“As pessoas com talento devem trabalhar em grandes problemas e ter liberdade para solucioná-los”

Bernardo HernándezNo passado mês de agosto, Bernardo Hernández abandonou a Google para assumir a responsabilidade mundial do Flickr, a comunidade de partilha de fotos e vídeos do Yahoo! Este novo desafio soma-se a uma carreira profissional que conseguiu conjugar com sucesso os negócios digitais, o empreendimento e o investimento em projetos de terceiros.

P.- Idealista, 11870, StepOne, Bodaclick, Tuenti, Google, Yahoo!… A sua trajetória está repleta de êxitos, mas certamente alguma das ideias que concretizou acabou por não atingir os resultados esperados. Pode revelar-nos alguma?

Acredito que o fracasso é tão importante como o êxito. Existe um elemento de aleatoriedade em todas as apostas e, por isso, a probabilidade de fracasso é bastante alta e temos de aceitá-la. Além disso, através do fracasso, aprendemos o que não podemos voltar a fazer.

Em várias ocasiões, investi em empresas que não tiveram sucesso, como a Planetaki, por exemplo. Ou em outras que não obtiveram o êxito que eu esperava, como a FloresFrescas.

 

P.- O que falhou nessa altura e o que mudaria agora para solucioná-lo?

No primeiro caso, o produto era muito bem, mas falhou a entrada no mercado e a distribuição. No segundo caso, falhou o marketing e a política de preços. Ambas as empresas continuam ativas, mas sem o êxito que eu antecipara.

Ainda assim, o mais importante é ser imune ao desalento e voltar a tentar até que se consiga. Como disse, o fracasso tem o valor acrescentado de nos oferecer experiências que ajudam a tomar decisões sobre o que não fazer no futuro. Nos tempos que correm, em que é tão fácil e rápido abrir uma empresa, é importante fracassar cedo para reorientar a estratégia para outras direções o quanto antes.

P.- Outra das suas facetas é a de ‘business angel’. Que requisitos deve reunir um projeto de terceiros para que decida apostar nele?

Tem de solucionar um problema importante através de uma vantagem técnica competitiva e clara. Além disso, deve ser idealizado por uma equipe de talento que não só trabalhe arduamente, mas que também dê provas e que tenha capital suficiente para poder desenvolvê-lo.

P.- Mas muitos empreendedores recorrem a ‘business angels’ precisamente porque não têm esse dinheiro…

O dinheiro não é o mais importante. O dinheiro é uma commodity e o importante são os conselhos, os contactos e a orientação estratégica.

Bernardo Hernández

P.- A sua trajetória profissional tem estado ligada sobretudo a companhias baseadas na Internet, com o negócio digital no seu ADN. Desse ponto de vista, como encara os processos de transformação que as organizações “analógicas” devem abordar para se adaptarem a essa nova realidade?

Os processos de transformação costumam ser complexos e com muitos obstáculos. Além disso, atualmente, os diretivos responsáveis pelos negócios tendem a defender as linhas estratégicas vigentes porque se preocupam com as receitas já existentes, perdendo assim a perspetiva que vê como necessário o investimento na mudança futura.

Mas, em breve, tudo será submetido a um processo de transformação digital. Cada vez mais, serão necessários menos trabalhadores para fazer as mesmas tarefas ou mais. Do mesmo modo, os mercados serão mais eficientes e, portanto, mais competitivos, pelo que as empresas têm de ajustar os seus processos, produtos e serviços. O conceito de empresa analógica tornar-se-á obsoleto muito em breve.

P.- Quais são as medidas mais eficazes para captar, desenvolver e reter o talento no seio de uma organização?

O que mais atrai as pessoas de talento é trabalhar em grandes problemas e ter os recursos e a liberdade para poder solucioná-lo. Tudo o resto são táticas secundárias.

P.- A Google lidera, ano após ano, os rankings das melhores empresas para trabalhar e continua definindo o futuro digital de praticamente tudo o que nos rodeia: desde os negócios até à nossa vida pessoal. O que o fez deixar esta companhia? Por que não conseguiram mantê-lo?

Depois de oito anos a trabalhar na empresa, queria desafios novos que pudesse liderar pessoalmente. Na Google, tinha-se tornado complicado ter produtos concretamente definidos e sobre os quais fosse possível atuar diretamente a nível da estratégia e implementação.

P.- O teletrabalho é normalmente referido como uma das vantagens oferecidas pelas novas tecnologias para conciliar a vida profissional e a pessoal. Contudo, há uns meses, a Yahoo! anunciou a sua intenção de reduzir o teletrabalho, afirmando que os trabalhadores são mais inovadores quando veem outros rostos. Não é uma decisão chocante, vinda de um dos gigantes da Internet?

Quando o teletrabalho afeta a produtividade da empresa, torna-se um problema. A falta de estratégia de produto e de qualidade de execução na Yahoo! ao longo de anos tinha levado a companhia a uma situação de produtividade baixa que fazia com que o teletrabalho tivesse efeitos muito nocivos sobre qualquer solução que se tentasse implementar. O contacto físico continua tendo as suas vantagens.

Bernardo HernándezP.- Quais são os desafios que se colocou ao assumir a direção do Flickr?

O Flickr criou a categoria da fotografia digital online. Foi o primeiro sítio onde era possível carregar fotos, partilhá-las e comentá-las. Creio que existe uma enorme oportunidade para recuperar esse lugar com os desafios que a tecnologia coloca atualmente, como a necessidade de integrar todas as fotos que tiramos, poder partilhá-las com outras pessoas e conseguir tirar fotos com a precisão que a tecnologia atual permite.

P.- Como mudou a fotografia com a chegada das novas tecnologias?

A essência da fotografia está mudando de dia para dia. Durante 150 anos, a fotografia foi um meio através do qual se captava um momento para recordar ou por recreação artística. Com a chegada das novas tecnologias e, acima de tudo, do celular e das redes sociais, a fotografia é agora uma forma de expressão pessoal, uma maneira de alcançar uma admiração quase instantânea. Casos de êxito como o Instagram ou o SnapChat são exemplos claros desta transição na própria essência da fotografia.

P.- Em que direção seguem os próximos passos do Flickr? Quais serão as mudanças a que assistiremos nos próximos meses?

O primeiro passo será uma forte aposta no celular. Além disso, continuaremos reforçando os nossos esforços de comunidade e exploraremos formas inovadoras de monetizar a fotografia.

José Ángel Plaza
Equipe de Transformação da PRISA

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