O Outro Conto de Natal

Se você alguma vez leu Um Conto de Natal de Charles Dickens ou viu alguma das suas adaptações cinematográficas ou televisivas, deve pensar que Ebenezer Scrooge é apenas uma personagem de ficção exagerada para justificar a moral da história. Mas não pense que uma personagem tão avarenta e egoísta não existe, já que na realidade ele se foi transmutando no corpo de Jeff Bezos, o fundador da Amazon.

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Tudo isto parece uma acusação mesquinha, mas se fizermos uma recapitulação da vida de Jeff Bezos, ou melhor, da sua biografia após fundar a Amazon, daremos conta da quantidade de semelhanças que tem com a personagem vitoriana de Dickens e que até é perfeitamente lógico que seja visto pela panóplia de fantasmas que visitam Scrooge no conto. Imaginemos então:

É véspera de Natal e o avarento e egoísta Scrooge, neste caso Bezos, é visitado pelo fantasma do seu sócio Jacob Marley, que para a nossa história pode ser perfeitamente encarnado por Steve Jobs que, apesar de não ter sido sócio do nosso protagonista, tem as mesmas crenças em relação aos seus implacáveis métodos de fazer fortuna, criar fama de guru e falta de escrúpulos na forma como trata os funcionários. Continuemos imaginando que Jobs foi castigado no Além, sendo obrigado a carregar umas pesadas correntes repletas de smartphones e tablets Samsung para toda a eternidade por ter sido tão egoísta e avarento, e que vem avisar o seu colega de que a sua corrente terá o dobro do tamanho e estará carregada com todos os best-sellers da Barnes & Noble se não melhorar a sua atitude, motivo pelo qual será visitado por três espíritos que o farão ver os aspetos mais miseráveis da sua vida e que lhe darão a oportunidade de se redimir.

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O Fantasma do Natal Passado

Imaginemos agora que o Fantasma do Natal Passado mostra a Bezos, tal como fez com Scrooge, como era justo antes de se transformar num ser apenas concentrado em levar a sua empresa o mais alto possível, custe o que custar. O fantasma mostra a Bezos o momento em que vendeu tudo e viajou com a sua mulher até Seattle para fundar a Amazon, assim como várias das suas declarações daqueles primeiros anos, por volta do ano de 1998:

“A venda eletrônica de livros não impede que haja um futuro para as livrarias”.

“Há lugar para todos no comércio pela Internet. Vai ser um mercado de milhares de milhões”.

“O papel é muito superior a uma tela de computador como meio de apresentação”.

“Interessa-me mais ser o melhor do que ser o primeiro”.

Ai! Que tempos aqueles em que a nossa personagem era apenas um vendedor de livros online com talento e visão para ser um pioneiro no agora tão popular e-commerce.

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O Fantasma do Natal Presente

Imaginemos agora que o nosso Scrooge do comércio eletrônico é visitado pelo Fantasma do Natal Presente, que lhe mostra no que se transformou devido à sua ambição. Enfrentou denúncias devido às condições de trabalho em vários países europeus e nos Estados Unidos. Em 2013, uma reportagem realizada com uma câmara oculta pelo prestigioso programa de investigação BBC Panorama assegurava que os trabalhadores enfrentavam um stress tão brutal que a sua saúde mental estava em risco. A Confederação Internacional de Sindicatos elegeu-o em maio de 2014 como o pior chefe do mundo. A tudo isto, há que juntar a sua facilidade em encontrar escapatórias para pagar menos impostos do que lhe compete pagar.

Bezos é capaz de ter perdas ao baixar o preço das suas mercadorias para conquistar o coração e, por acréscimo, os bolsos dos usuários. Algo que lhe custou confrontos com diversas editoras, tanto nos Estados Unidos com o grupo Hachette, como na Alemanha com o Bonnier Media Group, e granjeou ainda como bônus a inimizade dos intelectuais e escritores mais populares do mundo, além de levar a que em alguns países, como na França, se tenham criado leis para proteger a cultura e o futuro das editoras.

