‘Out of Print’. Quem matou o livro?

O mundo dos livros está sofrendo um tremor de terra em câmara lenta: bibliotecas vazias, livrarias encerradas, escritores que já não conseguem viver do seu trabalho… o livro em papel, o formato do livro em papel está desaparecendo. Tão simples quanto isso.

Muitos historiadores consideram que a agitada transição do livro em papel para o livro digital, o e-book, é comparável ao choque produzido pela invenção da imprensa na Europa da Baixa Idade Média.

Todos estamos vivendo esta transição favorecida pelos gigantes dos novos negócios da informação. O livro em papel como bode expiatório, uma vítima necessária para que a Internet brilhe sem obstáculos. Uma infinidade de livros e artigos preveem constantemente a sua morte.

Out of Print (Esgotado) é um documentário realizado por Vivienne Roumani (antiga diretora da Biblioteca do Congresso e da biblioteca da UC Berkeley) que estreou no passado mês de abril de 2013 no Festival de Cinema de Tribeca, em Nova Iorque. O filme foi projetado desde então em numerosos festivais norte-americanos, despertando a atenção dos meios de comunicação social e gerando numerosos debates e controvérsias sobre o tema primordial que é a leitura.

A narração de Meryl Streep conduz-nos pelo panorama inquietante de um mundo que se extingue, onde já não é comum as crianças e os adultos se sentarem tranquilamente a ler um romance.

O documentário reflete sem rodeios sobre como seria a nossa vida sem a existência da leitura longa e descansada. Examina as mudanças que se estão produzindo nos meios de comunicação atuais, sobretudo no mundo editorial. Todos estamos vivendo esta transição e porventura por isso não temos grande consciência da sua importância. Os efeitos da revolução digital manifestam-se nos autores, nos professores, nos bibliotecários, nos leitores… ou seja, em todos nós.

No filme aparecem, entre outros, Jeff Bezos (fundador e CEO da Amazon), Ray Bradbury (recentemente falecido e autor desse livro profético e tão atual que é Farenheit 451), Scott Turow (romancista, advogado e presidente do grémio de autores) e Jeffrey Toobin (jornalista da The New Yorker e da CNN).

É chocante ouvir Jeff Bezos falar apaixonadamente da leitura de livros em papel quando o seu Kindle representa precisamente o contrário.

No seu trabalho, Vivienne Roumani tenta chegar ao fundo da questão, que ultrapassa os formatos ou dispositivos de leitura. Se atualmente somos incapazes de aguentar um texto longo, se só lemos e escrevemos textos curtos, se as crianças se assustam com uma ida à biblioteca, se um em cada cinco norte-americanos já não lê livros, se os estudantes obtêm tudo o que precisam através do Google… Não estará mudando a nossa maneira de pensar?

A essência cultural da civilização ocidental, a nossa, está baseada no livro.

Há um fio condutor que se estende desde as tabuletas de argila mesopotâmicas onde se registavam as contas e os hinos religiosos, os papiros gregos ou romanos com a nossa filosofia essencial e o pergaminho medieval dos mosteiros até ao papel impresso dos livros do nosso tempo. É a nossa cultura escrita – e o seu significado – que, de acordo com Vivienne Roumani, está oscilando, se modificando.

Os novos artefactos – computadores, tablets, smartphones – vieram para ficar. É curioso como atualmente se lê mais do que nunca na história graças a estes dispositivos, mas também se averiguou que é uma leitura sem profundidade, sem reflexão, uma leitura galinácea. É o lado obscuro do hipertexto que está se revelando fatal, que nos deixou frágeis e distraídos.

A Google, a Apple ou a Amazon são os novos gigantes do negócio editorial que nos fascinam com as suas constantes inovações tecnológicas. São os artífices deste amigável consumo revolucionário e moderno que nos está tornando tão superficiais.

Vievienne Roumani e os vários intervenientes do documentário concluem esperançados que a solução para o problema está na educação. Os pais e os professores serão o principal bastião na defesa da leitura. Em suma, da civilização e da democracia.

Biblioteca_SanAntonio

Biblioteca pública do futuro
com sabor hispânico e totalmente digital, em San Antonio, Texas.

Santiago Carbajo

PRISA Noticias

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