é mais forte do que o ódio.

O resumo de três dias de acontecimentos brutais serviu ainda para uma cronologia dos acontecimentos, que foi realizada para ser divulgada em todas as plataformas da TVI – http://goo.gl/D9cI1o

Filipe Caetano

Jornalista da TVI

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