Tesla transmídia: quando roubaram a luz a Nikola Tesla

«O presente é vosso, mas o futuro, por tudo o que trabalhei, me pertence».

Esta frase foi dita por Nikola Tesla como única forma de protesto que lhe restava contra os seus saqueadores. Inventores da sua época que ficaram injustamente reconhecidos pela História como criadores de invenções suas, como Edison e a eletricidade e Marconi e a rádio, pela qual obteve até um imerecido prêmio Nobel. Efetivamente, roubaram a Tesla não só os possíveis benefícios dos seus projetos como também os seus méritos e fama como físico. A exposição “Nikola Tesla. O futuro lhe pertence”, que percorreu meio mundo e que está agora na Fundação Telefónica de Madrid, procura defender tanto o reconhecimento merecido pela figura de Tesla como a difusão dos feitos de um cientista muito mais do nosso tempo do que poderíamos pensar, já que é considerado o fundador da tecnologia moderna.

Desde criança que gostava de desmontar coisas para ver como funcionavam. Não há dúvida de que foi esta curiosidade obsessiva que o levou a realizar vários dos projetos mais inovadores da História e ser visionário de tudo o que conhecemos hoje em dia: desde os primeiros passos da robótica, aos aviões de descolagem vertical, armas teledirigidas, lâmpadas de baixo consumo, energias alternativas, comunicação sem cabos de som e imagem ou a transmissão de eletricidade sem fios.

Mas o mais curioso é toda a atração transcultural gerada pela figura de Tesla. Um sem-fim de seguidores, chamados “teslianos”, procuram a eterna influência inovadora do inventor sérvio, atraídos por uma espécie de romanticismo futurista que recorda e procura recriar o futuro que teria sido possível se Nikola Tesla tivesse tido outra sorte.

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Graffiti dedicado a Tesla en Bucarest, Rumanía. Por Sweet Damage Crew.

Cidades inteligentes

Tesla idealizou um projeto reproduzido na chamada Torre Wardenclyffe, uma enorme bobina com a qual pretendia distribuir energia elétrica limpa de forma livre, universal, inesgotável e sem cabos, que serviria também para ter um certo controlo sobre a climatologia. Esta filosofia é partilhada hoje pelo conceito smart city, onde a sustentabilidade, cuidado com o ambiente e aproveitamento das energias como bem comum são premissas.

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Recreación de la Torre Wardenclyffe

A utopia energética

Energia grátis e livre para todos: é esse o meu sonho”. Este tipo de pensamento foi precisamente o que custou a Tesla o ostracismo no início do capitalismo norte-americano. Iss e o facto de ser um físico visionário e audaz, mas um mau empresário, algo aproveitado pelos seus arqui-inimigos Thomas Alva Edison e J. P. Morgan, que conseguiram desprestigiá-lo e antecipar o uso da corrente contínua com a fundação da empresa General Electric, menosprezando o uso da corrente alternada e fazendo todo o mundo esquecer de que não iriam pagar para ter eletricidade nos seus lares.

Fonte de inspiração transmídia

Nikola Tesla se transformou, atualmente, num ícone pop de tamanha envergadura que foram produzidos inúmeros derivados culturais em torno da sua pessoa, que incluem:

Histórias em quadrinhos como “The Inventor”, escrito por Ravé Mehta e ilustrado por Erik Williams; ou “Prophet of Science, da série Real Heroes, publicada em 1946.

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Ilustración del cómic “The Inventor”, 2012

No mundo dos videogames também há espaço para a influência de Tesla. Recentemente, foram publicados vários títulos como: “Teslagrad”, uma aventura de puzzles e plataformas da Rain Games, onde a eletricidade, o magnetismo e as leis da física têm um papel muito destacado. Com maior ação, aparecerá em 2015 “”para PlayStation 4, onde Tesla aparecerá como inventor de armas e equipamentos sofisticados. E não podiam faltar mods, mapas e recursos do Minecraft onde se homenageia a tecnologia deste personagem, que tem até o seu próprio crafteo: o Tesla Coil.

