Territorio Creativo: O berço dos ‘socialholics’

tcreativo

O Territorio creativo é uma criação de Fernando e Juan Luis Polo, dois irmãos com vontade de mudar o mundo. E ainda que a história desta agência tenha começado em 1997, encontramos a verdadeira gênese da sua digitalização em 2005, com a publicação do seu blog corporativo. Desde então a empresa desenvolveu uma cultura de inovação cujos segredos nos são revelados por um dos seus fundadores.

Fernando Polo.

As 10 respostas de Fernando Polo, sócio diretor-geral executivo da Territorio creativo

P- Ouvimo-lo recentemente dizer que a Territorio Creativo teria encerrado se não tivesse decidido criar um blog em 2005. Que papel teve esse diário no trajeto da vossa empresa?

Em 2005, decidimos lançar o TcBlog. Naquela altura, só existiam mais dois blogs de marketing em espanhol. Desde o lançamento que foi muito bem acolhido e em 2008 era uma referência em blogs da temática de negócios. Hoje, conta com 25 mil subscritores, RSS e 100 mil páginas visualizadas por mês. Em 2009, ainda que já tivéssemos vendido os primeiros projetos de blogs para clientes, a Territorio Creativo não suportou a crise e tivemos de reinvestir, porque a marca era conhecida (associada a temas de marketing 2.0) e tinha muito valor. E essa marca tinha sido construída graças ao blog. Como tal, se não o tivéssemos criado, hoje não existiria a Tc como empresa. Para além disso, o blog mudou tudo. Ensinou-nos a dialogar, a partilhar, a gerar valor sem esperar nada em troca. Fomos convidados para dar conferências, e dessas conferências saíram oportunidades de negócio. Hoje, na Territorio creativo, não temos de fazer telefonemas para vender. E, quatro anos depois, crescemos muito e a nossa reputação já é sustentada pelos projetos e clientes atuais, tudo derivado do reconhecimento de marca através dos conteúdos próprios.

 

P- Para vocês, a criação de uma cultura de inovação implica que ela não seja esmagada por uma hierarquia. Esta máxima pode funcionar em todo o tipo de organizações, independentemente da sua dimensão, setor ou atividade? Como se consegue eliminar a verticalidade?

Quando falamos de “trabalhadores do conhecimento”, essa máxima é sempre válida. No entanto, eliminar a hierarquia não é uma tarefa fácil. É um trabalho de transformação cultural lento. Especialmente em entidades com muitos funcionários. Quando nos reconvertemos, em 2009, começamos do zero e criamos uma cultura de “auto exigência”, não do chicote. Entre outras coisas, é necessário o “aceso livre à informação” (nada de ocultar informação para proteger o poder) e “formação”, para entender a informação e poder trabalhar para os objetivos desejados. Também afirmamos que é muito importante ler muito, escrever muito e falar muito.

P – Ainda que se consiga eliminar essa hierarquia vertical e não seja necessário esperar por aprovação para avançar nos projetos, no final, a avaliação é sagrada. Como se articula a avaliação dos profissionais numa organização baseada nestas premissas?

A avaliação é sagrada. Mas tem de acontecer em todos os sentidos. Todos temos de ter claros os critérios de avaliação, e todos se avaliam entre si. Na nossa empresa, a avaliação de uma pessoa mais experiente vale tanto como a de uma pessoa de menor experiência. São especialmente importantes as avaliações dos colegas (peer to peer ;-)). Para manter uma equipa de pessoas exigentes com elas próprias, há que evitar que haja colegas que não sejam. Porque desmotivam. O despedimento, como a guerra, é o último recurso. Mas há que despedir (e contratar) conforme a cultura (não apenas por aptidões, mas sim especialmente por atitudes).

 

P – Outro dos mantras da Territorio Creativo é que a inovação debe basear-se em atos e não em palavras. E, para o colocar em prática, apoiam-se em três pilares: a visão, o desenvolvimento e o auto-gerenciamento.  Pode aprofundar os componentes desta fórmula?

Visão: deve-se pintar a terra prometida. A visão é dar uma finalidade ao nosso trabalho que vá mais além do nosso dia a dia. Atenção, não se trata de uma frase corporativa supérflua. Como imaginamos um mundo melhor? E a missão da empresa é ajudar a construir essa visão. Uma missão muito simples, para que todos possam tomar decisões em todos os momentos, sem ter de perguntar: como podemos ajudar a construir esse mundo melhor?

Em relação ao desenvolvimento, trata-se do domínio de uma área, do desenvolvimento pessoal e profissional. Formação, desafios intelectuais, um meio que avança e progride.

Por último, o auto-gerenciamento tem a ver com os temas de management 2.0, gestão sem ordens intermédias, menos chefes, mais auto-exigência. Essa “autonomia” no trabalho mantém-nos motivados, porque perseguimos os nossos sonhos e tarefas. Um “superior” deve fixar objetivos, não estabelecer tarefas.

 

P – Diz-se que as pessoas são o principal ativo de uma empresa, ainda que vocês explicitem que, na realidade, esse valor assenta nas pessoas adequadas. Em que consiste exatamente esse aspeto?

