E agora, como ensinamos o respeito pela criação?

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Temos vindo a navegar pelos meandros da Internet há já vários anos, acedendo a uma multitude de conteúdos que, no início, alguém nos disse que eram todos os gratuitos e que pertenciam aos internautas, como se dizia naquela altura. Hoje, finalmente, já compreendemos que este mundo digital é como o analógico e os produtos, os textos, as imagens, têm um criador e, consequentemente, um proprietário. Compreendemos isso e, apesar de muitas vezes não o pormos em prática, temos a perfeita noção de onde saem as ideias e por acréscimo as criações que tanto nos deleitam, mas o que se passa com as gerações que nasceram e cresceram neste habitat digital e às pessoas a quem, ainda por cima, mostramos como é fácil obter tudo o que lhes agradar na Rede sem ter de dar explicações?

É esse o ónus da questão que, todos os dias, se coloca na indústria dos meios de comunicação social, da música ou do cinema que, como criadora de conteúdos, é a que mais perde e que mais perderá se não se refrear a falta de respeito que existe na Rede em relação aos criadores. Em concreto, a OCDE estima que essas perdas, a nível mundial, rondam os 200.000 milhões de euros anuais.

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El presidente del Senado, Pío García Escudero, durante la inauguración del seminario sobre propiedad intelectual, junto al presidente de OIPI, José Manuel Gómez Bravo y Juan José Morodo, subdirector de Cinco Días. Foto: El País.

A propósito, o Observatório Internacional de Propriedade Intelectual (OIPI), juntamente com o Cinco Días, organizou recentemente uma sessão com o título “Os valores na educação e o respeito pela criação” e onde compareceu um grande número de palestrantes representantes das indústrias mais afetadas pela distribuição ilegal de conteúdos na Internet. Associações de criadores de conteúdos de vários setores, artistas, políticos, jornalistas, professores e executivos de editoriais educativas, entre outros, foram os participantes das diversas mesas redondas que se formaram.

O balanço que se faz do encontro é que a indústria está sendo afetada e, portanto, prejudicada pelo tráfico ilegal de conteúdos, que todos procuram um apoio muito mais firme e enfático das instituições públicas e jurídicas e que é a partir dessa base legal sólida que se pode começar a fazer campanhas educativas que inculquem, desde a mais tenra infância, os valores relativos ao respeito que os criadores merecem. Em relação a isso, há que destacar a intervenção de Magdalena Vinent, diretora-geral do Centro Espanhol de Direitos Reprográficos CEDRO que, além de alertar para o alarmante problema sociológico que se vive especialmente em Espanha, com a pouca empatia que existe no momento de descarregar conteúdos ilegais, assinalou que talvez não seja assim tão difícil combatê-lo se pensarmos que outras campanhas de consciencialização como as da Direção Geral de Viação ou outras relacionadas com a proteção do meio ambiente e a reciclagem tiveram bons resultados e em menos tempo do que se esperava.

Como disse, e bem, Mariano Pérez, conselheiro e ex-presidente da Warner Music Espanha e Portugal, ensinar estes valores desde a infância é importante, mas existirá atualmente um plano do Ministério da Educação para o fazer? Surge novamente a necessidade de uma ação imediata que parece nunca chegar. Pérez, que assinalou que, desde 2005, a indústria da música deixou de arrecadar 20% de receitas em propriedade intelectual, entende que perdemos uma geração inteira que será impossível de fazer mudar de postura em relação à valorização dos direitos de autor.

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La enseñanza de ser respetuosos con los creadores de contenidos debe iniciarse también desde el entorno familiar.

Vozes como a de Abel Martín, diretor-geral da Artistas Intérpretes Sociedade de Gestão (Aisge), ou Antonio María Ávila, secretário da Federação de Grémios de Editores de Espanha, reclamaram ações conjuntas como um livro branco sobre a propriedade intelectual ou o necessário pacto com o estado sobre Educação e Cultura, onde se poderiam englobar estes temas e começar assim a integrar o reclamado respeito nas salas de aula.

Na mesa integrada pelos palestrantes relacionados com o mundo educativo, lançou-se uma ténue acusação sobre a falta de perceção dos professores na hora de entender corretamente o uso das fotocópias ou de fazer vista grossa ao copy-paste. Uma má prática que, de acordo com José Moyano, presidente da Associação Nacional de Editores de Livro e Material de Ensino (ANELE), deixa logo uma marca nos alunos.

Por sua vez, Alejandro Díaz Garreta, diretor de estratégia, inovação educativa, estudos e publicações da Fundação Telefónica, comentou que o ensino dos valores quanto ao respeito pelos criadores não é apenas responsabilidade do professor ou da escola, mas que deve começar no contexto familiar.

Um ponto de vista diferente e mais alinhado com a mentalidade digital foi o exposto por Manuela Lara, diretora de projetos e desenvolvimento da Santillana Negócios Digitais, que sugeriu repensar a utilização e o ensino da Internet na escola formando primeiro os professores para que estes formem posteriormente os alunos, para que saibam como encontrar conteúdos isentos de direitos e distingui-los dos que não são. A verdade é que nem todos os conteúdos estão vedados, já que muito do que é colocado na Rede está pensado e criado para o seu uso livre e gratuito. Com base nisso, Manuela destacou o projeto da Santillana “Movies at School”, onde os próprios criadores (realizadores de cinema, escritores, ilustradores…) expõem nas escolas a razão pela qual a continuidade do seu trabalho é importante para todos.

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Proyecto “Movies at School” donde Santillana muestra a los alumnos el esfuerzo que supone la creación de contenidos. En esta edición con la pelicula “200 cartas” de Bruno Irizarry.

Quanto aos meios de comunicação social, também estão a ser profundamente afetados pela pirataria e, sobretudo, pela perceção do utilizador de que é fácil e cómodo descarregar conteúdos gratuitamente, como salientou Alejandro Perales, presidente executivo da Associação de Utilizadores da Comunicação. Felizmente, é possível que as consciências mudem. Neste sentido, Rafael de Miguel, diretor de informação da Cadena SER, recordou o caso do Napster, um exemplo de quando a sociedade norte-americana descarregava música gratuita despreocupadamente e de como atualmente, e graças à perseverança dos artistas, a mentalidade em relação ao trabalho dos criadores é bem diferente.

Gerardo Mariñas, presidente da Associação de Agências de Meios, pediu a ajuda do setor do marketing e das grandes companhias tecnológicas da Internet para vetar os acessos publicitários que as empresas piratas utilizam para tirar proveito do trabalho de outros. Mais uma vez, as leis têm muito a contribuir neste respeito. Pelo menos, no dia 1 de julho, entra em vigor em Espanha a possibilidade de os autores poderem utilizar a via penal caso desejem denunciar as empresas ou os indivíduos que os prejudicam.

O cartoonista do jornal El País Antonio Fraguas “Forges”, também convidado para o evento, deu um irónico mas claro exemplo do que todo o mundo devia entender: Eu estou disposto a permitir o uso gratuito das minhas vinhetas a quem quiser, desde que possa ir à peixaria e, da mesma maneira, me ofereçam os perceves.Talvez pudesse ser um bom ponto de partida para ensinar a toda a gente, grandes e pequenos, o respeito que os criadores merecem.


Miguel Ángel Corcobado
Comunicación y marketing corporativo, PRISA

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