Aparições como personagem em dezenas de filmes como “O Terceiro Passo”, realizado por Christopher Nolan em 2006 e onde David Bowie dava vida ao cientista. Referências em seriados de televisão como House, Studio 60, Family Guy ou Mentes Criminosas, entre muitas outras.

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Episodio da serie de TV “Family Guy” con Tesla y Edison.

Livros como “Palácio da Lua” de Paul Auster, “Relâmpagos” de Jean Echenoz ou o recente romance de Miguel A. Delgado “Tesla y la conspiración de la luz”, onde surge uma Nova Iorque que brilha com as invenções de Tesla e não de Edison.

Inspirou ainda canções com a popular “Tesla girls” dos OMD, “Pobre Nicolás” de Cristina Rosenvinge, o nome e temas de várias canções do grupo de rock norte-americano Tesla e o músico Jim Jarmusch, que trabalha há vários anos numa ópera dedicada a Tesla.

Artistas contemporâneos como Marina Abramovic com obras como “Tesla Urn”, ou Terry Gilliam com “Mechanical Figures” se inspiraram em Tesla para as suas criações.

Naturalmente, todos estes raios e invenções do séc. XIX não podiam deixar de influenciar uma das correntes socioculturais mais atuais e que se engloba na sociedade digital. Estou me referindo ao Steampunk, que recupera a estética da época com toques de ficção científica e tecnologia atual.

Lo último en este influjo transmedia del inventor serbio es el libro interactivo “Teslapedia” que va acompañado de una aplicación para móviles y tabletas donde podremos enriquecer nuestra lectura con vídeos y gráficos de realidad aumentada sobre los inventos más relevantes.

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O mais recente exemplo da influência transmídia do inventor sérvio é o livro interativo “Teslapedia” que é acompanhado por uma aplicação para celulares e tablets onde podemos enriquecer a nossa leitura com vídeos e gráficos de realidade aumentada sobre as invenções mais relevantes.

Também são vários os projetos atuais que procuram dar continuidade ao legado do cientista. O mais completo é a difusão da sua obra na exposição itinerante que já referimos, mas outros gestos como a compra do laboratório de Tesla, Wanderclyffe, no estado de Nova Iorque, através da operação de crowdfunding que mais dinheiro arrecadou até ao momento (Agosto de 2012) e que reuniu 1.2 milhões de dólares que evitar que fosse convertido num centro comercial. Até a empresa de automóveis Tesla Motors prometeu doar mais um milhão de dólares para este projeto. Estas ações dizem bem do alcance mediático deste cientista.

Por outro lado, os irmãos Leonid e Sergei Plekhanov , físicos do Instituto de Tecnologia e Física de Moscovo, criaram o projeto ‘Tesla’s Planetary Research Program‘ que pretende retomar o sonho de Tesla de fornecer eletricidade sem fios para todo o mundo a custos muito baixos, e construíram uma Torre de Wardenclyffe atualizada e melhorada com energia solar. Para isso, também recorreram, ainda que com menor êxito, à plataforma de crowdfunding Indiegogo.

E claro, o MIT não podia deixar de estar presente nestas homenagens a Tesla e, em 2007, iniciou o projeto denominado “Witricity”, conseguindo iluminar uma lâmpada de 60 watts transmitindo a energia elétrica a dois metros de distância e sem fios. A sua variação em relação ao projeto de Tesla é que ele era de caráter global e o projeto do MIT quer centrar-se apenas na utilização dentro de cada lar.

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Diagrama del uso de la witricidad en el hogar.

Certamente que se poderão encontrar e possivelmente serão criados muitos mais motivos inspirados na figura deste brilhante cientista que adivinhou o futuro mas não pôde aproveitar o seu presente. Espero que desfrute de todos estes e que descubra Nikola Telsa com eles.

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Miguel Ángel Corcobado
Departamento de Transformación de PRISA

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