A reação da Amazon, na sua posição monopolista, é de total desafio, já que controla cerca de 60% do mercado livreiro dos Estados Unidos e cerca de 25% na Alemanha. No caso dos livros eletrônicos, já em 2010 a Amazon arrecadava quase 90% do mercado estadunidense, apesar de, nos últimos quatros anos, a Apple se ter tornado um competidor importante e ter reduzido o seu domínio para os 65%.

E não é só isso, agora as frases de Bezos mudaram subtilmente:

“Temos de encarar as editoras como uma chita vê uma gazela doente”. Frase atribuída a Bezos por Brad Stone, jornalista e autor do livro The Everything Store. Jeff Bezos and the Age of Amazon.

“Quanto mais barato, mais se vende, tanto faz se são cafeteiras ou livros”. Outra pérola de Bezos que indica o seu compromisso em difundir toda a cultura que tem nos seus catálogos.

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O Fantasma do Natal Futuro

Voltemos uma vez mais a imaginar que Bezos é visitado pelo terceiro fantasma que anteriormente tinha visitado Scrooge e que, sem dizer uma palavra, lhe mostra o final do seu império. Isto talvez seja menos imaginável do que parece. Bezos, com 33 anos, lançou a sua livraria online na bolsa de valores e hoje, com 50 anos, é um dos 30 homens mais ricos do mundo, de tal maneira que apenas com 1% da sua fortuna pessoal comprou em 2013 o jornal diário The Washington Post.

A máxima na qual a companhia de Bezos quer alicerçar o seu futuro é a ideia de que o cliente é o protagonista. Todas as ações estão encaminhadas para satisfazer os seus interesses (de compra) e, para tal, são objeto constante de estudo por parte da Amazon para, de alguma maneira, ser capaz de se antecipar ao que o usuário poderia estar começando a pensar em buscar. Esta máxima está de fato acima de ganhar ou não dinheiro, já que Bezos prevê ser a loja online de referência em que o cliente pense sempre quando quer comprar alguma coisa, acima de todas as outras. É uma estratégia a longo prazo, mas que seguramente obterá resultados, a menos que façam asneira e se tornem uma daquelas marcas que caem nas más graças do usuário. Claro está, já estão nesse caminho.

Utilizar drones para a entrega de mercadorias, substituir o pessoal dos armazéns por robôs, fabricar dispositivos móveis, vender de tudo o que possa ser vendido na sua página, metendo-se em todos os territórios alheios e enfrentando qualquer gigante que esteja no topo de qualquer setor – basta ver a sua incursão na venda de roupa em Espanha, um claro desafio aos impérios da Zara, do El Corte Inglés e da Privalia – são algumas das visões que Bezos está preparando para o futuro da Amazon.

Amazon só entrou 15.000 robôs Kiva em suos enormes depósitos de Tracy, Califórnia. A empresa alega que isso não reduz o recrutamento de pessoal, mas é normal que isto irá inspirar muitas dúvidas.

O ideal seria continuar imaginando que, no final do conto e tal como Scrooge, Jeff Bezos se dá conta do mal que está fazendo e faz por se tornar uma boa pessoa, aumenta o ordenado de todos os seus funcionários, avalia o custo da cultura, baixa o seu nível de ambição e oferece Kindles a meio mundo pelo Natal, mas temo que a realidade vai ser diferente e que as visitas dos espetros não tenham servido mais do que para fortalecer o império do e-commerce e reforçar as suas ideias de vender o que o cliente exige num só clique e entregá-lo em tempo recorde.

Para terminar, justifica-se deixar esta citação de Bezos, que engloba toda a essência da cultura da Amazon:

“Tivemos três grandes ideias na Amazon, com as quais temos trabalhado durante 18 anos, e que são a razão pela qual temos tido êxito: O cliente é o principal. Criar. E ser paciente”.

Aqui, quisemos apenas imaginar: nem Bezos é Scrooge, nem Um Conto de Natal é a Amazon, apesar de tanta semelhança com a realidade poder não ser mera coincidência, mas preferimos que seja o leitor e a sua própria imaginação a fazer o seu juízo.


Miguel Ángel Corcobado
Equipo de Transformación da PRISA

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