Efetivamente, não serve qualquer pessoa. Nós dizemos que, na Tc, procuramos pessoas boas e boas pessoas. Ainda que a bondade e a excelência técnica ou aptidões não sejam fáceis de medir, todos sabemos o que significa trabalhar ao lado de uma pessoa conflituosa, capaz de qualquer coisa para alcançar os seus objetivos anuais. Essa pessoa não traz qualquer valor à empresa. Só o diminui. Se precisarmos de pessoas intelectualmente inquietas, e tivermos na empresa pessoas que não leiam nem deixem ler, estamos a perder valor, evidentemente. Mas noutra empresa, uma pessoa que não seja intelectualmente irrequieta mas que seja muito calculista pode trazer valor. É por isso que um despedimento não é uma avaliação absoluta, mas sim uma falta de encaixe entre um indivíduo e o projeto em que participa.

P – Na vossa empresa também dão muita importância à cultura da comunidade e ao bem comum: desde a colaboração em projetos até ao esforço conjunto para mater limpo o lava-loiça da cozinha. Como se traduzem estes assuntos do dia a dia no bom funcionamento da empresa?

Dizemos que um “teceriano” recém-incorporado demora dois meses a trazer valor para o seu projeto, quando o período médio de aprendizagem noutras empresas é de seis meses. Isso tem um impacto muito forte na nossa demonstração de resultados. Para chegar aos 80 “tecerianos” que somos atualmente, nos últimos quatro anos contratamos 150 pessoas. Essa poupança traduzia em valor entregue (preço à hora para o cliente) supõe 600 meses por pessoa (um forte investimento).

Somos uma agência e consultora de inovação e engagement. Temos que aprender todos os dias, e quanto mais “partilharmos” o nosso conhecimento com os nossos colegas, mais rápido aprendemos.

Falamos do nosso “service index”. O melhor “teceriano” é o que ajuda os seus colegas sem pestanejar. Essa vocação de serviço, de carinho, tem muito a ver com o “bem comum”. Se tiver de fazer horas extraordinárias para ajudar a pôr por escrito algo que aprendi num projeto, para ajudar outros colegas (uma metodologia, por exemplo) estou a trabalhar para o bem comum. E manter as instalações limpas é uma metáfora de respeito e trabalho para o bem comum. Assim, é importante que a cozinha fique bem limpa ;-).

 

P – Que projetos ou ferramentas surgiram dentro da vossa empresa partindo destas premissas? Em que consiste cada um deles?

O TcMetrics é um software de métricas para o Twitter que usamos para nós e para os nossos clientes e que poupa muito tempo de trabalho. E o Tc+ é uma plataforma de co-criação interna que esperamos abrir em breve para que mais pessoas possam beneficiar dessa comunidade e possamos trabalhar com pessoas de todo o mundo.

Para além disso, foram desenvolvidos scripts básicos para poupar tempo, que rapidamente foram colocados à disposição de outros projetos. Ou foram elaboradas metodologias por sugestão de uma pessoa, que conseguiu reunir o trabalho de várias pessoas. Realizamos campanhas criativas internas como a última deste Verão, “No al piestureo” que surgiu da vontade das equipas criativas. Ou foram realizadas ações de RSC (assessoria a ONGs, startups) em horários teoricamente laborais (uma coisa antiga, essa dos horários laborais). Estão sempre acontecendo coisas das quais os “diretores” não têm conhecimento até ao último momento (ou das quais se inteiram pelo Instagram ;-)). O talento e a criatividade não têm limites se não nos empenharmos em limitá-los.

P – No ano passado, foi publicado “#Socialholic”, um libro em que você e o seu irmão, Juan Luis Polo,  contam os segredos do marketing nas redes sociais. Tendo em conta a celeridade com que as coisas acontecem na Internet, que novos capítulos acrescentaria hoje a esse livro?

De fato, há duas áreas muito importantes que ganharam força e que são referidas no livro apenas ao de leve. Social CRM (integração de dados externos e internos de clientes para melhorar o conhecimentos e eficácia da comunicação comercial), fidelização 2.0 (introduzir o poder do comércio social e da compra de grupo nos programas de fidelização) e social business intelligence (análise e data mining de dados sociais).

Mas o livro em que estamos envolvidos agora tem a ver com o gerenciamento empresarial orientado para a criação de uma cultura de inovação (os temos que estamos agora aquí a desenvolver).

 

P – Todas as sextas-feiras, celebra os #TCDesayunos. Qual é o objetivo desses encontros e a quem estão dirigido??

O objetivo é criar um ritual de cultura que responda aos nossos valores: partilhar, dialogar e abrirmo-nos ao exterior. Também têm que ver com as relações públicas e comunicação, mas dirigem-se principalmente aos próprios “tecerianos”. Toda a comunidade está convidada (o espaço é finito, mas nos apertamos se for necessário).

 

P – Finalmente, como resumiria o espírito de um “teceriano”?

Um “teceriano” é um socialholic. Alguém que tem uma vontade infinita de aprender, de se divertir trabalhando, de partilhar essa diversão com outras pessoas, de enfrentar desafios intelectuais e se divertir criando. Alguém que sabe que enfrentar a vida e o trabalho (work life balance) é uma aberração que deve ser superada.

 

 

José Ángel Plaza

,

Equipe de Transformação da PRISA

Comments are closed.

MENU
Read previous post:
education
Porquê usar apps educativas?

O boom dos dispositivos móveis ao longo dos últimos anos e, sobretudo, o lançamento do iPad em 2010 propiciaram um...

Close