Demolir a sala de aula difícil é

O pedagogo italiano Loris Malaguzzi (1920-1994) foi o primeiro a afirmar que as crianças têm três professores: o primeiro são os seus colegas; o segundo são os adultos que as rodeiam (professores, pais, familiares); e o terceiro é o ambiente construído (escola, casa, bairro, cidade). Professor, jornalista e psicólogo, Malaguzzi criou um projeto pedagógico pioneiro na cidade italiana de Reggio Emilia e foi autor, entre outros, dos livros “Zerosei” (1976) e “I Cento Linguaggi dei Bambini ” (1995). O objetivo destas escolas, que continuam a ser uma referência global, era criar uma escola acolhedora, ativa, inventiva, habitável, documentada e comunicável, um lugar de investigação, aprendizagem e reflexão onde as famílias, os meninos e as meninas, e os educadores se sintam bem.

Sessenta anos depois, a maioria dos centros educativos continua imersa na eterna decoração típica e com os móveis dispostos da maneira tradicional, um design que não acompanha a transformação educativa. O  Café Crea 10 “Transformamos ou Deitamos Abaixo a Sala de Aula? tornou-se o espaço por excelência onde avançar com perguntas e soluções acerca da necessidade de reinventar a sala de aula para a aproximar das necessidades e metodologias do século XXI. Assistindo em streaming ao evento, o célebre Mestre Jedi quis partilhar a sua experiência galáctica de séculos e as suas conclusões sobre o tema:

1.- Os edifícios obsoletos estão: “Os edifícios tornaram-se obsoletos em relação às mudanças que estão a surgir na educação. As novas pedagogias precisam de outros espaços que acompanhem maneiras diferentes de aprender. É preciso transformar o conceito de sala de aula, no seu sentido mais lato”, disse Lucila Urda, do estúdio madrileno Pez Arquitectos, que pôs em marcha o Projeto Micos, “… micro-intervenções escolares com o intuito de transformar de forma sustentável e participativa os espaços públicos (acessos e recreios) dos centros educativos”.

CafeCrea_10_022.- Abandonar o modelo tradicional possível é: “O modelo tradicional de sala de aula já ficou para trás…”, afirmou Josefina Sánchez, mestre em Investigação Educativa, Diretora do Ensino Secundário do Instituto Anglo-Espanhol no México e parceira de debate juntamente com Urda. “Eles esperam um processo diferente nas aulas, adequado às novas realidades tecnológicas. O giz e o quadro ficaram para trás. Os jovens são assim por natureza geracional, vemos que são sobre-estimulados, colocando constantemente à prova a nossa capacidade de adaptação ao século XXI. E refiro-me à mente dos adolescentes porque, na vida de alguns docentes, há melancolia em relação a isso e, consequentemente, temor.”

3.- Se os resultados educativos melhorar quiser…: “Os estudos realizados não nos apresentam bons resultados educativos. Porque não dar uma volta ao sistema? Se a sociedade muda, a escola também tem de mudar”, afirmam Vicky Suárez e Patricia St. Maur, docentes e coordenadoras do “Proyecto Sin Muros”no Colégio Montserrat de Madrid. “… o espaço tem influência sobre os estímulos, na forma como nos relacionamos e na própria metodologia da aula. Um espaço bem organizado, adaptado às necessidades das crianças, vai ajudar a obter uma melhor aprendizagem.” 

4.- Para habitar emocionalmente a sala de aula, esperar não devemos: “Habitar é inevitável para todos, mas pode ser feito de muitas maneiras diferentes. Para o ensino, habitar significa apropriar-se reflexiva e emocionalmente dos espaços e transformar os ambientes que as instituições nos proporcionam em “bons” e “belos” locais de trabalho, em sítios adequados para ensinar e para aprender”, disse no seu estudo As Paredes da Sala de Aula. Aventurar-se a Pensar na Aula como um Espaço Criativo Gabriela Augustowsky, docente na Universidade de Buenos Aires e na Escola de Capacitação Docente do Governo da Cidade de Buenos Aires, além de coordenadora de diferentes programas orientados para a inovação pedagógica.

cafeCrea_10_01

5.- Caminhos rumo à aprendizagem há, mais ricos do que os do costume: As normativas determinadas pelas administrações públicas para a conceção e construção dos centros educativos são antiquadas e excessivamente quadriculadas, não permitindo aos profissionais da educação e da arquitetura fazer da escola… “um espaço agradável, com luz natural, com mobiliário que permita diferentes configurações na sala de aula, com materiais quentes, energeticamente bem acondicionado, bem orientado e iluminado, com vistas para um espaço exterior com vegetação… todos estes elementos ajuda a criar um ambiente educativo melhor e propiciam uma aprendizagem mais rica”, reitera Lucila Urda.

6.- Dar voz ao corpo discente e na reiteração não cair: Empoderar o corpo discente é imprescindível para não criar de novo salas de aulas cujo design implique um virar de costas às novas relações professor-aluno e aluno-aluno, afirmou no debate Santiago Atrio, Arquiteto Vice-Reitor de Ordenação Académica e Desenvolvimento de Graus Académicos, Professor Contratado, Doutor da Universidade Autónoma de Madrid, Faculdade de Formação de Docentes. “Os docentes são construtores de ambientes de aprendizagem.”

7.- A metodologias e o espaço ao mesmo tempo mudar deves: Sem uma mudança a nível da metodologia, não há uma transformação relevante no processo de aprendizagem, afirmaram especialistas presentes na sala e os utilizadores nas redes sociais. Não se trata de mudar móveis mas sim uma dinâmica, uma ideologia. “O docente facilitador precisa de um espaço adequado para essa mudança de papel“, afirmou Nilda Palacios, docente oriunda da Argentina e especialista em Construtivismo e Educação. “E não nos esqueçamos de avaliar o próprio processo de transformação”, assinalou Lucila Urda.

Group Of Elementary Age Schoolchildren Running Outside

8.- Sempre a família há, nem mais, nem menos: O apoio das famílias é imprescindível para que a mudança seja relevante. No início, algumas reagem com receio perante a incerteza, mas “… Por outro lado, mostram-se muito motivados, com vontade. Ficam contentes ao ver que se procuram novos métodos de trabalho na escola”, afirmaram Vicky Suárez e Patricia St. Maur, no seguimento da sua experiência com o “Proyecto Sin Muros”.

Realizada em colaboração com o IUCE (Instituto Universitário de Ciências da Educação) da UAM e moderada por María Rodríguez Moneo, doutorada em Psicologia e Diretora do IUCE, a décima edição do Café Crea, Transformamos ou Deitamos Abaixo a Sala de Aula? teve lugar no passado dia 26 de novembro e encontra-se disponível em vídeo.

E se, como diz o Mestre, o tema interessante lhe parece:

Descubra os 13 centros escolares mais inovadores do mundo!


Isabel Andrade
Santillana Negocios Digitales

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